A-29 Super Tucano Realizando o lançamento de foguetes 70mm
Francisco de Assis Saraiva da Rocha
Suboficial (RM1-FN-IF) Comandos Anfíbios
O ambiente de segurança internacional contemporâneo é marcado pela assimetria dos conflitos, pela proliferação de ameaças não estatais e pelo recrudescimento de disputas em áreas estratégicas, como as regiões marítimas. Nesse contexto, as Forças de Operações Especiais (FOpEsp) têm se consolidado como instrumentos decisivos para a projeção de poder, neutralização de ameaças e garantia da soberania nacional. No âmbito da Marinha do Brasil (MB), destacam-se o Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais (BtlOpEspFuzNav), o Grupamento de Mergulhadores de Combate (GruMeC) e o Comando Naval de Operações Especiais (CoNavOpEsp) como unidade-chave na coordenação e execução dessas forças.
Entretanto, para que essas unidades possam maximizar sua eficácia em diferentes cenários, faz-se necessária uma plataforma aérea leve, robusta e versátil, capaz de prover apoio aéreo aproximado (Close Air Support – CAS), reconhecimento armado, interdição e apoio à inserção/exfiltração de operadores. Com esse objetivo, propõe-se a aquisição, pela Marinha do Brasil, de uma frota própria de aeronaves Embraer A-29 Super Tucano, especialmente adaptadas para operar em apoio direto às FOpEsp navais.
Embora a MB já opere aeronaves de combate — especificamente os caças A-4 Skyhawk modernizados (AF-1M) — verifica-se que estas aeronaves não são dedicadas exclusivamente ao apoio das FOpEsp, apresentando ainda limitações técnicas e operacionais em função de sua concepção datada e altos custos de operação. A seguir, apresento as limitações do A-4 Skyhawk, as vantagens técnicas do A-29 Super Tucano e uma proposta estrutural para sua integração.
O A-29 Super Tucano, desenvolvido pela Embraer, é uma aeronave de ataque leve e treinamento avançado reconhecida mundialmente por sua eficiência em ambientes de baixa intensidade e combate irregular. Destaca-se por alta manobrabilidade, resistência a ambientes austeros — incluindo pistas não preparadas — e capacidade multimissão. Seu motor turboélice Pratt & Whitney PT6A-68C, com 1.600 shp, proporciona elevada eficiência em voos de baixa altitude e velocidade controlada, favorecendo operações CAS com maior precisão e tempo de observação do alvo, algo que o turbojato do A-4 não consegue replicar. Seu leque de armamentos compreende metralhadoras, foguetes, bombas guiadas por laser e mísseis ar-superfície. Integra ainda sistemas avançados de aviônicos e sensores, com destaque para o FLIR (Forward Looking Infrared), permitindo operações noturnas e sob condições meteorológicas adversas. Outro aspecto relevante é seu baixo custo operacional, aliado à elevada disponibilidade técnica.

A-29 lançando bomba guiada a laser GBU-12 Paveway II (230 kg)
Essas características tornam o A-29 uma plataforma ideal para apoiar missões de Operações Especiais, sobretudo nos ambientes marítimo-litorâneo e amazônico, onde a Marinha do Brasil possui áreas de responsabilidade estratégicas. No plano tático, a aeronave atende plenamente às exigências das operações especiais navais, garantindo apoio aéreo aproximado às tropas do BtlOpEspFuzNav e do GruMeC. Tal capacidade é essencial em incursões realizadas em áreas hostis, sejam elas em terra firme, regiões ribeirinhas ou litorâneas, oferecendo precisão, segurança e minimizando riscos tanto para operadores quanto para civis nas áreas circunvizinhas.
Adicionalmente, o A-29 é capaz de desempenhar missões de interdição e controle de áreas marítimas, função crucial frente a ameaças assimétricas, como pirataria, tráfico transnacional de drogas e atuação de grupos criminosos que empregam embarcações rápidas. Equipado com sensores e armamentos adequados, pode realizar patrulhas armadas e ataques de precisão contra embarcações suspeitas, ampliando significativamente a capacidade da MB em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) marítima e proteção das Águas Jurisdicionais Brasileiras (AJB). Outro diferencial importante frente ao A-4 é o menor raio de curvatura e capacidade de voo em baixa altitude por períodos prolongados, permitindo melhor acompanhamento visual de alvos pequenos e velozes, algo mais complexo para caças de maior velocidade.

A-29 Disparando míssil ar-ar Piranha 1
Outro aspecto relevante é o potencial do A-29 para missões de reconhecimento armado e Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). Com seus sistemas avançados, incluindo sensores como o FLIR, e autonomia operacional estendida, permite ao Comando Naval de Operações Especiais monitorar áreas sensíveis, identificar alvos e fornecer dados em tempo real para apoio à tomada de decisão. A capacidade de coleta e disseminação rápida de inteligência é vital para operações que exigem elevado grau de precisão e flexibilidade. O A-29 pode ainda ser equipado com Data Link tático (Link BR2), possibilitando integração segura e criptografada com outras plataformas navais e aéreas, reforçando sua capacidade de operação em ambiente centrado em redes — vantagem que os AF-1M, mesmo modernizados, não possuem plenamente devido às limitações estruturais de integração.
A modernização da MB está alinhada à adoção do conceito de Guerra Centrada em Redes (Network-Centric Warfare), que visa integrar de forma plena os meios navais, aéreos e terrestres. A inclusão de esquadrões A-29 no organograma da Força possibilita convergência informacional, compartilhamento de dados táticos em tempo real e sinergia operacional, aspectos indispensáveis para as Forças de Operações Especiais, que exigem coordenação precisa e adaptabilidade frente ao inimigo.
Além das capacidades já mencionadas, destaca-se que o A-29 Super Tucano incorpora um pacote de tecnologias embarcadas que oferecem vantagens concretas às Forças de Operações Especiais. A aeronave possui um moderno sistema de navegação inercial integrado ao GPS/INS com redundância, garantindo precisão milimétrica no deslocamento, fundamental para infiltrações discretas e apoio cirúrgico às tropas. Conta ainda com o sistema HMD (Helmet Mounted Display), permitindo ao piloto manter consciência situacional total e designar alvos rapidamente sem perder contato visual com o campo de batalha.
O A-29 pode ser equipado com pod de designação AN/AAQ-22 Star SAFIRE III, que integra câmera eletro-óptica, infravermelho e laser rangefinder, ampliando sua capacidade ISR em tempo real e assegurando identificação positiva de ameaças. Complementa-se com Glass Cockpit de última geração, composto por telas multifuncionais coloridas (MFDs) e sistemas HOTAS (Hands On Throttle-And-Stick), otimizando o desempenho do piloto em ambientes dinâmicos e reduzindo carga cognitiva. Tais características tecnológicas colocam o A-29 em patamar superior ao A-4 Skyhawk no contexto de apoio aéreo a Forças de Operações Especiais, proporcionando flexibilidade, precisão e integração superior com outras plataformas.

A AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems, propôs um novo painel para o cockpit do A-29 Super Tucano, similar ao Gripen E/F, dentro do pacote de modernização da frota da FAB. Caso a Marinha opte pela compra, terá à disposição uma versão mais moderna e capaz da aeronave.
Sob a perspectiva logística e financeira, a aquisição do A-29 oferece vantagens expressivas. Produzido pela Embraer, assegura facilidade de manutenção, disponibilidade de peças e treinamento de pessoal local, contando ainda com apoio direto da Base Industrial de Defesa (BID). Seu custo por hora de voo — em torno de US$ 1.000 — é significativamente inferior ao de aeronaves de maior porte. A familiaridade do modelo com os já operados pela Força Aérea Brasileira (FAB) favorece a cooperação interforças e otimização logística, com centros de manutenção e treinamento conjuntos.
Por outro lado, a atual frota de caças A-4KU Skyhawk, designados AF-1M após modernização, apresenta limitações para o apoio direto às FOpEsp. Concebidos na década de 1950, os A-4 são aeronaves subsônicas, com desgaste estrutural e elevado índice de indisponibilidade técnica. Apesar da atualização com radar multimodo EL/M-2032, cockpit digital e capacidade para armamento guiado, seu custo operacional é estimado em mais de US$ 8.000 por hora de voo. Além disso, dependem de pistas preparadas ou operação embarcada, não sendo ideais para ambientes fluviais ou pistas improvisadas, essenciais para missões na Amazônia e áreas remotas. Não possuem capacidade operacional plena para emprego em operações conjuntas com unidades fluviais e costeiras sem apoio logístico de grande porte, ao contrário do A-29, cuja operação pode ser sustentada em aeródromos remotos com apoio mínimo. A complexidade logística e a limitação de suas capacidades ISR também restringem seu emprego prolongado e ágil em apoio às Operações Especiais, especialmente às de Fuzileiros Navais.
Nesse cenário, o Embraer A-29 Super Tucano apresenta-se como solução sob medida para atender às demandas específicas das FOpEsp da Marinha. Sua arquitetura modular permite rápida integração de novos sensores, como pods de reconhecimento EO/IR e sistemas SIGINT, ampliando a capacidade de inteligência e superioridade situacional. A robustez do projeto, capacidade multimissão e integração com sistemas C4ISR garantem eficiência e interoperabilidade com os demais meios navais. A facilidade logística, aliada ao apoio nacional e à proximidade operacional com a FAB, confere à proposta viabilidade estratégica, financeira e industrial. Recomenda-se, portanto, a criação de um esquadrão específico de apoio aéreo às Operações Especiais, subordinado ao CoNavOpEsp, composto por ao menos 6 aeronaves A-29 Super Tucano, com base operacional na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA) e/ou uma segunda a ser definida estrategicamente entre o Norte e Nordeste, possibilitando resposta rápida e flexível às exigências do ambiente operacional brasileiro.