14 de Janeiro, 2020 - 12:05 ( Brasília )

Brasil adia inauguração de base na Antártida após mau tempo


A inauguração da base científica brasileira na Antártida, prevista para esta terça-feira (14), foi adiada para quarta (15) em razão das condições meteorológicas que não permitiram o pouso de aviões com autoridades convidadas. Desde domingo, aeronaves da FAB tentam pousar na base chilena Frei, o aeroporto mais próximo da base brasileira, a três horas de navio, mas não conseguem concluir as operações por falta de teto.

Hamilton Mourão, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, entre outros convidados estão desde segunda (13) em Punta Arenas esperando uma janela." data-reactid="33" style="text-align: justify;" type="text"> A região tem condições climáticas bem instáveis, com falta de visibilidade e ventos fortes, o que impede o pouso. O vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, entre outros convidados estão desde segunda (13) em Punta Arenas esperando uma janela.

Segundo informações da Marinha do Brasil, há previsão de que nesta quarta (15) haja uma abertura no tempo e que o pouso seja possível.

Após a inauguração, a estação só estará funcionando plenamente nos próximos três meses, quando terminará a fase de testes. 

Vários ajustes, como a temperatura dos laboratórios, estão sendo feitos. A internet também não funciona a contento. No último domingo (12), quando começaram a chegar convidados, incluindo 17 jornalistas, a rede passou a apresentar falhas de conexão. Segundo o pessoal de apoio, a demanda chegou a ser quatro vezes maior do que a capacidade da rede.

Por enquanto, a rotina da base acontece nos módulos emergenciais montados após o incêndio. Cozinha, refeitório, enfermaria e demais instalações ainda funcionam ali. O local abriga 62 pessoas.

"Estamos testando tudo. Assim que terminar a inauguração, vamos seguir com o treinamento do grupo base [que vai administrar a estação] para operar a estação. Por enquanto, está nas mãos dos nossos engenheiros da Marinha e dos cerca de 70 chineses [da empresa que executou a obra]. Em março, eles vão embora e fica por nossa conta. Tudo o que é novo pode dar algum probleminha", diz o fiscal de reserva da Marinha, Geraldo Juaçaba Filho, gerente de fiscalização da obra.

O capitão de corveta da Marinha e subchefe da estação, Rafael Santana da Rocha, afirma que essa fase inicial de ajustes já estava prevista em contrato. "A estação está em fase de comissionamento. A qualificação do grupo continua até o final do verão", diz.

Isso significa que as pessoas que vão tocar a base, que tem bem mais recursos tecnológicos que a anterior, ainda estão em treinamento.

Segundo Rocha, mais de 90% dos sistemas estão prontos para serem utilizados. "A gente migra para lá dia 14, mas precisamos entender a estação como um organismo vivo. A gente precisa operar para entender o sistema e nos qualificar como grupo base [que vai gerenciar o local]."

LABORATÓRIOS DE PESQUISA

A Folha de S.Paulo visitou nesta segunda as novas instalações da base. Os militares da Marinha trabalhavam nos últimos testes elétricos e hidráulicos da estação. Cerca de 90% dos laboratórios já estão montados.

Os 10% restantes dependem de equipamentos já comprados e que estão em Punta Arenas (Chile) esperando o transporte na próxima saída do navio Almirante Maximiano para a Antártida, segundo Andrea Cancela, coordenadora de Mar e Antártica do MCTIC (Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). Isso deve ocorrer ainda neste mês.

Um dos laboratórios já prontos tem um equipamento que transforma as amostras sólidas coletadas na Antártida, como gelo ou solo, em pó estabilizado. "Você chega no Brasil e reidrata", explica o biólogo Paulo Câmara, da UnB (Universidade de Brasília), pesquisador que ajudou na montagem dos laboratórios.

Segundo ele, até então o transporte de amostras vivas, como bactérias e fungos, era muito complicado. "Ou se fazia como exigem as normas internacionais, com gelo seco em caixas especiais, o que era caro e inviabilizava o envio, ou se arriscava levando no bolso, correndo o risco de ser parado na Alfândega e ter a amostra apreendida, ou a gente desistia."

Em outro laboratório, o microbiologista Luiz Rosa, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, mostrava o primeiro experimento feito na estação nova, com várias lâminas com fungos coletados do ar da Antártida.

"São penicílios, produtores de penicilina. Eles dominam aqui na Antártida. Existem várias colônias, linhagens selvagens, espécies novas que podem produzir novas penicilinas. As bactérias vêm demonstrando resistência aos antibacterianos atuais, então é muito importante estudar e buscar.

Para chegar à Antártida, navio brasileiro precisa superar estreito que já afundou 800 embarcações

Bom dia, tio Max! É com essa saudação, às 7h, seguida de música, notícias do Brasil, dados sobre localização, velocidade do vento e temperatura da água, que as atividades começam no navio polar Almirante Maximiano, uma espécie de laboratório-ambulante da Marinha que dá apoio às pesquisas na Antártida.

Cerca de 40% da produção científica brasileira na região é feita dentro do navio, avaliado em R$ 150 milhões. O restante acontece em acampamentos (20%), em módulos automatizados (15%) e na Estação Comandante Ferraz (20%), que será reinaugurada nesta terça (14), na ilha Rei George.

Em missões de rotina, o tio Max, como é chamado pelos marinheiros, transporta 30 pesquisadores e abriga 17 equipamentos para estudos geológicos, geofísicos e meteorológicos. Entre as pesquisas estão as que investigam a biodiversidade marinha, mudanças climáticas e o efeito das correntes antárticas no clima brasileiro.

O navio conta com um heliponto e dois helicópteros, que fazem o transporte de suprimentos para os pesquisadores que ficam acampados no interior da Antártida. Dois botes também ajudam tanto no transporte como na coleta de materiais de estudo.

A reportagem esteve durante cinco dias a bordo do tio Max a caminho da base científica brasileira. O navio saiu na segunda (6) do porto de Puenta Arenas (Chile), com 109 pessoas a bordo entre militares e jornalistas. A capacidade máxima é de 113 passageiros.

Os camarotes possuem "triliches", beliches onde dormem três pessoas, e há um pequeno banheiro para atender até seis pessoas. São servidas quatro refeições por dia (café da manhã, almoço, jantar e ceia), preparadas na cozinha do tio Max, que, a cada missão antártica, produz até 40 toneladas de comida. Churrasco, dobradinha, frango assado e arroz carreteiro foram alguns dos pratos servidos.

Sem TV ou acesso à internet e com o balanço incessante do navio na maior parte do trajeto, a diversão a bordo fica por conta de jogos de dominó, pebolim, videogame, além de uma seleção de filmes. Também é possível aventurar-se na academia de ginástica e ter a sensação de que a esteira vai fugir dos seus pés.

Os avisos, como horários das refeições e orientações à tripulação, são dados por meio de apitos, que lembram cantos de passarinhos. Eles são transmitidos em alto-falantes instalados em todo o navio.

A grande expectativa da viagem era a travessia do estreito de Drake, trecho obrigatório da viagem entre o continente sul-americano e a península Antártica e considerado um dos mais perigosos do mundo, com ondas que podem chegar 12 m e ventos que já atingiram 200 km/h. Estima-se que 800 embarcações tenham afundado no local, matando 10 mil marinheiros.

Na última terça (7), pouco mais de 24 horas navegando pelos canais austrais, o comandante do navio, João Candido Marques Dias, capitão de mar e guerra da Marinha, decidiu "aterrar" a embarcação nos canais austrais, perto de Puerto Williams (na região chilena da Terra do Fogo), em razão dos fortes ventos e das ondas de 6 m previstas para a região do Drake nas horas seguintes.

Segundo ele, a ideia foi aguardar uma janela em um lugar mais protegido para evitar avarias na embarcação e mal-estar nas pessoas. A espera durou 30 horas. A travessia do Drake começou na madrugada de quinta (8) e terminou na tarde de sexta (9), quando o navio adentrou na península Antártica.

Durante o trajeto, as ondas atingiram até 4 m, causando forte balanço na embarcação. Foi o suficiente para causar enjoos em alguns militares e jornalistas (esta repórter conseguiu se safar), derrubar objetos e tornar quase impraticável uma simples uma ida ao banheiro.

Nesse período, móveis e objetos no navio ficaram amarrados. Pratos de louça foram substituídos pelos de plástico e até o cardápio do café da manhã, que tinha previsão de mortadela, foi mudado para evitar que os cozinheiros corressem riscos com o fatiador.

Para o comandante Marques Dias, no entanto, foi uma travessia tranquila. "Foi ótimo, não pegamos ondas muito grandes. A parada foi estratégica."

Na manhã de sábado (11), o navio ancorou próximo à base científica, e o desembarque rumo à estação Comandante Ferraz aconteceu na manhã deste domingo (12).

NAVIO AJUDA A ATUALIZAR CARTAS NÁUTICAS

Entre os equipamentos usados nas pesquisas dentro do navio, especialmente na área de oceanografia, há dois guinchos que fazem um levantamento do fundo marinho, medindo a profundidade e coletando dados como temperatura, salinidade e amostras de resíduos do local. Eles alcançam de 8 a 10 km de profundidade.
 

A Marinha também utiliza esses equipamentos para fazer a atualização das cartas náuticas. O Brasil participa de um acordo internacional que faz o levantamento hidrográfico da Antártida.

 "Não é um lugar que seja totalmente cartografado, mapeado. A gente não tem carta [náutica] de todos os lugares, é um lugar em construção", diz o comandante Marques Dias, que já esteve em nove missões na região.

No ano passado, o navio fez esse trabalho na baia da ilha Rei George, onde fica a base científica brasileira na Antártida.

Segundo Rodrigo Tecchio, capitão tenente da Marinha, na atualização de uma carta náutica é verificado, por exemplo, se as profundidades existentes na região são as mesmas do levantamento anterior.

No trabalho feito na ilha, por exemplo, foi verificado que a carta náutica antiga apontava um determinado local com 679 m de profundidade. Com equipamentos mais modernos, verificou-se agora que a medida correta é 620 metros.

Em outro trecho, a carta antiga marcava 108 m de profundidade, quando, na verdade, a profundidade correta é de 396 m. "Antigamente, os equipamentos eram bem mais arcaicos, utilizava-se o prumo para verificar as profundidades", explica Tecchio.

O navio tem ainda um medidor de correntes oceânicas, que tem por finalidade investigar o comportamento delas em uma região com condições climáticas tão extremas, além do transporte de materiais orgânicos.

Segundo Tecchio, essas informações auxiliam não só a Marinha como também pesquisadores que atuam na Antártida, além de serem armazenadas no Banco Nacional de Dados Oceanográficos, aberto às instituições que atuam nessa área.

O navio conta ainda com uma estação meteorológica automática, que fica ligada 24 horas, e, de três em três horas, envia mensagens com dados de temperatura do ar, da água, da pressão atmosférica, entre outros. Eles seguem para o centro de informações da Marinha e servem de subsídio para a previsão do tempo no Brasil.

 



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