COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

06 de Fevereiro, 2020 - 12:25 ( Brasília )

Batalha decisiva na guerra da Síria ameaça opor Rússia à Turquia


A ofensiva final do governo sírio contra rebeldes que combatem a ditadura de Bashar al-Assad desde 2011 pode encerrar a guerra civil no país árabe, mas está empurrando a Turquia e a Rússia para um conflito direto. A crise recrudesceu nesta semana.

Ataques com artilharia das forças de Assad mataram, no domingo (2), os primeiros turcos desde que Ancara invadiu o norte do país no final de 2019. Sete soldados e um servidor civil morreram na ação, e a Turquia retaliou bombardeando com caças F-16 posições três alvos na Síria, matando 13 soldados.

A Rússia dá apoio aéreo à ofensiva síria, que cercou nesta quarta (5) três postos de comunicação turcos em Saraqib -cidade que é central para ligar bolsões rebeldes em Aleppo com Idlib, a capital da região homônima, a última controlada por adversários de Assad no país.

O ditador parece decidido a encerrar a fatura, mas o movimento arrisca colocar frente a frente as duas potências externas que emergiram como centrais na sangrenta guerra civil síria, que já matou cerca de 380 mil pessoas.

Na segunda (3), o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, falou grosso. "Nós avisamos as autoridades russas para não ficarem no nosso caminho", disse em pronunciamento. Os russos intervieram no conflito em 2015, de forma decisiva em favor do ditador aliado, e com a ajuda do Irã e de grupos como o Hizbullah salvaram Assad da derrota certa.

Os turcos apoiavam grupos sunitas no conflito, e queriam tanto a cabeça de Assad quanto anular as forças curdas do norte da Síria, conectadas ao Curdistão turco, que vive um conflito separatista com Ancara.

Já em 2015 a Rússia e a Turquia se estranharam, quando Ancara abateu um avião de ataque Su-24 de Moscou que havia cruzado brevemente seu espaço aéreo.

Só que, de lá para cá, Erdogan afastou-se progressivamente dos Estados Unidos, abrindo uma janela de oportunidade estratégica para seu colega russo, Vladimir Putin. Isso se deu pelo fato de que um golpe de Estado foi urgido contra ele de solo americano, por um opositor, e pelo antagonismo crescente com o Ocidente -pela rejeição da União Europeia em aceitar a Turquia como membro, apesar de ela ser sócia da OTAN (aliança militar ocidental).

Houve uma reaproximação com o presidente russo, a essa altura o principal ator político da guerra árabe. Para desgosto de Washington, os turcos compraram sistemas antiaéreos avançados da Rússia e começaram a dividir politicamente decisões sobre a Síria.

Com a saída das forças americanas do país árabe, em outubro de 2019, a Turquia invadiu a Síria para isolar o Curdistão, criando bolsão militar na região de sua fronteira. Fez um acordo com os russos para estabilizar a região com patrulhas conjuntas.

Em outras partes do território, desde 2018 tinha combinado com Moscou zonas para reduzir as tensões com as forças rebeldes restantes, muitas apoiadas por Ancara. A última significativa é Idlib.

Na terça (4), os turcos enviaram 400 veículos militares para reforçar a região, sem avisar os russos. Putin protestou, e a chancelaria turca disse que o Kremlin havia sido informado. Seja como for, o russo seguiu apoiando a investida síria a partir de sua base aérea na província de Latakia.

O cessar-fogo costurado por russos e turcos no dia 12 de janeiro ruiu. Agora, sírios e rebeldes apoiados por turcos estão ao alcance da artilharia um dos outros, naquilo que pode ser a batalha culminante da guerra civil. Ou o começo de um conflito aberto entre dois países.

Se isso ocorrer, a Rússia estará no jogo, e haverá repercussões importantes. Primeiro, o risco de enfrentamento entre forças da Otan e a Rússia, e segundo, porque os países tinham um casamento de conveniência na Síria, com influência em vários pontos do Oriente Médio e Norte da África.

Isso pode levar a mais tensões na guerra civil da Líbia, onde forças turcas apoiam o governo reconhecido pelas Nações Unidas, que mal defende a capital, Trípoli.

Lá, russos têm mercenários apoiando o temperamental líder rebelde que domina quase todo o país e interrompeu a produção de petróleo local -deixando na mão os europeus, que têm no país do falecido ditador Muammar Gaddafi seu oitavo maior fornecedor do produto.

Erdogan exige que Assad afaste tropas dos postos de observação turcos na Síria

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deu nesta quarta-feira (5) um ultimato ao governo de Bashar al-Assad para que recue na região noroeste da Síria, depois que vários confrontos opuseram Ancara e Moscou, aliado de Damasco.

Apesar das advertências, as forças do regime sírio prosseguiam com o avanço no noroeste do país.

Nas últimas 24 horas, as tropas sírias reconquistaram 20 cidades e vilarejos dos rebeldes e jihadistas no sul da província de Idlib, informaram a ONG Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) e a agência estatal síria Sana.

"As forças do regime entraram em Saraqeb, após a retirada de centenas de combatentes jihadistas e de facções aliadas até o norte da cidade", disse à AFP Rami Abdel Rahmane, diretor do OSDH.

Saraqeb está situada no cruzamento das autopistas M5, M4 e da rodovia que leva a Idlib, capital da província homônima, indicou o OSDH.

Essas forças sírias "já estão vasculhando os bairros de Saraqeb e estão prestes a assumir o controle de toda a rodovia M5, onde os jihadistas se retiraram para uma vila ao norte" da cidade, disse a fonte.

A escalada de tensão entre Turquia e Síria acontece após os violentos e inéditos confrontos entre tropas sírias e turcas na segunda-feira na província de Idlib, último reduto jihadista e rebelde, que deixaram mais de 20 mortos.

O governo sírio, com o apoio da aviação russa, intensificou os ataques a partir de dezembro para ganhar terreno em Idlib, chegando inclusive a cercar dois postos de observação construídos por Ancara como parte de um acordo assinado em 2018 com Moscou.

Na segunda-feira, tiros da artilharia síria mataram oito soldados turcos. Ancara respondeu com bombardeios contra posições sírias que deixaram pelo menos 13 mortos.

"Dois de nossos 12 postos de observação estão atrás das linhas do regime. Esperamos que o regime se retire de nossos postos de observação até o fim de fevereiro", afirmou Erdogan em um discurso em Ancara.

"Se o regime não se retirar, a Turquia será obrigada a agir sobre o assunto", completou.

Erdogan disse que transmitiu a mensagem ao presidente russo Vladimir Putin, principal aliado do governo sírio, em uma conversa telefônica na véspera.

Ele destacou que o ataque contra as forças turcas era uma "guinada" no conflito sírio.

"Não deixaremos que as coisas continuem como antes, quando o sangue dos militares turcos foi derramado", afirmou.

"Responderemos sem nenhum aviso a qualquer novo ataque contra nossos militares ou contra os combatentes (rebeldes sírios) com os quais cooperamos", reiterou o presidente.

A Turquia, que apoia alguns grupos rebeldes sírios, assinou com a Rússia vários acordos de cessar-fogo em Idlib, último reduto da oposição no noroeste da Síria.

Os Estados Unidos ofereceram ajuda à Turquia. O enviado americano à Síria, James Jeffrey, disse que está "muito preocupado" com o "conflito extremamente perigoso" na província de Idlib.

"Estamos considerando novas sanções", disse a jornalistas, sem especificar contra quem.

Em Damasco, o ministério das Relações Exteriores condenou as declarações de Erdogan, chamando-as de "enganos e mentiras".

Em Nova York, diplomatas informam que o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunirá na quinta-feira com urgência sobre os eventos de Idlib, a pedido de Washington, Paris e Londres.

Cinco civis perderam a vida na quarta-feira em bombardeios aéreos e de regime russos na região de Idlib, segundo o OSDH.

Segundo a agência Sana, quatro civis foram mortos por obuses em Aleppo, em um ataque atribuído a "terroristas". Damasco chama os jihadistas e os rebeldes de "terroristas".

Mais da metade da província de Idlib e setores das províncias vizinhas de Aleppo, Hama e Latakia estão dominados pelos jihadistas de Hayat Tahrir al Sham (HTS, antigo ramo sírio da Al Qaeda). Outros grupos rebeldes também estão presentes.

Apesar dos pactos, o governo da Síria, com o apoio da aviação russa, intensificou nas últimas semanas a ofensiva na província fronteiriça com a Turquia e, em seu avanço, cercou alguns postos turcos.

Os combates dos últimos dois meses no noroeste da Síria deixaram 520.000 deslocados, segundo a ONU.

Esta situação preocupa a Turquia: mais de 3,6 milhões de pessoas se refugiaram em seu território desde o início do conflito na Síria em 2011.

A guerra na Síria provocou mais de 380.000 mortes.



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