COBERTURA ESPECIAL - Venezuela - Geopolítica

20 de Setembro, 2018 - 14:28 ( Brasília )

Venezuela, uma nova Síria?

Venezuela com sua política interna tumultuada, gerando crise de refugiados e desestabilizando o continente e seus acordos estratégicos com a Federação Russa e República da China


Canis Latrans
(Coiote)
Analista Militar Exclusivo para DefesaNet

 
A República Bolivariana da Venezuela, comumente chamada de Venezuela é uma nação fincada no norte da América do Sul e foi em um passado não muito distante, por volta da década de 90 uma das nações, se não, a mais próspera do subcontinente.

Era, não mais, graças aos inúmeros equívocos governamentais que foram aplicados, naquele país de maneira totalmente catastróficas, e que continuam a ser seguidas pela atual gestão do presidente Nicolás Maduro, que domina a nação com mãos de ferro em meio a uma ideologia política e econômica. Tentaram criar uma versão do comunismo, que sofreu adaptações para ser implementado naquele país e veio a receber o nome de “socialismo bolivariano”.

O resultado de sucessivos erros, repressões e controle estatal em todos os campos imagináveis e inimagináveis foi de maneira gradual uma economia que encaminha-se para um caos, com o FMI (Fundo Monetário Internacional) projetando uma inflação de 1.000.000% para o ano de 2018, tendo de maneira semelhante à crise enfrentada pela Alemanha em 1923 e do Zimbábue no final dos anos 2000.

Aliado a desordem econômica e social atualmente implementada de maneira total na Venezuela, os governos passados particularmente desde Hugo Chávez, de maneira a tentar frear uma possível coalização internacional que viesse a desconstituir o projeto de poder que naquele país se estabelecia, foi criado uma estreita parceria militar com países que possuíssem afinidades ideológicas com a atual gestão venezuelana, em particular a Rússia e China.

Alguns indícios:

- Na recente gira do Secretário de Defesa Americano pela América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia) foi discutida a possibilidade de ações militares contra a Venezuela.

Relatório Otálvora: os EUA veem a Venezuela como um problema de segurança hemisférica Link


- O jornal New York Times publicou em capa chamada que o Governo Trump pensava em ações contra o país caribenho.

NYTimes - Stay Out of Venezuela, Mr. Trump Link


- Mais recentemente o Secretário-Geral da OEA o uruguaia Almagro também citou a possibilidade de recorrer ao emprego de ações militares.

Venezuela - Chefe da OEA ameaça uso de força militar Link



Qual o poder Militar da Venezuela?

 
Se o assunto é discutido abertamente o que impede realmente a ação?

A máquina de propaganda e “desinformação” russa, publicou a matéria: Venezuela parece ter encontrado fórmula para afastar EUA e seus aliados (18SET2018) Link Sputnik

Uma versão idealizada e romântica das ações do MRTT (Método Tático de Resistência Revolucionária) e a sua implantação através das REGIÓN ESTRATÉGICA DE DEFENSA INTEGRAL (REDI), que dividiram o país em 99 áreas. Um misto de Guerra Irregular, Assimétrica e de Guerrilhas, lembrando o Vietnã.  

Porém, isto é quando o inimigo já está no terreno. E o que impede ele de chegar à Venezuela?

Com as grandes compras de equipamentos militares desde a Rússia pelo governo de Hugo Chávez a Venezuela adquiriu um fator diferencial. Desenvolveu setores estratégicos e sensíveis que garantem a Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) um lugar de prestígio na América Latina, se trata do setor de defesa antiaérea!

Adquiriu um sistema completo de Defesa Antiaérea de origem russa. Composto de lanças e escudos os principais modelos de sistemas:

 

- S-300VM     30 km Altitude
- BUK-2ME    25 km Altitude
- S-125 Pechora 2M  20km Altitude
- Sistema MANPADS IGLA-S   3,5 km


A Venezuela adquiriu não só os sistemas de mísseis e Comando e Controle (C2), mas sim o conceito de operação e emprego. Há três anos foi o criado o “Comando de Defensa Aeroespacial Integral” (CODAI). É subordinado ao “Comando Estrategico Operacional” (CEOFANB), outro conceito importado da Rússia.
 

Disparo do míssil  S-125 Pechora 2M Alcance 20km.


As missões definidas pela própria CODAI:

“misión de Ejecutar Operaciones Defensivas Aeroespaciales, Control Aéreo permanente y Guerra Popular Prolongada en el Espacio Geográfico de la Nación, a fin de asegurar su Integridad, Independencia y Soberanía.”

 
Não só os sistemas de armas e a organização, mas a adição de radares de longa distância Tridimensionais recebidos da China, tornam a Venezuela, como que protegida por um gigantesco guarda-chuva.


Famílias de sistemas essas que colocam em preocupação o Brasil, pois já foi constatado em edições de exercícios militares realizados pelo Ministério da Defesa, que  em um hipotético cenário de conflito com a Venezuela o estado de Roraima ficaria com o seu espaço aéreo parcialmente inutilizado pois os sistemas de defesa antiaérea venezuelanos conseguiriam com facilidade bloquear quaisquer tipos de suportes aéreos para as tropas brasileiras no terreno, impossibilitando a chegada de recursos por meio de cargueiros ou de apoio de fogo aéreo, limitando os combates em solo e deixando livre o espaço aéreo somente para as forças venezuelanas, no qual iriam usufruir realizando sucessivos ataques e operações de reabastecimento por meio aéreo para suas tropas.

O bloqueio poderia criar uma área de exclusão, que poderia afetar Manaus, que está há 1.000km de distância.


Sobreposição dos sistemas de Defesa Aérea


Porém o mais importante é que se os venezuelanos conseguirem “Comandar e Controlar” os sistemas de mísseis, que são escalonados e se interlaçam criando uma área de defesa antiaérea desde o chão com canhões e metralhadoras 23 mm, e os sistemas de mísseis:  MANPADS Igla-S (de ponto), BUK-2ME e S-125 Pechora 2M(ambos de área), e finalmente o estratégico S-300VM.

Uma das informações estratégicas mais valiosas do continente são: as frequências, localizações e quando os radares das baterias do S-300VM são acionados.  

O cenário político e social caóticos na Venezuela aliados a sua determinação de defender o seu projeto de poder criaram um ponto de desequilíbrio e ameaça na América do Sul nunca visto antes, ameaçando o relativo gozo de paz regional no qual o subcontinente detém.
 
Os comandos do CEOFANB e da CODAI são entregues aos mais leias oficiais Bolivarianos da FANB, assim como as guarnições são avaliadas e recrutadas com esmero.


Delegação russa repassa as experiências das ações na Síria para a CODAI, 14JUN2018.



Em uma rara informação a CODAI divulgou na sua conta do Twitter (14JUN2018), que uma delegação russa estava atualizando os conhecimentos operacionais, incluindo a experiência adquirida na Síria.
 
Criando inclusive altíssimos riscos de projeção de potências estrangeiras dentro da América do Sul ligadas a Venezuela, como mencionado anteriormente a Rússia e China, que caso veja seu aliado ideológico sul americano em riscos de desmantelamento poderão adentrar por meio da utilização de forças militares e ocupar regiões estratégicas da Venezuela, impedimento ou dificultando a um nível extremo quaisquer tentativas de libertação do país de maneira diplomática ou militar, mesmo que formando uma hipotética coalizão.
 
O cenário será mais agudo e crítico do que o encontrado na Síria, e a pergunta que fica aos leitores é; Teria o Brasil capacidade para intermediar ou encerrar um conflito ao seu lado, ou o porta voz israelense Yigal Palmor ao chamarmos de “anão diplomático” fez juz ao que disse?
 
Isso só o tempo irá dizer, mas o tempo na Venezuela não é o nosso tempo.





 

Lateral de um Carro de Combate T-72M do Ejército de Venezuela. Prenúncio de que realmente o "tempo da Venezuela é próprio".
 

Nota Referente a Esequibo acesse:

http://www.defesanet.com.br/gi/noticia/25802/GUYANA---Exercito-Brasileiro-Esclarece-acao-no-Pais/

 


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