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24 de Março, 2019 - 15:50 ( Brasília )

Frederico Aranha - GERASIMOV Explana a “ESTRATÉGIA DE AÇÕES LIMITADAS"



CONFERÊNCIA ANUAL DA ACADEMIA DE CIÊNCIAS MILITARES DA RÚSSIA (2019) – GERASIMOV EXPLANA A “ESTRATÉGIA DE AÇÕES LIMITADAS”.

 


Frederico Aranha
 Pesquisador Independente
Advertência: tradução livre

 
               
A Academia de Ciências Militares da Rússia (Akademii Voyennykh Nauk—AVN) realizou sua convenção anual no dia 02 de Março passado. A organização foi no formato de conferência científico-militar, destinada a analisar e planejar a estratégia militar adequada às circunstâncias modernas. O encontro foi aberto pelo Presidente da Academia, General de Exército (ret.) Makhmut Gareyev.

Os participantes da conferência – membros da Academia de Ciências Militares, oficiais seniores do Ministério da Defesa e das Forças Armadas russas, representantes da Administração Presidencial, da DUMA (Câmara baixa) e do Conselho da Federação (Câmara alta), bem como cientistas descolantes da Academia Russa de Ciências, universitários e integrantes de organizações de pesquisas ligadas a departamentos militares – discutiram a natureza das guerras futuras, conflitos armados e os dilemas atuais no campo da defesa.

A conferência-central foi proferida pelo General de Exército Valery Gerasimov, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa e Primeiro Vice Ministro da Defesa da Rússia (https://function.mil.ru/news_page/country/more.htm?id=12219790@egNews).

Reportou-se ele aos desenvolvimentos marcantes da estratégia militar e aos desafios enfrentados pela comunidade científico-militar russa. Abordou temas relacionados à estratégia militar da Federação Rússa e às perspectivas da guerra moderna. Com base nas operações na Síria, traçou as linhas gerais da “estratégia de ações limitadas”, antecipando ações além-fronteiras para promover o interesse nacional.

Seu pronunciamento é deveras importante, bem como os de outros palestrantes, pelo fato de que em dezembro de 2018 o Presidente Vladimir Putin ordenou a formulação da nova doutrina militar do país; ademais, Gerasimov revelou as prioridades atuais e futuras do planejamento de defesa da Rússia. Como faz habitualmente nos pronunciamentos anuais na AVN, exortou a ciência militar a focar seus estudos na guerra futura e em novas formas de combate. Iniciou sua comunicação afirmando

 

 ... nas condições atuais, a evolução dos princípios da guerra está baseada no emprego coordenado de medidas militares e não-militares com papel decisivo das Forças Armadas.

                
Tema saliente do speech de Gerasimov foi a alegação de que o Pentágono está desenvolvendo uma nova estratégia “Cavalo de Tróia” para empregar contra a Rússia,  combinando “revolução colorida” e a eventual utilização de armas de alta precisão (Vysokotochnoye Oruzhiye – VTO); “sua essência é o uso ativo do ‘potencial de protestos de uma quinta coluna’ visando desestabilizar a conjuntura sócio-política do país, conjugado com o lançamento simultâneo de VTOs contra objetivos importantes”.

Enfatizou uma suposta natureza agressiva da política de defesa e da diplomacia dos Estados Unidos, fazendo uso de termos tais como “ataque global”, “batalha multi-espacial”, “revolução colorida” e “poder de pressão política”. Gerasimov afirmou que o propósito de tais ações é solapar e derrubar governos, referindo especificamente o Iraque, a Líbia e Ucrânia, acrescentando que processo similar está em andamento na Venezuela.

Criticou também a política americana no tocante ao controle de armas, salientando a retirada de Washington em 2002 do Tratado Anti Mísseis Balísticos (ABM) de 1972 e a recente suspensão do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) de 1987, acrescentando que o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START) de 2010 poderá não ser renovado (1).  

Gerasimov confirmou a existência de nova estratégia russa de “ações limitadas” delineada pelas lições da intervenção de Moscou na Síria, a qual servirá para defender e promover “interesses nacionais” no exterior. Explicou que o fundamento para implantação dessa estratégia envolve a “criação de um grupo de tropas (forças) auto-suficientes com elementos dos quadros das Forças Armadas Russas dotados de alta mobilidade e de capacidade para contribuir ao máximo na execução das missões atribuídas.

Na Síria, este papel foi cumprido por elementos das “Forças Aeroespaciais” (Vozdushno-Kosmicheskiye Sily – VKS) (2), Forças Aerotransportadas (Vozdushno-desantnye voyska– VDV) e das Forças Especiais (Spetsnaz). Ganhar e manter superioridade na área de informação, acionamento preventivo do sistema de comando-e-controle e organizações de apoio adequado, e deslocamento furtivo dos grupos engajados, são as mais importantes condições para executar esta estratégia” (3).                    
              
Embora possa parecer que essa “estratégia de ações limitadas” acima descrita seja uma novidade, sua essência reflete quase que por inteiro o que os militares russos aplicaram em suas operações na Síria. E não representa uma declaração de como a “projeção de poder” assim será conduzida numa escala global, visto os problemas econômicos da Rússia, bem como os obstáculos militares que limitarão  tais ambições.

De qualquer forma, usando a expressão “estratégia de ações limitadas”, Gerasimov parece sinalizar uma conceituação da experiência síria, que poderá servir de guia para a tomada de decisões relacionadas com o setor da defesa. Alguns termos, especialmente ligados à evolução da doutrina americana, exigem um entendimento cauteloso, tal como a russificada “multi-sphera battle”, sem dúvida se referindo à “multi-domain battle”; mas a preocupação com revoluções coloridas e com eventual ataque global preventivo certamente não é nova.

A palavra do oficial militar russo mais graduado representa a maturação de idéias que vêm sendo discutidas há seis anos, bem como a preparação de nova doutrina militar.

O texto integral da palestra foi publicado no Krasnaya Zvezda (ver nota 4) e aborda inúmeras questões:

 

# Metamorfose das ameaças militares;
# A evolução dos conceitos estratégicos básicos;
# Simetria da teoria e da prática;
# Princípios da prevenção, preparação e guerra;
# Estratégia de ação limitada no exterior;
# Padrões do emprego de grupo de tropas (forças) de acordo com a estratégia de ações limitadas;
# Sinergia dos elementos da organização militar estatal;
# Confrontação na esfera da informação;
# Aumento do poder de combate das Forças Armadas da Federação Russa;
# Interação do Ministério da Defesa com a indústria de defesa;
# Os principais problemas da ciência militar e os meios de resolvê-los. 

           
Merece especial atenção a referência à “neutralização preventiva de ameaças”, pela qual Gerasimov tenciona responder ao perigo potencial representado pelo “ânimo agressivo” dos Estados Unidos – “A base na ‘nossa resposta’ é a ‘estratégia da defesa ativa’ que, considerando a natureza defensiva da Doutrina Militar Russa, prevê uma série de medidas para a eliminação antecipada de ameaças à segurança nacional, o que justifica a criação de projetos avançados, obrigação da atividade científica dos nossos cientistas militares.

É uma das prioridades para garantir a segurança nacional. Nós precisamos nos antecipar à evolução da estratégia militar dos nossos inimigos e ‘estar sempre um passo adiante’”. No tema da dissuasão estratégica, Gerasimov frisou a urgência em modernizar os sistemas militares nucleares e não-nucleares.

Em particular, chamou a atenção para a capacidade das VTOs e para um bom número de sistemas de ataque de alta precisão em desenvolvimento: “a produção em série de novos modelos de armamentos já iniciou e nossas Forças Armadas já vêm sendo dotadas com eles.

O Avangard (míssil hipersônico de reentrada orbital), Sarmat (míssil balístico intercontinental), e o novo Perevest (canhão a laser) e o Kinzhal (míssil hipersônico ar-solo/navios) têm demonstrado sua alta eficiência, e os complexos Poseidon (torpedo autônomo com ogiva nuclear) e o Burevestnik (míssil de cruzeiro com motor nuclear e dotado de ogiva nuclear) estão em testes avançados. O trabalho para a criação do míssil de cruzeiro naval hipersônico Tsirkon está progredindo de acordo com os prazos estabelecidos”.
              
Voltando ao tema da “estratégia de ações limitadas”, Gerasimov sublinhou algumas das áreas objeto de desenvolvimento. A primeira é a integração total do comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, observação e reconhecimento (C4ISR). Este conjunto de atividades objetiva a “detecção, seleção de alvos, e a realização de ataques seletivos contra alvos importantes por sistemas de armas estratégicas e tático-operacionais não nucleares em tempo quase real. Consequentemente, a ciência militar necessita desenvolver e pôr em prática um sistema para um engajamento integral com o inimigo”.  Outra prioridade é empregar os complexos robóticos e os drones (UAV), ao mesmo tempo em que também se criam sistemas para neutralizar UAVs e VTOs. Gerasimov enumerou enfaticamente alguns itens e frisou a importância da ciência militar encarregar-se de desenvolvê-los: “tecnologias digitais, robótica, sistemas de controle remoto e guerra eletrônica” (5).

Sua palestra foi marcada fortemente pelas referências à utilidade dos VTOs e ao emprego permanente do C4ISR (Command, Control, Communications, Computer, Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance). Focou também na modernização da capacidade militar da Rússia com prioridade na dissuasão nuclear e pré-nuclear. Suas observações refletem a crescente confiança do Estado-Maior no emprego do poder militar, da coerção político-militar e na permanente reflexão sobre novas estratégias para se contrapor a um adversário munido de alta tecnologia.  


NOTAS
 
1. http://tass.com/politics/1042815
2. Força Aérea e Força de Defesa do Espaço Aéreo.
3. http://militarynews.ru/story.asp?rid=1&nid=503181&lang=RU    
4. http://redstar.ru/vektory-razvitiya-voennoj-strategii  
5. https://jamestown.org/program/gerasimov-appeals-for-military-science-to-forge-new-forms-of-combat/


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