COBERTURA ESPECIAL - PROSUB S40 - Naval

16 de Dezembro, 2018 - 14:00 ( Brasília )

Lançamento do Submarino Riachuelo: a consolidação do esforço, da sinergia e da competência da Marinha do Brasil


Lançamento do Submarino Riachuelo: a consolidação do esforço, da sinergia e da competência da Marinha do Brasil

(Text in english
- The S-40 Riachuelo is the result of Brazilian Navy’s hard work, synergy and capacity Link)

Fernanda Corrêa

Doutora em Ciência Política na área de Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense
Assessora na Assessoria de Planejamento Estratégico da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A
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Na sexta-feira, dia 14 de dezembro de 2018, a Marinha do Brasil realizaou a Cerimônia de Lançamento do Submarino Riachuelo, o primeiro submarino modelo Scorpène adquirido no âmbito do Acordo de Transferência de Tecnologia firmado entre a França e o Brasil de 2008.

Neste Acordo, foi negociada a transferência de tecnologia para projetar quatro submarinos diesel-elétricos e o sistema de plataforma de um submarino com propulsão nuclear. Exceto o primeiro submarino diesel-elétrico, o nosso Riachuelo, todos os demais serão totalmente construídos no território nacional. O nome Riachuelo faz alusão à Batalha Naval do Riachuelo, considerada decisiva na Guerra do Paraguai (1864-1870), com relevante atuação da Marinha do Brasil.

Após a conclusão do Riachuelo, a previsão é de que o submarino Humaitá seja lançado ao mar em 2020, o Tonelero em 2021, o submarino Angostura em 2022 e, por último, o submarino com propulsão nuclear, batizado de Álvaro Alberto, em homenagem ao Almirante brasileiro que foi o protagonista no uso da tecnologia nuclear no País, em 2029. A parte nuclear do quinto submarino será 100% desenvolvida pela Marinha do Brasil em seus institutos, centros e laboratórios em território nacional. Além da transmissão de conhecimentos, informações técnicas e expertise em diversas áreas, o Acordo também envolveu a capacitação e qualificação de engenheiros e técnicos brasileiros em território nacional e em território francês e a consultoria técnica da empresa francesa Naval Group, antiga DCNS, até a conclusão do Programa.

No intuito de atender as diretrizes definidas pela Estratégia Nacional de Defesa (END), as quais priorizam a negação do uso do mar em relação às demais tarefas estratégicas (controle de áreas marítimas e projeção de poder), a Marinha do Brasil criou o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), o qual dividido em três gerências, coordena a construção de quatro submarinos diesel-elétricos, do sistema de plataforma do submarino de propulsão nuclear e o estaleiro e base naval para os submarinos. Sob a coordenação da Marinha do Brasil, este Programa é desenvolvido por meio de parcerias público-privadas, que envolve grandes empresas do mercado nacional e internacional.

Em 2009, a Marinha do Brasil criou a Coordenadoria-Geral do PROSUB (COGESN) para gerenciar as atividades do Programa. Sob sua supervisão e aprovação, a Naval Group selecionou empresas brasileiras que participaram do processo de absorção de tecnologia. Dentre as áreas do PROSUB que a MB esperava nacionalizar se encontram: segurança, tratamento do ar, suporte à vida, sistemas de combate, sistema de armas, eletricidade e automação, sistema de propulsão, sistema de gerenciamento de plataforma, mastros, tubulações de ar, materiais compostos, sistema hidráulico, sistema de ar comprimido e sistemas mecânicos. Numerosas empresas brasileiras despontaram interessadas em participar do Programa e dos offsets advindos dele.

Dentre os centros industriais da Naval Group na França se encontram: Lorient, onde se encontra a parte de concepção de submarino, Cherbourg, onde se encontra a produção, Ruelle, na qual se encontra a fábrica de equipamentos estratégicos, Nantes-Indret, onde se desenvolve a propulsão e, Toulon, onde se desenvolve o sistema de combate de submarinos. Desde 2010, a Naval Group inaugurou a Escola de Projeto de Submarinos para a Marinha do Brasil, em Lorient, e tem recebido nesta cidade e em outras diversos engenheiros e técnicos da própria força e de empresas parceiras para absorver a tecnologia de projeto de submarinos.

A Naval Group é líder mundial na exportação de submarinos diesel-elétricos e aceitou transferir a tecnologia de projeto de submarinos para a Marinha do Brasil. No entanto, é importante sinalizar que o projeto Scorpène de submarinos diesel-elétrico exportado para o Brasil não é modelo idêntico ao projeto francês.

Enquanto o modelo Scorpène francês possui 60 metros de comprimento e 1.700 toneladas, o modelo Scorpène brasileiro tem 72 metros de comprimento, pesa 1.870 toneladas, incluindo a propulsão diesel-elétrica e os torpedos, dispõe de uma seção a mais projetada por brasileiros com capacidade para 35 tripulantes e autonomia de 70 dias no mar com capacidade de 300 metros de submersão.

O modelo exportado para o Brasil atende a especificações detalhadas pela Marinha do Brasil para atender a suas necessidades oceânicas que incluem a defesa de 8,5 mil quilômetros de costa, patrulhas de norte a sul e com capacidade de submersão em alta profundidade com maior autonomia e maior raio de ação.

A Fundação EZUTE, em uma primeira fase, enviou nove engenheiros da para a França a partir de 2011 para participar dos trabalhos de especificação e projeto sistêmico do Sistema de Combate dos submarinos da classe Riachuelo. Em outra fase, parte desta equipe foi diretamente envolvida na produção de módulos do software Sistema de Gerenciamento de Combate, em que estes módulos tornarão possível a comunicação tática desta classe de submarinos com outros meios operativos da Esquadra brasileira.

A Naval Group selecionou a empresa privada brasileira Construtora Norberto Odebrecht para constituir dois consórcios por meio de Sociedade de Propósito Específico, a Itaguaí Construções Navais (ICN) e a Baía de Sepetiba, pela excelência reconhecida internacionalmente da Odebrecht em executar obras civis e atividades industriais complexas.

A pretensão era de que, a partir do projeto francês, a empresas brasileira construísse os estaleiros e a base naval. O Consórcio Baía de Sepetiba se tornou responsável pela coordenação das interfaces e da integração do trabalho realizado pelas empresas envolvidas no PROSUB em parceria com a COGESN.

A NUCLEP é a empresa pública brasileira, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, encarregada pela mecânica pesada dos cinco submarinos diesel-elétricos encomendados pela Marinha do Brasil à França. A experiência desta empresa na construção dos cinco submarinos diesel-elétricos alemãs modelos IKL foi imperativa na sua seleção para participar do PROSUB. 

Além do sistema integrado de controle da plataforma, o sistema de combate e o detalhamento do submarino com propulsão nuclear, a AMAZUL, empresa pública brasileira, vinculada ao Ministério da Defesa por meio do Comando da Marinha, é a responsável pelo projeto conceitual do Complexo Radiológico do Estaleiro e Base Naval, em parceria com o CTMSP. Será neste Complexo que se realizarão as trocas do combustível nuclear.

O PROSUB, ao dotar a indústria de defesa brasileira com tecnologia de ponta e priorizar a aquisição de peças e equipamentos fabricados em território nacional, contribui significativamente com o fortalecimento de setores industriais de importância estratégica para o desenvolvimento econômico brasileiro.

Em maio de 2010, a atual Naval Group realizou o corte da primeira chapa de aço do casco resistente para as seções 3 e 4 que constituem o vante do submarino Riachuelo.

Em 16 de julho de 2011, a Seção de Qualificação na NUCLEP iniciou o corte da primeira chapa de aço para este mesmo submarino.

Em 1º de março de 2013, eu mesma, como enviada especial do DefesaNet, fiz a cobertura da inauguração da Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), em área anexa às instalações fabris da NUCLEP em Itaguaí, no Rio de Janeiro. Com um total de 45 edificações, ocupando área total de 97 mil metros quadrados, esta área foi construída como um complexo de infraestrutura industrial e de apoio para a operação dos futuros submarinos.

Nesta Unidade de Fabricação são fabricadas estruturas externas, anteparas internas, conveses internos, tanques externos de lastro, berços que servirão de base para vários equipamentos e tanques internos. Ao redor dela se encontram diversas oficinas, como a de estocagem de chapas de aço, a de marcenaria e isolamento térmico, os laboratórios de ensaios não destrutivos, a de eletricidade, a de dutos, a de pintura, a de mecânica, a de tubulações e a oficina de montagem. É a oficina de montagem que recebe as peças e equipamentos fabricados pelas demais oficinas e transforma as seções e subseções advindas da NUCLEP em partes dos submarinos.




Trabalhos das seções na NUCLEP Foto - NUCLEP


Como mencionado, exceto o submarino Riachuelo, todos os demais estão sendo totalmente construídos no território nacional. A UFEM foi responsável pela fabricação das seções 1 e 2 do submarino Riachuelo. Em junho de 2013, após três sendo construídas na França, as seções 3 e 4 de vante chegaram ao Rio de Janeiro, transportadas de balsa do Porto de Itaguaí até o cais da NUCLEP, pesando cerca de 220 toneladas, medindo 25 metros de comprimento, com 6 metros de largura e cerca de 12 metros de altura. Além de engenheiros e técnicos da Marinha do Brasil, participaram do processo de fabricação das seções 3 e 4 em território francês empregados da ICN e da NUCLEP.

Em novembro de 2016, o PROSUB sofreu uma restruturação institucional. A então Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha foi transformada em Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM), a qual herdou a COGESN, o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) e a Diretoria Geral de Material da Marinha (DGMM). A DGDNTM passou a ser a interlocutora da Marinha em todos os assuntos relacionado à Pesquisa & Desenvolvimento em Ciência, Tecnologia & Inovação. A partir desta data, esta nova Diretoria tornou-se responsável pelo gerenciamento de todas as atividades de projeto, desenvolvimento, nacionalização e construção, sendo assim, a gestora de todos os contratos comerciais com empresas parceiras.



Futura Tripulação do Submarino S-40 Riachuelo na Cerimônia de Lançamento ao mar Foto Marinha do Brasil

Em outubro de 2017, o cradle, ou seja, o embarque da plataforma de vante, iniciado na França e concluído em Itaguaí, foi realizado no interior do submarino Riachuelo nas instalações da UFEM. Dentre os equipamentos instalados e embarcado na seção 3 do casco resistente se encontram compressores, bombas e trocadores de calor e sala de navegação e de controle do submarino.

Em janeiro de 2018, teve início o deslocamento da estrutura do submarino Riachuelo da UFEM para a NUCLEP e, posteriormente, desta empresa para o Estaleiro do Complexo Naval de Itaguaí. Em fevereiro deste ano, foi realizada na NUCLEP a Cerimônia de Início da Integração dos Submarinos Classe Riachuelo.

A data de 14 de dezembro de 2018 será um divisor de águas na história do PROSUB a medida que o submarino Riachuelo dará início aos testes de porto, em que se avaliará a estanqueidade, a flutuabilidade e o equilíbrio do submarino. Após testes e provas de mar, em que durarão aproximadamente dois anos, o submarino será incorporado à Força de Submarinos da Marinha do Brasil.

É imperativo afirmar que o PROSUB é o programa estratégico com maior nível de complexidade e arrasto tecnológico do Brasil a medida que conta com significativa participação de universidades, centros de pesquisa, laboratórios, gera C,T&I, dota o País com tecnologia nuclear de ponta, fomenta à Base Industrial de Defesa, repotencializa a Indústria Naval Brasileira, cria uma cadeia de consumo e de fornecimento nacional de peças e equipamentos, capacita e qualifica profissionais em diversos níveis de especialidade e gera milhares de empregos diretos e indiretos.

O lançamento ao mar do submarino Riachuelo é a consolidação do esforço, da sinergia e competência da nossa Marinha em ser protagonista da História da C,T&I  do Brasil e da reconfiguração política do sistema internacional, no qual o Brasil é um dos poucos países do mundo capazes de projetar, construir, operar e manter submarinos convencionais e nuclear, assegurando assim a soberania das suas águas jurisdicionais. 

Submarino S-40 Riachuelo posicionado no Shiplift  Foto Marinha do Brasil


Estaleiro e base_Imprensa from Bizum on Vimeo.


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