Amorim
não vê concorrência entre
Brasil e EUA no Haiti
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Já faz cinco anos que o Haiti convive com a presença
brasileira em seu território. Armados, uniformizados
e diferenciados pelo capacete azul, os homens da força
de paz das Nações Unidas atuam sob o comando
do Exército Brasileiro. Em vigor desde 2004,
a missão da ONU cuida da segurança da
população com a ajuda de 9 mil soldados,
dos quais 1.300 são brasileiros.
O
terremoto que destruiu o país também vitimou
brasileiros: além de Luiz Carlos da Costa, segundo
mais alto funcionário da ONU na missão
de paz, 18 militares perderam suas vidas. "O Brasil
já estava sendo solidário nesta fase anterior,
de tentativa de construção de um Estado,
de desenvolvimento, estabilidade e segurança
no Haiti. E, que de repente, no meio desse esforço
de construção, sempre junto com as autoridades
haitianas, sob o mandato da ONU, se vê envolvido
também nessa tremenda catástrofe",
lamentou o ministro de Relações Exteriores
do Brasil, Celso Amorim, em entrevista exclusiva à
Deutsche Welle.
Em
resposta à tragédia, o Brasil organizou
sua maior força-tarefa de socorro a um país
estrangeiro e mobilizou diversos ministérios
– até o presidente Lula deve viajar em
fevereiro ao país.
Para
Rafael Duarte Villa, coordenador científico do
Núcleo de Pesquisa em Relações
Internacionais da Universidade de São Paulo,
que presenciou há seis meses o trabalho das tropas
brasileiras no país caribenho, há outras
questões em jogo – além da solidariedade
ao povo haitiano. "Apesar de o Haiti ser um país
falido, sabemos que o Brasil tem suas finalidades políticas,
que ele não foi lá a troco de nada."
Desde
o início do primeiro mandato de Lula, o governo
demonstrou que estava disposto a reforçar a presença
brasileira na América do Sul. Capítulos
recentes da história da região, como a
intermediação da crise em Honduras, colocaram
o Brasil em evidência nos círculos internacionais
de discussão política. Segundo a análise
do especialista, o governo brasileiro quer ser visto
como autoridade regional – em contraponto aos
Estados Unidos – quando o assunto é segurança
na América Latina.
"O
Brasil vem se candidatando a uma vaga permanente no
Conselho de Segurança da ONU e esse tipo de ação
pode ser uma oportunidade para conseguir esse objetivo",
analisa Villa. Segundo o especialista, o governo brasileiro
sabe que só ganhará o posto de destaque
nas Nações Unidas quando provar para a
comunidade internacional que tem condições
políticas, econômicas e militares para
assumir a função.
"Honestamente,
não estamos preocupados com isso. A ONU precisa
mudar e vai ter que mudar, como mudou a governança
econômica com a criação do G20.
Então isso vai acabar acontecendo, quando é
que vai acontecer, eu não sei. Mas certamente
nós não estamos no Haiti por causa disso.
Se fosse atrás disso, nós teríamos
participado da guerra do Iraque, teríamos participado
de outras situações que nós não
achamos que deveríamos participar", rebate
o ministro Celso Amorim.
Apenas
cinco membros do Conselho de Segurança são
permanentes: China, França, Estados Unidos, Reino
Unido e Rússia. Os outros dez são eleitos
pela Assembleia Geral por um período de dois
anos.
Interesses
geopolíticos?
Sobre
a presença de soldados dos Estados Unidos no
Haiti depois da tragédia, o ministro rejeita
a possibilidade de haver um clima competitivo entre
a potência norte-americana e o Brasil.
"O
depoimento que eu recebi dos nossos militares, inclusive
do general Floriano Peixoto, que é comandante
de todas as forças nas Nações Unidas,
tem sido de uma boa cooperação com os
Estados Unidos, que tem uma força maior, e também
com o Canadá. No caso da França, acho
que o problema não se coloca, porque não
existem propriamente forças."
Na
opinião de Villa, a presença dos Estados
Unidos pode ter um caráter preventivo, já
que uma das preocupações fundamentais
é evitar que haja uma invasão de imigrantes.
E a pressão na fronteira americana deve aumentar
depois do terremoto: antes da catástrofe, 40
mil haitianos estavam na lista para serem repatriados.
O
temor de que haja fuga em massa do Haiti foi tema de
um encontro com empresários no Fórum Econômico
Mundial em Davos. Segundo Celso Amorim, as doações
desse grupo são fundamentais nessa fase de ajuda,
mas serão ainda mais importantes na fase posterior,
de reconstrução e desenvolvimento do país
caribenho. "Uma das razões que mais preocupa
hoje o governo haitiano é o êxodo de jovens,
então é preciso desde logo que criemos
perspectivas de trabalho para os jovens haitiano, para
que eles fiquem lá, porque são a maior
riqueza que o país tem", declara o ministro.
Aceitação
dos brasileiros
Para
os soldados brasileiros que estão nas ruas do
Haiti todos os dias e que convivem com a população
local, o clima é amistoso. "Os haitianos
respeitam o Brasil porque o soldado brasileiro tem uma
forma diferente de atuar. A patrulha pela capital é
feita a pé, por isso há mais contato com
a população. E, depois de cinco anos,
vemos crianças na rua falando o português",
diz o Coronel Alan Sampaio Santos, porta-voz do Exército
Brasileiro no Haiti e integrante da missão há
sete meses.
Autora: Nádia Pontes
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