COBERTURA ESPECIAL - Pacífico - Armas

04 de Agosto, 2019 - 14:00 ( Brasília )

Roberto Godoy - Invasões aéreas pontuais testam resposta

Tática de cruzar espaço aéreo proibido para medir reação de rivais tem se tornado comum e mais perigosa




Fogo pesado: ao menos 380 tiros de canhão 20mm, salvas de granadas de calor, caças pesados manobrando a curta distância de aviões gigantes de inteligência. Uma ação aérea de alto risco sobre um dos cenários mais sensíveis da Ásia – as Ilhas Takeshima, para o Japão, ou Dokdo, para Coreia do Sul – ocorrida há 12 dias ilustra um fenômeno cada vez mais frequente, as invasões aéreas deliberadas para medir o poder inimigo.

No caso do arquipélago rochoso na Ásia, disputado pelos dois países há cerca de 300 anos, eram 9 horas da manhã de um dia sem nuvens quando um grande Beriev-50A de quatro turbinas da Força Aérea da Rússia invadiu a Zona de Identificação de Defesa Aérea (Kadiz, na sigla internacional), espécie de autodeclarada área vestibular do espaço sul-coreano, na qual o país exige reconhecimento para permitir o sobrevoo.

Em 8 minutos, acionados pelo comando de Seul, estavam no local caças F-15K e F-16K, versões locais customizadas dos modelos americanos da Boeing e da Lockheed. Interceptado, o Beriev seguiu para o quadrante internacional. Em tempo todo a tripulação manteve silêncio nas comunicações. Cerca de 20 minutos mais tarde, a aeronave de alerta avançado e vigilância cruzou novamente a linha vermelha. Os disparos com munição traçante e os sinalizadores incandescentes de fósforo branco voltaram ao céu de Mejima, segundo os japoneses ou de Seodo, conforme os coreanos. Haveria ainda outros três personagens na cena; todos bombardeiros de longo alcance – dois chineses e mais um, também russo.

Antes disso, no dia 19, houve outro incidente. No litoral da Venezuela, dois supersônicos Su-30Mk2V, de um lote de 24 unidades fornecido pela Rússia ao regime bolivariano a partir de 2005, foram despachados da Base de Barcelona, no Mar do Caribe, para interceptar um avião de reconhecimento e coleta de informações Aries II, da força aérea dos EUA.

A missão foi cumprida no perímetro externo do terminal de Maiquetía, onde funciona o aeroporto da capital, Caracas. O piloto americano registraria depois que o turboélice teria sido “acompanhado agressivamente” durante algum tempo pelos impressionantes caças venezuelanos armados com dois tipos de mísseis ar-ar.

Jogo ruim. Esse tipo de episódio se repete com extraordinária frequência, todos os dias, em várias partes do mundo. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não revela os números consolidados das interdições efetivamente realizadas – aqueles acionamentos que resultam em um contato visual com aeronaves militares “em situação irregular”. A agência cita “centenas de missões” e admite que, apenas nos últimos seis meses, houve “14 casos de nível 1” (o mais alto) no norte da Europa envolvendo interceptadores da coalizão e aviões russos.

O que se pretende com esses ensaios é medir o tempo de reação das forças oponentes. Os radares de defesa aérea indicam a presença dos bandidos e os esquadrões de combate mantidos em regime de alerta – não mais de 10 minutos da decolagem – são acionados.

O tempo que demoram para chegar ao ‘intruso’, o modo como isso é feito e a forma da abordagem são cuidadosamente monitorados, eventualmente por sensores a bordo de satélites. O jogo é pesado e está no limite de segurança: um leve descuido, um dedo nervoso no gatilho, pode precipitar uma crise difícil.

O Brasil é o único país da América Latina capaz de supervisionar todo seu espaço aéreo. Faz isso por meio de uma rede eletrônica, a dos sete Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle do Tráfego (Cindacta), diretamente ligada aos comandos operacionais da Força Aérea. Todos os dias os alertas soam nas bases do sistema.

Quase sempre o “agressor” é só um piloto privado, um fazendeiro, sem plano de voo ou com falha técnica de comunicações. Interceptado por turboélices A-29 Super Tucano ou, em situações especiais, por jatos F-5M, é orientado a pousar em uma pista próxima. Pode ser diferente. Às vezes o “bandido” é um traficante de drogas ou contrabandista de armas. Eventualmente, uma tentativa de fuga pode resultar em tiros de canhão. “Para neutralizar a ameaça”, disse ao Estado um oficial do Esquadrão Flecha, da ALA 5, de Campo Grande (MS).


RUSSIAN FEDERATION-23/7/2019
Tensão no céu. Modelo russo Beriev-50A similar ao interceptado por jatos da Coreia do Sul: Otan diz que são comuns, mas não revela números consolidados de interdições realizadas