COBERTURA ESPECIAL - Pacífico - Geopolítica

06 de Setembro, 2017 - 09:50 ( Brasília )

EUA são os perdedores na Península da Coreia

Política de sanções a Pyongyang fracassou completamente, e americanos deveriam reconhecer que estão com as piores cartas e procurar mediador neutro para negociar com a Coreia do Norte, afirma o jornalista Martin Fritz.

A explosão do que pode ser uma bomba de hidrogênio pela Coreia do Norte é um momento duro para os Estados Unidos. Uma única bomba desse tipo pode destruir completamente uma cidade como Nova York.

Da mesma forma, a detonação de uma bomba H na atmosfera acima do Vale do Silício poderia paralisar completamente, através de seu impulso eletromagnético, as centrais da Apple, do Facebook e da Google. E, em breve, Pyongyang terá os meios para levar esse explosivo diretamente ao alvo.

A estratégia americana de usar sanções para conter o programa nuclear e de mísseis dos Kim fracassou. A resolução 1718 da ONU, com as primeiras medidas punitivas que o Conselho de Segurança impôs, após o primeiro teste nuclear da Coreia do Norte, já tem quase 11 anos.

Apesar dela, os governantes da dinastia Kim conseguiram chegar ao primeiro teste nuclear. Os Estados Unidos não estavam preparados para isso, como mostram as reações perplexas. O presidente Donald Trump pode até ameaçar usar seu potencial nuclear, mas nem ataques militares convencionais nem nucleares são uma opção realista.

Os aliados Coreia do Sul e Japão seriam os primeiros a dizer não, pois eles seriam as primeiras vítimas de contra-ataques norte-coreanos. E se o governo americano continuar apostando no endurecimento de sanções e aguardando pelos seus efeitos, a Coreia do Norte ganhará mais tempo para aperfeiçoar seus mísseis.

Mas negociações também não beneficiariam Washington. A Coreia do Norte entraria nelas para negociar um acordo de paz, obter uma garantia de existência e se livrar das sanções. Mas, ao contrário de antes, o regime dos Kim iria querer sair dessas negociações com o reconhecimento de que é uma potência nuclear.

Como exemplo, os diplomatas norte-coreanos mencionam o Paquistão, que também foi aceito pelos EUA como potência nuclear. Assim, para iniciar conversações, os Estados Unidos teriam de abrir mão de sua exigência de uma Coreia do Norte livre de armas nucleares.

Possivelmente daria para negociar uma restrição do arsenal, mas nada mais. Essa situação, no entanto, seria inaceitável para a Coreia do Sul e o Japão. O jogo duplo da China também frustra a equipe de Trump. Os americanos dependem de Pequim implementar as sanções.

Mas o presidente Xi Jinping persegue interesses próprios. Primeiro, a Coreia do Norte deve continuar sendo um Estado-tampão. Por esse motivo, a China não vai apoiar um embargo petrolífero. Segundo, os chineses querem diminuir a influência dos Estados Unidos na Ásia Oriental.

Para isso, o programa nuclear e de mísseis da Coreia do Norte é bastante útil, porque semeia a discórdia nas alianças dos EUA com o Japão e a Coreia do Sul. A Rússia também não é de forma alguma neutra nessa história. A suposição de que o presidente Vladimir Putin usa a Coreia do Norte como um veículo para humilhar os EUA não é exagerada.

Os rápidos progressos na tecnologia de mísseis da Coreia do Norte são muito suspeitos, mesmo que faltem provas de uma suposta ajuda russa. A mudança de situação torna Moscou um importante ator no Extremo Oriente. Isso combina com o apelo da Rússia contra sanções e a favor de negociações.

Pode-se encarar a situação como quiser: seja com, seja sem negociações com a Coreia do Norte, os EUA são os atuais perdedores na Península da Coreia. George W. Bush e Barack Obama não estudaram Maquiavel tão bem quanto Kim Jong-il e seu filho Kim Jong-un.

E a cada tuíte contra Pyongyang, Trump mostra ser um tigre sem dentes, porque atualmente não há nenhuma opção para os americanos saírem ganhando.

Talvez Washington devesse procurar um mediador neutro, como, por exemplo, a Suécia ou a Alemanha – ambos os países têm uma embaixada em Pyongyang –, e negociar nos bastidores uma possível base para as negociações. Mas esse passo requer dos americanos a percepção de que, neste momento, estão do lado mais fraco da corda.

Verdades e mitos sobre a dinastia Kim

Família governa a Coreia do Norte desde a fundação do país, há quase sete décadas, com um culto quase divino às personalidades de Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un.

Um jovem líder

Kim Il-sung, o primeiro e "eterno" presidente da Coreia do Norte, assumiu o poder em 1948 com o apoio da União Soviética. O calendário oficial do país começa no seu ano de nascimento, 1912, designando-o de "Juche 1", em referência ao nome da ideologia estatal. O primeiro ditador norte-coreano tinha 41 anos ao assinar o armistício que encerrou a Guerra da Coreia (foto).

 

Idolatria

Após a guerra, a máquina de propaganda de Pyongyang trabalhou duro para tecer uma narrativa mítica em torno de Kim Il-sung. A sua infância e o tempo que passou lutando contra as tropas japonesas nos anos 1930 foram enobrecidas para retratá-lo como um gênio político e militar. No congresso partidário de 1980, Kim anunciou que seria sucedido por seu filho, Kim Jong-il.

 

No comando até o fim

Em 1992, Kim Il-sung começou a escrever e publicar sua autobiografia, "Memórias – No transcurso do século." Ao descrever sua infância, o líder norte-coreano afirmou que ao 6 anos participou de sua primeira manifestação contra os japoneses e, aos 8, envolveu-se na luta pela independência. As memórias permaneceram inacabadas com a sua morte, em 1994.

 

Nos passos do pai

Depois de passar alguns anos no primeiro escalão do regime, Kim Jong-il assumiu o poder após a morte do pai. Seus 16 anos de governo foram marcados pela fome e pela crise econômica num país já empobrecido. Mas o culto de personalidade em torno dele e de seu pai, Kim Il-sung, cresceu ainda mais.

 

Nasce uma estrela

Historiadores acreditam que Kim Jong-il nasceu num campo militar no leste da Rússia, provavelmente em 1941. Mas a biografia oficial afirma que o nascimento dele aconteceu na montanha sagrada coreana de Paekdu, exatamente 30 anos após o nascimento de seu pai, em 15 de abril de 1912. Segundo uma lenda, esse nascimento foi abençoado por uma nova estrela e um arco-íris duplo.

 

Problemas familiares

Kim Jong-il teve três filhos e duas filhas com três mulheres, até onde se sabe. Esta foto de 1981 mostra Kim Jong-il sentado ao lado de seu filho Kim Jong-nam, fruto de um caso com a atriz Song Hye-rim (que não aparece na foto). A mulher à esquerda é Song Hye-rang, irmã de Song Hye-rim, e os dois adolescentes são filhos de Song Hye-rang. Kim Jong-nam foi assassinado em 2017.

 

Procurando um sucessor

Em 2009, a mídia ocidental informou que Kim Jong-il havia escolhido seu filho mais novo, Kim Jong-un, para assumir a liderança do regime. Os dois apareceram juntos numa parada militar em 2010, um ano antes da morte de Kim Jong-il.

 

Juntos

Segundo Pyongyang, a morte de Kim Jong-il em 2011 foi marcada por uma série de acontecimentos misteriosos. A mídia estatal relatou que o gelo estalou alto num lago, uma tempestade de neve parou subitamente e o céu ficou vermelho sobre a montanha Paekdu. Depois da morte de Kim Jong-il, uma estátua de 22 metros de altura do ditador foi erguida próxima à de seu pai (esq.) em Pyongyang.

 

Passado misterioso

Kim Jong-un manteve-se fora de foco antes de subir ao poder. Sua idade também é motivo de controvérsia, mas acredita-se que ele tenha nascido entre 1982 e 1984. Ele estudou na Suíça. Em 2013, ele surpreendeu o mundo ao se encontrar com Dennis Rodman, antiga estrela do basquete americano, em Pyongyang.

 

Um novo culto

Como os dois líderes antes dele, Kim Jong-un é tratado como um santo pelo regime estatal totalitário. Em 2015, a mídia sul-coreana reportou sobre um manual escolar que sustentava que o novo líder já sabia dirigir aos 3 anos. Em 2017, foi anunciado pela mídia estatal que um monumento em homenagem a ele seria construído no Monte Paekdu.

 

Um Kim com uma bomba de hidrogênio

Embora Kim tenha chegado ao poder mais jovem e menos conhecido do público que seu pai e seu avô, ele conseguiu manter o controle do poder. O assassinato de seu meio-irmão Kim Jong-nam, em 2017, serviu para cimentar sua reputação externa de ditador impiedoso. O líder norte-coreano também expandiu o arsenal de armas do país.



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