COBERTURA ESPECIAL - Pacífico - Geopolítica

31 de Agosto, 2017 - 09:00 ( Brasília )

Por que o Japão não interceptou o míssil norte-coreano?

Altitude e velocidade do projétil dificultava intercepção durante voo, e tentativa fracassada causaria embaraço ao governo japonês e encorajaria Pyongyang, explicam especialistas.

Depois de o míssil balístico da Coreia do Norte atravessar o Japão na manhã desta terça-feira (29/08), Tóquio não poupou esforços para garantir à população que está tomando todas as providências para protegê-la. Na verdade, entretanto, os militares japoneses poderiam ter feito efetivamente muito pouco para neutralizar a mais recente provocação de Pyongyang.

Acredita-se que o projétil fosse um míssil Hwasong-12, de capacidade nuclear e alcance intermediário, disparado das cercanias de Pyongyang às 5h57 (hora local). Depois de sobrevoar o Mar do Japão, passou pelo norte do país a uma altitude estimada de 550 quilômetros, antes de aparentemente se separar em três partes e cair no Oceano Pacífico, cerca de 1.180 quilômetros a leste de Hokkaido.

O míssil foi detectado segundos após o lançamento, quase certamente por um dos quatro satélites de alerta prévio por infravermelho, operados pelos EUA em órbita geossíncrona acima do Equador. Então o sistema automático J-Alert do Japão emitiu avisos à população em todo o norte japonês, através de telefones celulares, rádio e televisão. As forças de autodefesa monitoraram a trajetória do míssil, mas sem tentar interceptar o foguete.

Interceptação improvável

O ministro japonês da Defesa, Itsunori Onodera, explicou que a decisão foi não tentar derrubar o míssil por ele não visar um alvo no Japão e, portanto, não haver perigo de que entrasse em território japonês. Onodera acrescentou que o projétil esteve sobre o país por menos de dois minutos.

O projétil foi aparentemente rastreado pelos três contratorpedeiros do sistema de combate Aegis, todos munidos de mísseis de intercepção Standard Missile-3, e constantemente estacionados no Mar do Japão. Um segundo nível de defesa imediata é fornecido pelos mísseis terrestres Patriot Advanced Capability-3, da Força Aérea de Autodefesa do Japão, estacionada na base aérea de Chitose, em Hokkaido.

"Ao sobrevoar o Japão, ele ia muito alto e se movia com velocidade extrema", diz Lance Gatling, analista de defesa e presidente da empresa de consultoria especializada em defesa aeroespacial Nexial Research, sediada em Tóquio.

"Ele estava aparentemente a uma altitude de 550 quilômetros ao passar por Hokkaido, que fica no limite máximo da faixa de intercepção do SM-3, e qualquer contratorpedeiro Aegis precisaria estar na posição certa para interceptar", explica Gatling. "Em suma, seria um tiro difícil de acertar, caso se tivesse seguido em frente e ordenado o disparo."

Lixo espacial e vexame

Uma tentativa de interceptação também traria riscos significativos, lembra Gatling. "O que o Japão teria alcançado se tivesse interceptado o míssil?

Haveria bem mais lixo espacial na atmosfera, potencialmente ameaçando nossos foguetes ou missões de reabastecimento para a Estação Espacial Internacional, por exemplo."

A Coreia do Norte inevitavelmente ficaria irritada por tal manobra, já que não está claro se o Japão tem o direito legal de interferir com veículos de outra nação que estejam acima de seu espaço aéreo.

"É certamente descortês disparar um míssil sobre outro país, mas não chega a ser ilegal", diz o especialista. Provavelmente, o maior problema de uma tentativa de interceptar o míssil seria se as defesas do Japão fracassassem.

"Se eles tivessem tentado derrubá-lo e falhassem, as consequências seriam sérias", deduz Gatling. "Esse sistema defensivo, com que o Japão gastou muito dinheiro, teria falhado em seu primeiro teste.

Isso não pegaria bem domesticamente, e ainda encorajaria os norte-coreanos a pensarem que seus mísseis são intocáveis." Stephen Nagy, professor de relações internacionais na International Christian University de Tóquio, concorda que a velocidade e a altitude do míssil norte-coreano dificultariam extremamente qualquer tentativa de derrubá-lo.

"Claramente, teria sido difícil por causa do tempo necessário para reunir a informação, determinar o curso e o objetivo do míssil, e depois ter uma decisão do Conselho de Segurança Nacional sobre uma reação. Até que isso acontecesse, o míssil já teria caído."

Respostas futuras

A questão agora pode ser como o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, se prepara para lidar com o próximo míssil disparado pela Coreia do Norte.

A probabilidade de que isso ocorra aumentou consideravelmente na quarta-feira, desde que a mídia estatal informou que Kim Jong-un desafiadoramente ordenou mais testes de mísseis no Oceano Pacífico.

"O governo japonês está considerando equipar as Forças Armadas para realizar ataques preventivos em território estrangeiro, caso seja identificada uma ameaça direta ao Japão. Embora seja necessário lembrar que qualquer ataque contra a Coreia do Norte provavelmente terá como resposta um ataque contra Seul", alerta Nagy.

Segundo estimativas, um ataque de artilharia contra a capital sul-coreana poderia matar 1 milhão de pessoas em um minuto. "Espero que o Japão colabore com os EUA, Coreia do Sul e, possivelmente, a China para aplicar mais pressão financeira sobre Pyongyang e cortar os suprimentos tecnológicos e de componentes de que eles precisam para fazer esses mísseis", torce o especialista em relações internacionais.


 

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