COBERTURA ESPECIAL - OTAN

16 de Dezembro, 2018 - 19:20 ( Brasília )

OTAN - Criação de um Exército da UE vira arma política

Líderes de diferentes espectros ideológicos usam proposta francesa de maneira distinta


Renata Tranches

Até ser entrincheirado pelos protestos contra seu governo, o presidente francês, Emmanuel Macron, vinha buscando projeção como líder na Europa defendendo a ideia de um Exército europeu. Mesmo longe de se concretizar, a proposta ganhou defensores de diferentes espectros ideológicos no bloco e irritou Donald Trump, que comanda a maior potência militar do mundo.

Em Berlim, a proposta de Macron foi apoiada pela chanceler alemã, Angela Merkel, de quem o presidente francês pretende herdar o papel de liderança regional após a saída dela do cenário político, até 2021. Em discurso ao Parlamento Europeu sobre o futuro da Europa, Merkel afirmou que um Exército comum mostraria ao mundo que nunca mais haverá uma guerra no continente.

“A integração e a cooperação europeia em defesa deve complementar a Otan – e não rivalizar com ela”
Pierre Harouche ESPECIALISTA EM SEGURANÇA


Por trás desse discurso, segundo o especialista em segurança europeia do Institute for Strategic Research, Pierre Harouche, está a mensagem de que a Alemanha de Merkel tem um “compromisso político” com a integração europeia. “Não significa que a Alemanha vá apresentar um plano concreto tão cedo”, disse Harouche ao Estado.

Merkel reconheceu que a Europa enfrenta vários obstáculos logísticos para construir uma integração militar e de defesa mais ampla. Um deles são os diferentes sistemas de armas no bloco – informações estratégicas que Estados-membros estão longe de querer compartilhar. Segundo levantamento da revista Forbes, a União Europeia tem seis vezes mais sistemas de armas em serviço do que os EUA. Como exemplo, a UE tem 17 tipos de tanques principais de batalha, como o Leclerc (França), o Leopard 2 (Alemanha) e o PT-91 (Polônia).

Mesmo assim, Merkel reforçou o argumento do presidente francês de que a UE precisa buscar essa integração, uma vez que já não pode contar com os EUA. A preocupação é justificável, segundo Harouche, já que as declarações do presidente americano têm mostrado que o compromisso dos EUA com a Europa não é mais confiável. Além disso, os EUA têm cada vez mais direcionando seu foco para a Ásia.

 

Harouche esclarece, porém, que um hipotético Exército europeu não rivalizaria com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que depende do apoio dos EUA. “No futuro, algumas missões terão de ser assumidas exclusivamente pelos europeus. Por esse motivo, a integração e a cooperação europeia em defesa deve complementar a Otan – e não rivalizar com ela”, explica.








 

Menos integracionista, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, também se manifestou em favor do Exército comum europeu. Mas, diferentemente de Merkel, a mensagem em seu discurso é voltada para seus eleitores. Segundo Harouche, para Orban o Exército europeu significa promover a militarização das fronteiras com o objetivo de deter imigrantes.

Em Londres, fica a dúvida sobre como seria um Exército europeu sem a maior força militar da União Europeia, caso o Brexit venha a se concretizar. O cenário, segundo Harouche, não é percebido negativamente em Bruxelas. “O Brexit significa que a União Europeia perderia uma de suas potências militares mais importantes, mas também significa que o veto britânico seria removido de vários debates, como, por exemplo, o estabelecimento de um quartel-general (para o futuro Exército)”, explica o francês.


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