COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Geopolítica

13 de Março, 2017 - 10:00 ( Brasília )

O plano americano para ter mais bases na Alemanha

Apontando preocupações com Moscou, comandantes fazem pressão para aumentar o número de forças baseadas na Europa e sondam locais no norte alemão. Movimento reverte tendência de décadas.

Militares em Grafenwöhr, na Baviera: por décadas, bases americanas povoaram a paisagem alemã, especialmente no sul

O Exército dos Estados Unidos tem sondado dois locais no norte da Alemanha para potencialmente alocar mais tropas na Europa. Inspetores americanos visitaram recentemente duas instalações, em Bad Fallingbostel e Bergen, comunidades militares tradicionais na Baixa Saxônia que ficam próximas de uma grande área de treino da Otan.

A imprensa local estima que as bases poderiam acomodar 4 mil soldados, o contingente de uma brigada de combate. Segundo o comando responsável pelos soldados americanos na Europa, as sondagens têm como objetivo listar opções caso os governos americano e alemão aprovem um aumento de forças no futuro.

"Neste momento nenhuma decisão foi tomada. Estamos empenhados apenas em fazer um planejamento prudente", disse o Exército em comunicado.

Preocupações com a Rússia

O deputado alemão Henning Otte, correligionário da chanceler federal Angela Merkel na CDU, disse ao jornal jornal que tem incentivado o Exército a considerar a região, que já vem experimentado uma concentração de forças blindadas da Bundeswehr, o Exército alemão.

Apontando preocupações com relação à Rússia, comandantes americanos têm feito pressão para aumentar o número de forças permanentemente baseadas na Europa. O general Curtis Scaparrotti, o comandante de todas as forças americanas na Europa, disse ao Congresso dos EUA no ano passado que uma brigada de blindados deveria ficar estacionada no continente.

Duas brigadas americanas estão baseadas permanentemente na Europa: uma, no sul alemão, é composta de tropas de infantaria mecanizada; outra, com bases na Itália e na Alemanha, de tropas aerotransportadas. Cinco anos atrás, um total de quatro brigadas estava na Europa, mas elas acabaram sendo removidas como parte de um plano do governo Barack Obama que elegeu a Ásia como foco de atividades militares.

Enquanto os EUA e seus parceiros da Otan têm aumentado o número de forças temporárias na Europa Oriental nos últimos anos, o número de forças permanentemente estacionadas só vem diminuindo desde o final da Guerra Fria. Eram 300 mil soldados no final de 1980. Hoje, são apenas 62 mil.

Países da Europa Oriental, como a Polônia, têm feito pressão para o envio de tropas permanentes em seus territórios, mas os aliados ocidentais, inclusive a Alemanha, têm resistido. Eles citam um ato da Otan em 1997 que selou um acordo com a Rússia para estabelecer limites na implantação de bases permanentes nos antigos países que compunham o Pacto de Varsóvia.

Em bases permanentes, os soldados passam anos treinando no mesmo local em vez de meses. Isso tudo em conjunto com as mesmas unidades da Bundeswehr ou de outras forças aliadas da Otan. Os soldados também vêm acompanhados de suas famílias, o que ajuda a movimentar a economia da região.

Reversão da tendência

Uma nova expansão significaria uma reversão da tendência americana das últimas décadas de reduzir seus efetivos na Europa. Bases americanas costumavam povoar a paisagem alemã, especialmente no sul.

A decisão do governo Trump de aumentar os gastos com defesa em 10% (ou em 54 bilhões de dólares) está renovando as esperanças de comandantes americanos que desejam mais soldados, poder de fogo e armamentos em suas áreas.

A Otan quer frear a Rússia por meio do apoio a aliados e pelo aumento da sua presença no leste, onde a atividade militar russa tem aumentando nos últimos anos. Posicionar uma unidade americana no norte da Alemanha teria um benefício logístico para a Otan, já que a região fica próxima do porto de Bremerhaven e dos países que fazem fronteira com a Rússia.

Se os americanos ocuparem o local, suas tropas ficarão baseadas na antiga zona de ocupação britânica na Alemanha. A área de treinamento Bergen-Hohne, uma faixa de 280 quilômetros entre Bad Fallingbostel e Bergen, é o maior campo de treinamento militar da Otan na Alemanha. No ano passado, a Bundeswehr estacionou um batalhão de tanques com cerca de mil soldados na região.

Depois que as tropas britânicas deixaram a região, em 2015, o campo em Bad Fallingbostel se transformou rapidamente em um abrigo de refugiados. A região é também o lar de várias antigas construções da época nazista, incluindo antigos campos de prisioneiros, ou Stalags, na área de Bad Fallingbostel, e o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde Anne Frank morreu durante o Holocausto.

O que esperar de Merkel em Washington?

Quando se trata da relação transatlântica e de presidentes americanos, a impressão é que a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, que está em campanha por um quarto mandato, já viu de tudo.

Ela foi anfitriã do impopular George W. Bush em um churrasco de javali na costa do Mar Báltico. Também recebeu o popular Barack Obama para um café da manhã com salsicha e cerveja nos Alpes bávaros. Apesar da hospitalidade, ela nunca ficou íntima de qualquer um deles.

Durante o mandato dos dois presidentes, ela teve que lidar com grandes abalos no sistema transatlântico, como a Guerra do Iraque e o caso NSA. Mas, apesar dessas tensões, Merkel conseguiu estabelecer laços tão sólidos com Bush e Obama que ambos acabaram por considerá-la a pessoa-chave na maioria das questões europeias.

Mas com Trump, Merkel agora enfrenta seu maior desafio transatlântico: encontrar terreno comum com o ocupante da Casa Branca. E isso acontece com ela está sob pressão doméstica crescente: pesquisas mostram o Partido Social-Democrata em ascensão para as eleições de setembro.

"Em relação à política americana, nunca foi tão complicado como é agora", afirma Josef Janning, que chefia o escritório de Berlim do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Merkel terá que tomar uma nova abordagem para tentar estabelecer uma relação de trabalho decente com o presidente, afirma John Harper, professor de política externa dos EUA na Universidade Johns Hopkins, em Bolonha. Trump, lembra ele, é completamente diferente de Obama e Bush.

Isso porque, ao contrário de seus predecessores – e de Merkel –, Trump não possui nenhuma experiência governamental prévia antes de se tornar presidente. Acrescente a isso o comportamento presidencial de Trump – com sua tendência a agir agressivamente sobre uma miríade de tópicos, muitas vezes por meio do Twitter, e com sua batalha pessoal contra a mídia.

Isso tudo faz com que o novo presidente dos Estados Unidos seja um outsider entre os recentes moradores da Casa Branca e o oposto do estilo político de Merkel, que é rotineiramente descrito como calmo e controlado.

Visões de mundo opostas

Embora os diferentes contextos e estilos de governo sejam importantes, eles são eclipsados pelas diametralmente opostas visões políticas que Merkel e Trump expressam.

A chanceler alemã defende uma abordagem cooperativa e multilateralista na política global. Trump, por outro lado, pelo que se pode deduzir até agora, parece favorecer uma abordagem de grande potência nos assuntos internacionais e o desprezo por instituições e estruturas multilateriais. Ele vê a política essencialmente como um jogo de ganhar ou perder.

Isso torna difícil encontrar um terreno comum entre Merkel e Trump e indica que não é possível esperar muito desse primeiro encontro, ainda mais levando em conta os ataques que eles fizeram um contra um outro em discursos para cidadãos de seus países.

É por isso que nem Janning nem Harper esperam resultados tangíveis nesta primeira reunião.

"Um dos objetivos de Merkel interesses é obter pelo menos um compromisso verbal suficientemente bom do novo presidente para com o processo do G20 e com a ideia de abordar questões por meio de estruturas cooperativas", diz Janning.

Os preparativos da cúpula do G20, que vão ocorrer em Hamburgo neste verão, é apresentada como a razão para a visita de Merkel à Casa Branca. Outro tema-chave que deve ser abordado pela dupla é o futuro da UE.

Trump, que tem sido um partidário fervoroso da saída do Reino Unido do bloco, repetidamente deixou claro que ele menospreza a UE e prefere manter relações bilaterais diretamente com os países europeus sem passar por Bruxelas.

Dada a animosidade de Trump em relação à UE, Merkel deverá deixar claro por que a unão não é apenas importante para a Alemanha e para a Europa, mas também para os EUA. Isso pode ser uma tarefa difícil, observa Janning, uma vez que Trump, ao contrário de seus predecessores, sugeriu que ele não vê os EUA como uma potência europeia ou como líderes incontestados da aliança transatlântica.

A postura de Trump em relação à Europa ficou explícita quando ele recebeu o político britânico e arquiteto do Brexit Nigel Farage como um de seus primeiros visitantes estrangeiros depois de vencer a eleição.

Sem mais insultos

É por isso que Harper considera que mesmo uma eventual alteração do tom usado por Trump em relação à Europa seria um sucesso: "Espero que um resultado dessa visita seja que ela possa pelo menos persuadir Trump a parar de atacar a União Europeia e de incentivar políticos como Marine Le Pen", afirma o especialista da Universidade Johns Hopkins.

De modo semelhante, no caso das relações com a Rússia, outra questão controversa: Merkel provavelmente vai explicar a Trump que ela considera uma postura firme baseada nos princípios e regras da ordem europeia do pós-guerra como a abordagem que deve ser usada em relação a Moscou.

Se Merkel e Trump encontrarem algum terreno comum para trabalhar juntos, isso não ficará evidente de uma primeira reunião. Mas isso pode ocorrer no próximo semestre, que vai marcar um momento crucial para Merkel, que enfrenta uma eleição, e para Trump, que vai ter que mostrar resultados.

Ainda assim, diz Harper, essa primeira reunião provavelmente terá pelo menos um efeito imediato. "Uma vez que Trump tenha conhecido Merkel, acho que será mais difícil para ele insultá-la."

 


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