COBERTURA ESPECIAL - Especial MOUT - Segurança

29 de Março, 2018 - 00:15 ( Brasília )

ENGESA EE-11 URUTU para uso Policial - Outro Marco Histórico

Excelente trabalho de pesquisa de Expedito Bastos da UFJF/Defesa mostrando o emprego do ENGESA EE-11 Urutu em funções policiais por forças de vários países.


ENGESA EE-11 URUTU PARA USO POLICIAL
Outro marco histórico


 

              


Em 25 de novembro de 2010 ocorreu um marco histórico importante para as operações de blindados no país em área urbana, pelos acontecimentos até então ocorridos na cidade do Rio de Janeiro, uma verdadeira guerra civil, que há tempos vem assolando aquela cidade, mostrada ao vivo pelas redes de televisão, em tempo real.
 

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Este marco histórico se deu através do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, inovando na cessão de seus blindados; meios de comunicação e outros equipamentos para as Forças de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, entendo que operações conjuntas sob comando de forças policiais – que vivem os problemas do chamado “crime organizado” e que há décadas trazem insegurança para a população de uma das maiores cidades brasileiras – são possíveis de serem executadas sem que tragam qualquer desgaste para as Forças Armadas e sem comprometer a cadeia de comando, que infelizmente não foi bem aproveitado e oito anos depois a situação se encontra bem pior do que naquele momento, fruto de nossa incapacidade de compreender a importância da segurança pública para o país, além de nossa falta de visão estratégica, vontade politica e a terrível corrupção. (Nota DefesaNet - Matérias sobre o histórico de ações MOUT-GLO podem ser acessadas na Cobertura Especial MOUT Clicar Banner abaixo)
               
O curioso é que a Polícia Militar do Rio de Janeiro foi pioneira na aquisição de blindados sobre rodas para ambiente urbano, muito antes do Exército, quando no início dos anos de 1920 do século passado adquiriu dois veículos blindados 4x2 na França, tratando-se de Automitralleuse White (Autometralhadora White) montados sobre chassis de caminhões americanos White, com torre giratória, amadas com duas metralhadoras Hotchkiss calibre 7 mm, uma de costa para a outra (a versão francesa possuía uma metralhadora Hotchkiss de 8 mm e um canhão Puteaux de 37 mm), o avô do “Caveirão ou Pacificador”, criando assim a Companhia de Metralhadoras e Carros de Assalto, uma companhia de infantaria especializada e independente. Mas isto é outra história...


 
Automitralleuse White da Polícia Militar do Rio de Janeiro no desfile do centenário da Independência do Brasil em 07 de setembro de 1922. (Crédito da foto: S.P.UFJF/Defesa)

Hoje, 28 de março de 2018, o Exército Brasileiro, dando continuidade às ações da Intervenção Federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, está entregando a título de empréstimo, três blindados sobre rodas 6x6 Engesa EE-11 Urutu, os quais serão empregados pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE, além de mais dois blindados 4x4 Paramount Maverick já pertencentes àquela corporação e um 4x2 Caveirão TCT (Tecnologia em Carrocerias de Transporte Blindados Indústria e Comércio de Carrocerias e Caçambas Ltda) montado sobre um chassi FORD Cargo 815MU pertencente à Coordenadoria de Recursos Especiais – CORE, da Polícia Civil, sendo estes três últimos recuperados por empresa privada em parceria com o Exército, trazendo-os de volta à ativa.
               
A novidade para nós será o emprego do EE-11 Urutu como um veículo policial, utilizado por uma Força Policial e não pelas Forças Armadas, sendo que os mesmos apresentarão a pintura de preto e as marcações do BOPE, muito embora serão conduzidos por motoristas do Exército.
              
Estes veículos são oriundos do lote repatriado do Haiti, remanescentes da então MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), onde o Brasil comandou a parte militar de 2004 a 2017 e se encontravam no 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado (15º RCMec) os quais foram manutenidos pelo Batalhão Central de Manutenção e Suprimentos (BCMS), antigo Parque Regional de Manutenção da 1ª Região Militar – PqRMnt/1), em parceria com empresas privadas, a maioria no Rio de Janeiro. (Para maiores informações sobre o emprego de blindados no Haiti, sugiro o livro: BLINDADOS NO HAITI – MINUSTAH - UMA EXPERIÊNCIA REAL, de minha autoria).
     


EE-11 Urutu do Exército Brasileiro em operação no Haiti (MINUSTAH) em 2008. Notar que o mesmo possui proteção blindada para o motorista, torreta blindada para o atirador e lâmina do tipo “bulldozer” na parte frontal, chamado de Moustache (Bigode). Sem dúvida um grande avanço obtido pelas necessidades locais de emprego do veículo. (Crédito das fotos: Autor)
 
Os três veículos possuem proteção balística para o motorista e dois deles com torreta giratória do atirador totalmente protegida, e um destes está equipado com lâmina frontal, desenvolvidos pela Centigon Blindagens do Brasil em parceria com o Arsenal de Guerra de São Paulo – AGSP, em 2009. Já o terceiro veículo possui o modelo de torreta com proteção lateral, desenvolvida no Esquadrão de Cavalaria Mecanizado (Escola) – Esquadrão Paiva Chaves, em 2005 e empregados no Haiti (MINUSTAH), tudo fruto da experiência brasileira atuando como Força Policial a serviço das Nações Unidas no Haiti. Quer se queira quer não este foi o nosso grande laboratório, possibilitando entender na prática a utilização de blindados sobre rodas em áreas urbanas, lembrando ainda que também foram empregados por tropas da Bolívia e Jordânia, sendo os modelos mais antigos e últimos de série produzidos respectivamente.


 

EE-11 M6 Urutu com marcações do BOPE, pintados em preto, cor padrão dos blindados da polícia no Rio de Janeiro, com a tripulação mista já que o motoristas das viaturas serão do Exército. (Foto Ricardo Pereira Especial DefesaNet)

O emprego e a entrega destes veículos estão cercados de um “secretismo” por parte das autoridades envolvidas na Intervenção, dando a entender que os mesmos fossem uma “arma secreta de última geração”, e de um ineditismo único, porém, precisam ter cuidado, nem sempre as soluções apresentadas do Haiti terão o resultado esperado por aqui, bastando lembrar que os armamentos na mão dos ilegais no Rio de Janeiro, tanto em calibre quanto em quantidade e modelos, superam em muito os das gangues no Haiti e lá vários veículos blindados de diversos tipos e modelos foram atingidos por munição 7,62 mm perfurante, sem grandes problemas, mas em certos casos penetraram, lembrando que um blindado OT-64 8x8 Uruguaio foi destruído numa emboscada em 2006.

Neste ano o EE-11 Urutu completa 38 anos de emprego em combates reais, seja como versão Transporte de Tropas, razão de sua criação, sejam como veículos remuniciadores, lançadores de foguetes, com diversas adaptações locais no Oriente Médio, África e América Latina.

A Viatura Blindada Anfíbia EE-11 Urutu foi um projeto iniciado no ano de 1970, numa iniciativa da Engesa (Engenheiros Especializados S/A) e a Marinha do Brasil, para atender a uma demanda do Corpo de Fuzileiros Navais. (CFN) da Marinha do Brasil, para adquirir blindados sobre rodas com capacidade anfíbia. Os dados relativos ao projeto surgiram no então Ministério da Marinha - Corpo de Fuzileiros Navais - Comando-Geral em abril de 1972.

Sua fabricação a cargo da Engesa, muito embora não tenha atendido às expectativas da Marinha, acabou por ser de extrema utilidade para o Exército e alcançou a cifra de 888 unidades produzidas, entre 1973 e 1993, contando com diversas versões como: antiaérea (com um canhão de 25 mm ou dois de 20 mm), porta-morteiro de 81 mm, suporte de fogo (com torre e canhão de 90 mm), carro comando, transporte de tropas para 13 soldados e o motorista, ambulância, viatura de socorro e veículo policial antimotim (equipado com lâmina frontal tipo bulldozer e torreta com metralhadora 7,62mm).




Dois dos cinco primeiros Engesa EE-11 Urutu do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, em 1973. Notar dois deles com os snorkel levantados. (Crédito das fotos: Coleção Autor)
 
Além do Exército e Marinha do Brasil que receberam respectivamente 217 e 6 (Corpo de Fuzileiros Navais), foram exportados para o Iraque (148), Dubai (132), Jordânia (82), Colômbia (56), Líbia (40), Venezuela (38), Chile (37), Equador (32), Angola (24), Tunísia (18), Suriname (16), Bolívia (12), Paraguai (12), Gabão (11) e Zimbabwe (7), lembrando que o usuário mais recente é o Senegal, que os adquiriu de Israel, o qual havia comprado um lote de 31 oriundos do Exército Chileno que foram modernizados pela empresa israelense Saymar Ltd em 2002.

O EE-11 Urutu, compartilhando a maioria dos componentes mecânicos com o EE-9 Cascavel, conta com a mesma simplicidade mecânica e mobilidade exemplar. Rápido e silencioso, em terra ou na água, pode ser conduzido com facilidade, quase como um caminhão civil.

Na sua configuração original, adotada pelo Exército Brasileiro, o EE-11 possui as seguintes dimensões: 6,15m de comprimento, 2,65m de largura e 2,20m de altura.

Com um peso (vazio) de 11ton, podia atingir 95 km/h em estradas e 2,5 km/h em águas calmas. Nesses primeiros carros, produzidos a partir de 1974, a tração na água se dava apenas pela movimentação das seis rodas.

Como esse sistema se mostrou insatisfatório, os veículos da primeira versão produzida para o Exército Brasileiro (M2) acabaram sendo marinizados, recebendo hélices e lemes, a exemplo da versão do Corpo de Fuzileiros Navais. Os modelos EE-11 da Marinha do Brasil também eram identificados pelos tubos rebatíveis nos flancos da carroceria. Quando levantados, asseguravam o suprimento de ar aos tripulantes, funcionando como um snorkel para o motor, dando vazão aos gases do escapamento. Assim sendo, com esses equipamentos, o Urutu podia deslocar-se a uma velocidade de 8 km/h em águas agitadas e manobrar contra correntes marinhas, levando a tropa até o local escolhido para o desembarque.

As versões do EE-11 para exportação também eram muito interessantes. O modelo mais curioso foi o “Uruvel”, o Urutu com torre de Cascavel. Inicialmente, tinha a frente em quilha, como um barco, e uma torre inglesa Alvis com canhão de 76 mm, porém, esse design diferenciado foi logo abandonado, pois não trouxe melhorias à navegabilidade, como era esperado.

Em seguida, foi montado um novo protótipo, com a torre nacional Engesa, o armamento de 90 mm do Cascavel e a frente padrão do Urutu.

Denominado “Hydracobra”, chegou a participar de uma concorrência no Canadá e disputou uma licitação do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, mas não foi escolhido. O primeiro contrato de exportação do “Uruvel” acabou sendo fechado com a Tunísia, que incorporou algumas unidades às suas forças armadas (Guarda Nacional).
 

 
Quatro EE-11 M7 Urutu da Força Policial da Jordânia (Guarda Nacional). Notar a lâmina frontal desenvolvida pela Engesa em sua configuração de fábrica, versão antidistúrbios e dois na versão Uruvel com torre e canhão Engesa de 90 mm (Crédito da foto: Tunisie Focus)
 
 
Avaliado severamente na Malásia, em 1981, outro “Uruvel”, conseguiu realizar tiro enquanto navegava. Como era algo inédito, o teste causou uma grande preocupação entre os engenheiros da Engesa, mas por fim, foi um sucesso. Sua blindagem também foi avaliada com tiros reais de armas leves (calibres 5,56mm e 7,62 mm), disparados a distâncias de 30m e 100m.

Na atualidade, o EE-11 Urutu, segue desempenhando um importante papel como veículo de transporte de tropas no Exército Brasileiro, inclusive sendo usado em missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em diversas cidades brasileiras, onde o chamado “crime organizado” tem produzido sérios problemas para a população local e mostrando a incapacidade da área de segurança pública dos estados.

O curioso é que com um grande atraso vai ser empregado como veículo policial no Brasil, fato este, que já ocorre há diversas décadas em países como Tunísia, Jordânia, Dubai, etc., e que desde 2010 tanto a Jordânia como a Tunísia o Urutu têm tido um papel de relevante importância no emprego em áreas urbanas, seja fruto da chamada Primavera Árabe em garantia da ordem interna até embates contra os integrantes do Estado Islâmico (ISIS/Daesh) como, por exemplo, o que ocorreu em 18 de dezembro de 2016, quando forças do ISIS/Daesh efetuaram um ataque terrorista contra turistas na localidade de Al-Karak, no sul do país. Este ataque provocou baixas entre civis, atacantes e a força policial que imediatamente conseguiu atuar com alguns veículos blindados, dentre eles alguns Urutus, na versão transporte de tropas, modificados para atuarem em áreas urbanas, onde receberam uma lâmina do tipo bulldozer na sua parte frontal e todo o controle hidráulico na parte lateral traseira do veículo, capaz de remover obstáculos em vias públicas, visto que dos 82 adquiridos, alguns o foram na versão antidistúrbios, os demais não, razão que levou a esta modificação.

Empresas privadas brasileiras os mantem operacionais, fornecendo os componentes necessários para manutenção, e em alguns casos fabricando pelas exclusivamente para estes veículos, razão d o grande interesse de diversos usuários que os mantém na ativa por várias décadas.
 
 
EE-11 M5 da Guarda Nacional da Tunísia removendo barricadas em Túnis, durante a chamada Primavera Árabe, em março de 2010. Notar a lâmina frontal desenvolvida pela Engesa para esta versão de exportação. (Crédito da foto: Tunisian National Guard).
 
Para um veículo concebido e produzido há mais de 40 anos, o EE-11 Urutu ainda é extremamente eficaz e operacional na atualidade, cuja produção foi encerrada em 1993, lembrando sim que possui algumas vulnerabilidades, porém estas podem ser sanadas sem maiores problemas ou grandes complicações técnicas pelos remanescentes da Base Industrial de Defesa Brasileira.

Sem dúvida, o veículo blindado EE-11 Urutu foi o segundo mais expressivo produto produzido e amplamente melhorado em suas diversas versões pela ENGESA, mantendo sua simplicidade e fácil manutenção, sendo o que melhor representou ao lado do EE-9 Cascavel, os anseios da Cavalaria Brasileira como um produto genuinamente nacional, que mesmo transcorridos mais de quatro décadas continua inabalável e íntegro em plena e eficaz atividade, combatendo ao lado de verdadeiros mitos da indústria estrangeira, ficando em nada a dever tática e operacionalmente nos campos de batalha, além de receber funções que nunca foram sequer pensadas e imaginadas pelos seus criadores, mas que acabam por nos impressionar pela versatilidade e eficiência com os resultados obtidos.

O Exército Brasileiro como maior usuário do EE-11 Urutu na atualidade, parece não ter compreendido e assimilado as potencialidades deste projeto, sonhando em substituí-lo por outro de concepção e produção estrangeira, a custos estratosféricos, com inúmeros itens modernos que nos tornam a cada dia, mais dependentes de quem os produzem, gerando empregos e serviços além-mar, além de não atender em sua plenitude as demandas estratégicas e operacionais da Força Terrestre, no momento em que esta foi chamada a atuar na Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em algumas grandes cidades do país.
               
Chegamos perto de perceber as necessidades em adaptações para estas finalidades, fruto de nossa experiência no Haiti, mas como esta missão chegou ao fim, voltamos a novamente seguir os manuais convencionais para atuarmos em áreas não convencionais, sem percebermos que temos dois produtos – EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu que podem muito bem preencher esta lacuna atendendo totalmente a necessidade tático-estratégica das Forças Armadas, seja na área urbana ou em qualquer terreno.
               
Um conjunto EE-11 Urutu para transporte de tropas e EE-9 Cascavel armado com metralhadora calibre 7,62mm no lugar de seu canhão de 90 mm seria uma dupla e tanto no combate ao dito crime organizado em áreas urbanas, visto que esta versão tem sido empregada em larga escala  por unidades que dão apoio ao Novo Exército do Iraque na luta contra o Estado Islâmico (ISIS/Daesh) com resultados expressivos. (Para maiores informações sugiro a leitura do livro: ENGESA EE-9 CASCAVEL – 40 ANOS DE COMBATES 1977 – 2017 de minha autoria).
               
Todavia, caso tivéssemos uma visão estratégica de longo prazo e vontade política, este dois blindados poderiam ainda estar em plena produção, com pequenas modificações técnicas, a um custo baixo, com um vasto mercado consumidor, gerando empregos, aprimorando conhecimentos e trazendo divisas ao país, na exportação, podendo equipará-lo, guardadas as devidas proporções e peculiaridades, aos veículos civis Toyota Land Cruise, que hoje são largamente empregados em praticamente todos os conflitos assimétricos que estão a ocorrer em diversas áreas do planeta, como uma plataforma extremamente eficaz e totalmente adaptável às necessidades de cada usuário nesses conflitos que estão a ocorrer neste conturbado século XXI.

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