COBERTURA ESPECIAL - Guerra Hibrida Brasil - Terrestre

10 de Setembro, 2019 - 09:00 ( Brasília )

'Não se relativiza a soberania', diz general do Exército

Mauro Sinott Lopes está à frente da 3ª DE

Marcelo Martins
Diário de Santa Maria


Discreto e um exímio estrategista. Assim os colegas de farda definem o general Mauro Sinott Lopes. É ele quem comanda a 3ª Divisão de Exército (3ª DE) que abrange 57 unidades - sendo 21 delas em Santa Maria - e que conta, ao todo, com 21 mil militares. Na iminência de completar 60 anos, ele contabiliza 42 deles de serviços no Exército. Nascido em Pelotas, Sinott é rodado.

O militar contabiliza vivências e experiências em operações dentro do país e no Exterior. Seus pares o colocam na condição de um dos quadros mais técnicos e qualificados das Forças Armadas. Em julho de 2017, quando foi decretada a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Sinott assumiu o comando operacional das tropas no Rio e foi braço direito do também general Braga Netto, interventor federal no Rio.

Nada ao acaso. Pelo contrário, o gaúcho, em 2014, foi quem operou e esteve à frente de tropas em comunidades, como o Complexo da Maré. A dupla também chefiou, em 2016, o Comando Conjunto de Prevenção e Combate ao Terrorismo. Capacitado e altamente estudado, entre tantas outras formações, um dos cursos que mais o orgulha é o de Forças Especiais, a tropa de elite do Exército.

Sinott conversou com o Diário, na última terça-feira, por 45 minutos e falou sobre a Operação Acolhida que, desde 2018, atua em Roraima em decorrência da crise humanitária na Venezuela.

A 3ª DE levou 501 militares ao norte do país, 135 deles de Santa Maria. Também fala da intervenção no Rio, os militares no governo Bolsonaro e a Amazônia. Confira, abaixo, a íntegra da entrevista:

Diário de Santa Maria - Qual avaliação que o senhor faz da participação do Exército na Operação Acolhida?
Mauro Sinott Lopes - Tivemos um fluxo migratório descontrolado em função de uma crise extrema na Venezuela. Aí, eles (venezuelanos) vieram para Roraima tanto em Pacaraima quanto para Boa Vista. Aí, esses municípios já não tinham mais condições de manter serviços essenciais, como saúde, segurança e educação, que eram demandas reprimidas para atender aquelas pessoas. Por meio de decretos, do governo federal, coube ao Ministério da Defesa estar à frente da Operação Acolhida e, de forma bem resumida, resgatar a dignidade das pessoas. Organizamos os esforços de uma série de ministérios e de organizações em torno de um ordenamento da fronteira. Isso nada mais é a organização do fluxo de chegada dessas pessoas com identificação, atendimento de suas necessidades básicas e, claro, o abrigamento delas.   

Diário - Quais os cenários e situações mais corriqueiros que se percebe na operação?
Sinott - Crianças mal alimentadas, pessoas sem identidade e, muitas vezes, sem alimentação. Sem qualquer dinheiro no bolso. São inúmeros problemas que se fazem presentes. Uma triste realidade de um povo devastado. 

Diário - O que a crise na Venezuela oferece de exemplo à América Latina e, claro, à própria Operação Acolhida? 
Sinott - É um grande ensinamento e um exemplo para o mundo (a Operação Acolhida). O que se vê hoje no cenário internacional são países se negando a receber imigrantes. E, aqui, nós estamos fazendo o contrário. Basta lembrar o papel do Brasil durante a 2ª Guerra Mundial. Nós cruzamos o Atlântico e libertamos várias cidades italianas das garras do nazismo. Até hoje essas pessoas e suas gerações são gratas ao Brasil. O saldo dessa operação, de agora, é o da gratidão. Somos um povo amigável e acolhedor. Não somos xenófobos. Enquanto for necessário, estaremos lá (Roraima).

 

Diário - O senhor também teve papel importante durante a intervenção federal no Rio. O que ficou de aprendizado? 
Sinott - Em 2017, entramos em missão de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), o que é uma missão prevista na Constituição. E em caso de esgotamento total ou parcial dos órgãos responsáveis pela segurança pública, nós podemos contribuir nesse esforço de garantir a paz social. Todo ano, nos preparamos para essa missão, que é a GLO. O Exército passa o ano inteiro capacitado e pronto para atuar em qualquer ponto do território.   

Diário - Falando em crise, o Exército também tem sido atingido pelos cortes do governo. Aqui em Santa Maria, qual o impacto dessas medidas de contingenciamento?
Sinott - Neste momento, não sentimos ainda na ponta da linha o impacto disso (cortes) efetivamente. Por enquanto, não há impacto na instrução militar. O que observamos, com a proximidade do fim do ano, é que as operações previstas poderão ter alguma restrição. Até porque os grandes exercícios ocorrem em Saicã e não, aqui, no campo de instrução em Santa Maria. Aí, então, existe uma dificuldade. Mas é possível, uma saída, seria nos valermos dos jogos de guerra. Já que eu não consigo levar a OM (organização militar) para lá (Saicã), eu levo parte desse pessoal para o Centro de Simulação e jogamos no sistema operacional o que faríamos no campo. Ou seja, eu o faço de maneira virtual. E não há previsão de dispensa de recrutas.

Diário - Qual a sua avaliação da participação de militares no governo Bolsonaro?
Sinott - Temos quadros qualificados e com experiência e que, hoje, estão na reserva. Vide, por exemplo, o Ministério da Infraestrutura. Ali, temos a experiência e a vivência de colegas que trabalharam em áreas remotas. Sem dizer do nível técnico elevado e uma extrema capacidade de superar dificuldades. Certamente que eles (militares) estão agregando. 

Diário - Recentemente, temos visto uma briga de versões e de embates do presidente com líderes europeus acerca da Amazônia. Qual a avaliação do senhor sobre esses fatos?
Sinott - O Brasil não aceita, sob hipótese alguma, relativizar a soberania da Amazônia. Não é o Estado ou o Exército que não aceitam isso, é o Brasil, a nação. Estamos na Amazônia desde a época que a União Ibérica favoreceu o avanço na linha das Tordesilhas e, por isso, historicamente, ela (Amazônia) é nossa desde aquela época. Sendo que, naquela época, já expulsamos os invasores: holandeses, os corsários ingleses e franceses. Importante dizer que, no âmbito do pacto dos países amazônicos, que tem 40 anos, nunca se discutiu de se relativizar a soberania. Não precisamos que alguém de fora para nos dizer como cuidar dos nossos recursos naturais. O Brasil é o país com a melhor legislação ambiental e que a coloca em prática e que a fiscaliza. O Brasil cuida do Brasil. Não queiram relativizar nossa soberania. Há interesse e muita cobiça do estrangeiro pelos nossos recursos naturais. Nossa principal função é a defesa da soberania brasileira e territorial e os recursos da Amazônia pertencem somente aos brasileiros.


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