03 de Junho, 2014 - 12:05 ( Brasília )

Geopolítica

"Acordo entre EUA e Talibã é avanço para paz no Afeganistão", diz analista

Em entrevista à DW, especialista diz que chances de negociações de paz no país aumentaram após Washington aceitar transferir para o Catar cinco talibãs presos em Guantánamo, em troca da libertação de soldado americano.

Ex-correspondente do Wall Street Journal em Cabul, o especialista em Afeganistão Anand Gopal trabalha como pesquisador do instituto americano New America Foundation. Em entrevista à Deutsche Welle, ele afirma que as chances de paz no Afeganistão aumentaram após o governo dos EUA ter aceitado transferir para o Catar cinco talibãs presos em Guantánamo, em troca da libertação de um soldado americano. Gopal acredita que a medida ajuda a ganhar a confiança dos talibãs e prepara o caminho para possíveis negociações de paz.

DW: O secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, disse durante viagem ao Afeganistão no domingo que a libertação do soldado americano Bowe Bergdahl foi o destaque de sua gestão. Por que essa troca de prisioneiros é tão importante para Hagel e para o presidente Barack Obama?

Anand Gopal:Bergdahl é o único prisioneiro de guerra nos 13 anos de conflito no Afeganistão. Foi um dos últimos problemas remanescentes na área militar que tinham que ser resolvidos. Os EUA têm o princípio de não deixar nenhum soldado para trás. De um modo mais geral, podemos considerar a medida também como uma tentativa de construção de confiança, visando possíveis negociações de paz com os talibãs. Eles já vinham exigindo há alguns anos uma troca de prisioneiros, os cinco prisioneiros de Guantánamo pela libertação de Bergdahl. Podemos considerar isso um avanço, que melhora as chances de negociações de paz.

A decisão de libertar os cinco altos membros do Talibã provocou duras críticas dos republicanos. O senador John McCain descreveu-os como terroristas cruéis e violentos. O senhor acha que a decisão afeta a segurança nacional dos EUA?

Não, eu não acredito. Esses cinco talibãs vão para o Catar. A história dos cinco é interessante. Todos tentaram se render e mudar de lado antes de serem capturados. Um dos detentos de Guantánamo, inclusive, faz parte da mesma tribo do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. Ele queria se aliar ao governo afegão, mas o Paquistão o prendeu e o transferiu para os EUA, que os enviaram a Guantánamo. Outro foi membro do governo afegão era um ex-oficial do Talibã e se juntou ao governo Karzai. Mas foi preso, devido a informações incorretas prestadas pelos senhores da guerra, e levado para Guantánamo. Essas pessoas não são perigosas. Mas podem realmente contribuir para aumentar as chances de um possível acordo negociado.
 

O governo do Catar tem servido como intermediário entre os EUA e os talibãs. Depois disso, os EUA ainda podem afirmar que não negociam com terroristas?

Os talibãs não são classificados como uma organização terrorista. Eles foram chamados de uma organização terrorista pelos EUA. Alguns membros individuais do Talibã estão na lista negra das Nações Unidas. Mas, enquanto um grupo, os talibãs não são uma organização terrorista.

Os republicanos acusaram Obama de ter violado a lei, por não ter respeitado o prazo de 30 dias de antecedência exigido para notificação ao Congresso antes da transferência de prisioneiros de Guantánamo para o Catar. Como o senhor vê isso?

Talvez isso venha a se transformar em um escândalo político em Washington, não na medida do de Benghazi (sobre informações de que a Casa Branca sabia do atentado ao consulado americano na cidade), mas em menor magnitude.

O senhor acha que a negociação com o Talibã vai abrir as portas para novas negociações?

Sim. Podemos considerá-la uma medida para ganhar confiança. Ambos os lados podem atender ao outro com algo relativamente fácil de se conceder. Assim, pode ser criada confiança para finalmente serem retomadas as negociações que estão paralisadas há dois anos.

Os EUA devem participar do processo de reconciliação dos afegãos ou devem ficar fora dele?

Os talibãs afirmaram que não estão interessados ?e?m negociar exclusivamente com o governo afegão. Eles reconheceram que os EUA são os verdadeiros interlocutores neste conflito e que as conversas somente com o governo em Cabul não são eficientes. Mas o Paquistão também deve ser envolvido. Assim como o governo em Cabul é um representante dos EUA, os talibãs são representantes dos paquistaneses.