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12 de Maio, 2015 - 16:00 ( Brasília )

ÁUDIO - DefesaNet entrevista Vicente Ferraz, diretor de “A Estrada 47”

Evidente que esse filme é uma homenagem aos pracinhas, mas também ao povo brasileiro”, diz o diretor Vicente Ferraz.




Nicholle Murmel


Na última sexta-feira (08) eu tive o prazer de entrevistar Vicente Ferraz, diretor de “A Estrada 47”, conhecido durante muito tempo como “A Montanha”, o tão esperado filme brasileiro sobre a atuação dos pracinhas da FEB junto às forças americanas durante a Segunda Guerra Mundial. Desde o ano passado, a produtora do longa, Isabel Martinez, da Primo Filmes, veio mediando esse contato. E a coincidência da estreia do filme com a celebração do Dia da Vitória na Europa só reforça a importância dessa obra como peça para inaugurar o imaginário do público brasileiro sobre um pedaço desconhecido da História recente do país.

Mas logo de início, estabelecemos que não se tratava de um filme de guerra. E foi esse o tom ao longo de toda a conversa. “Evidente que esse filme é uma homenagem aos pracinhas, mas também ao povo brasileiro”, diz o diretor.

Ao comentar a pesquisa e o começo da materialização do projeto, Vicente relata um contraste gritante: por um lado a ignorância geral dos cineastas em Roma acerca da passagem da FEB pela Itália, e ele ilustra esse desconhecimento com a história de como o ator alemão Richard Sammel, que interpreta o coronel Mayer, foi escalado para o longa – já veteraníssimo em dar vida a militares alemães em filmes como “Bastardos Inglórios”, que Quentin Tarantino, o ator recusou educadamente o papel até o diretor argumentar “mas nesse filme você será capturado por uma patrulha brasileira”. A surpresa e curiosidade do alemão diante da novidade histórica o levaram a ler o roteiro e embarcar no projeto.

Por outro lado, Vicente conta emocionado sobre ter contato com a memória vívida e a gratidão profunda das populações das pequenas cidades próximas a Monte Castelo, onde cidadãos hoje idosos ainda se recordam, e o carinho pelos pracinhas está enraizado na vida local: “quando [eu e a Isabel] chegamos a Gaggio Montano [no sopé de Monte Castelo], todo mundo estava esperando, as crianças, os velhos. Eles comemoravam. São os brasileiros! O pessoal do filme! Finalmente vão fazer o filme!”, conta.

E é nesse universo menor, de cidades com no máximo 1 mil habitantes, que o diretor propõe seu recorte microscópico que une um grupo de brasileiros, o soldado italiano Roberto (Sergio Rubini) e um oficial alemão exausto, ambos desertores. E nesse encontro provável, mas inusitado, é que surge o diferencial da narrativa de A Estrada 47, a ponto de não ser mais um filme de guerra, mas um drama sobre pessoas. Experiências humanas típicas do combate, como medo, solidão, ansiedade e trauma aparecem de forma honesta, afinal, estão todos no limite – todos só querem voltar para casa.

E o mais importante – surge a oportunidade de fazer, através de Guima (Daniel de Oliveira), Piauí(Francisco Gaspar), Laurindo (Thogun Teixeira), Tenente (Júlio Andrade) e do jornalista Rui (o ator português Ivo Canelas), um elogio ao “ser brasileiro” – a valores muito nossos que ajudaram os 25 mil combatentes a superar o despreparo, a distância de casa e o pior inverno europeu do século 20. “A FEB não foi um contingente de ocupação. Os relatos contam que foi uma tropa que alimentou populações por onde esteve, que trouxe um pouco de proteção e algum alento para aquelas pessoas”, explica o diretor. “Acho que o filme mostra um pouco disso do brasileiro, do perdão, da picardia e do sentimento que aflora”, completa.

Ao ser perguntado sobre se há alguma mensagem em particular no longa, Vicente não é pretensioso. “Durante muitos anos, esse foi o meu filme, que eu escrevi, dirigi e montei, mas desde ontem (07), ele não me pertence mais. Pertence aos que estão vendo”, diz. Mas ainda assim, ele propõe a quem for ao cinema nos próximos dias um olhar humanizado e mesmo politizado sobre o que a FEB representou e o legado desses combatentes: “Duas coisas me levaram a contar essa história: primeiro, ela não pertence só ao Exército Brasileiro, mas ao povo brasileiro. Segundo, os pracinhas lutaram contra o fascismo e pela democracia. E são justamente esses valores antifascistas e democráticos que eu gostaria que o filme reafirmasse aos espectadores”.

Sobre o filme:

A Estrada 47

Direção:Vicente Ferraz

Duração: 1h 46min

Elenco: Daniel de Oliveira, Francisco Gaspar, Júlio Andrade, Ivo Canelas, Sergio Rubini, Thogun Teixeira, Richard Sammel

Ano de produção: 2013

Produção: Três Mundos Produções, Primo Filmes, Verdeoro

Distribuição: EUROPA Filmes