COBERTURA ESPECIAL - DQBRN - Geopolítica

02 de Março, 2020 - 12:20 ( Brasília )

Como epidemia de coronavírus pode ter efeito positivo no meio ambiente


O alívio provavelmente será momentâneo, e sua causa é uma má notícia. Mas uma das consequências inesperadas do surto do novo coronavírus foi o ar mais limpo e a redução das emissões de gases que contribuem para as mudanças climáticas.

O fechamento de fábricas e lojas na China, ao lado das restrições de viagens para lidar com a epidemia da covid-19, resultaram em um declínio substancial no consumo de combustíveis fósseis no país asiático.

Esse processo produziu uma queda de pelo menos 25% na emissões de dióxido de carbono (CO?) da China, segundo cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea), com sede nos Estados Unidos.

"A demanda por eletricidade e produção industrial (da China) permanece bem abaixo dos níveis normais, segundo vários indicadores", disse Myllyvirta em uma análise publicada no portal especializado Carbon Brief, no fim de fevereiro.

"É provável que isso tenha eliminado um quarto ou mais das emissões de CO? do país nas duas semanas seguintes ao feriado do Ano Novo chinês, período em que a atividade normalmente seria retomada", disse o especialista.

E, por enquanto, a tendência permaneceu: Myllyvirta estima que, nas últimas três semanas, a China emitiu 150 milhões de toneladas métricas (mtm) de CO? a menos que no mesmo período do ano passado.

Para se ter uma ideia, 150 toneladas métricas equivale a mais ou menos a todo o dióxido de carbono que a cidade de Nova York emite em um ano.

E uma redução de 25% nas emissões da China é equivalente a uma redução global de 6%.

Embora, para Myllyvirta, "a questão principal seja se os impactos serão sustentados ou se serão compensados ??ou mesmo revertidos pela resposta do governo chinês à crise".

Alívio temporário?

Para permitir um retorno mais rápido às fábricas localizadas nas áreas menos afetadas, autoridades chinesas organizaram aviões, trens e ônibus especiais.

Além disso, medidas destinadas a estimular a economia podem acabar por reverter a baixa no consumo de combustíveis fósseis e, portanto, empurrar as emissões acima das médias históricas, como aconteceu após a crise financeira global e a recessão econômica de 2015.

"A mudança nas emissões de CO? não é permanente. E, no plano geral, não será visível em nossas emissões totais", diz Joeri Rogelj, especialista em mudanças climáticas e meio ambiente da universidade Imperial College, de Londres.

Mas Dominic Moran, professor de economia agrícola e de recursos da Universidade de Edimburgo, na Escócia, está mais otimista.

"Alguns dirão que uma demanda acumulada por mercadorias levará a um desperdício mais tarde", disse ele ao jornal britânico The Independent. "Mas 20% da economia mundial está sendo afetada. Um em cada cinco voos pelo mundo está sendo cancelado. E as coisas não serão as mesmas novamente", disse Rogelj.

A chave para isso seria uma possível mudança de comportamento dos consumidores, na China e no mundo, como resultado do impacto econômico da crise ou do aumento da conscientização pelos danos das emissões.

"Qualquer impacto no uso de combustíveis fósseis viria de uma menor demanda", explicou Myllyvirta.

"Se a demanda do consumidor for reduzida, por exemplo, devido a salários não pagos durante a crise, a produção industrial e o uso de combustíveis fósseis podem não se recuperar, mesmo se houver capacidade", exemplificou o analista do Crea.

E Moran acredita que a crise também tem o potencial de mudar o comportamento e os hábitos de consumo das pessoas a longo prazo, por exemplo, fazendo-as pensar duas vezes antes de embarcar em uma longa jornada que poderia terminar em quarentena.

Se isso não acontecer, no entanto, a redução de emissões de CO? devido ao coronavírus dependerá principalmente da extensão e da duração da crise.

"Reduzir o consumo de energia e as emissões da China em 25% por duas semanas apenas reduz os números anuais em aproximadamente 1%", lembrou Myllyvirta.

Porém, se a crise se espalhar ou acabar paralisando setores importantes de outros países, a redução de emissões pode acabar sendo realmente significativa para os volumes anuais.

Coronavírus: Quais as chances de morrer por causa da covid-19


Cientistas estimam hoje que a cada mil casos do novo coronavírus, entre cinco e 40 resultarão em morte — ou mais precisamente, nove em mil ou cerca de 1%.

No domingo (1/03), o secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, afirmou que o governo estimava que a taxa de mortalidade girava "em torno de 2%, ou menos".

Mas isso depende de uma série de fatores, como idade, gênero, condições de saúde e o sistema de saúde no qual você está inserido.

É difícil estimar a taxa de mortalidade?

É um nível de dificuldade de doutorado para cima. Até mesmo contar o número de casos é complicado.

A maioria dos infectados por grande parte dos vírus passará incólume, porque as pessoas tendem a não ir ao médico quando os sintomas são leves.

No surto atual, as diferentes taxas de mortalidade que são divulgadas pelos países ao redor do mundo dificilmente indicam que o vírus sofreu mutações.

Segundo uma pesquisa da universidade Imperial College, de Londres, isso acontece porque cada país enfrenta dificuldades maiores ou menores para contar os casos brandos, que são mais difíceis de serem contados.

Dessa forma, os casos que ficam fora do radar resultam facilmente em uma taxa de mortalidade superestimada. Mas isso também pode gerar outros problemas.

Leva tempo até que uma infecção resulte em recuperação ou morte.

Se você incluir todos os casos que ainda não tiveram um desfecho, você pode subestimar a taxa de mortalidade porque não está considerando os casos que acabarão em morte mais adiante.

Cientistas então combinam diversos fragmentos de evidências para cada uma dessas questões a fim de tentar construir um quadro geral da taxa de mortalidade.

Por exemplo, eles estimam a proporção de casos com sintomas leves de pequenos grupos de pessoas selecionados que eles estão monitorando, como os repatriados que saíram da China em direção a seus países de origem.

Mas diferentes respostas obtidas nesses fragmentos de evidências podem levar a grandes variações no quadro geral.

Se forem levados em conta só dados da província chinesa de Hubei, onde a taxa de mortalidade tem sido muito maior do que em qualquer lugar da China, então essa taxa vai parecer muito pior.

Assim, os pesquisadores estimam tanto uma faixa de variação quando o número mais provável.

Mas nem isso conta a história completa, porque não há apenas uma taxa de mortalidade.

Quais são os riscos para pessoas como eu?

Alguns grupos de pessoas são mais suscetíveis a morrerem se contraírem o novo coronavírus: idosos, aqueles que já têm doenças pré-existentes e, talvez, os homens.

Na primeira grande análise de mais de 44 mil casos na China, a taxa de mortalidade de idosos foi dez vezes mais alta do que entre aqueles de meia idade.



A taxa de mortalidade era ainda mais baixa entre quem tem menos de 30 anos — foram oito mortes entre 4.500 casos.

 

E as mortes eram cinco vezes mais comuns entre as pessoas que tinham diabetes, pressão alta ou doenças cardiovasculares ou respiratórias.

Há também um número levemente mais alto de mortes entre os homens, em comparação às mulheres.

Todos esses fatores influenciam uns aos outros e não temos ainda uma estimativa completa e precisa de cada grupo de pessoas em cada região.

Qual é o risco para as pessoas no lugar onde moro?

Um grupo de homens de 80 anos ou mais na China pode enfrentar riscos muito diferentes de homens da mesma faixa etária na Europa ou na África.

Os prognósticos também dependem do tratamento que eles obtêm.

Outro ponto é que isso varia também em relação ao estágio do surto no país.

Se um surto se instala, o sistema de saúde pública pode ser inundado de casos, e em qualquer país só há poucas unidades de terapia intensiva ou com ventilação mecânica disponíveis.

O novo coronavírus é mais perigoso que a gripe?

Não é possível comparar com propriedade as taxas de mortalidade dessas doenças, porque muitas pessoas com sintomas leves optam por não ir ao médico (ou são orientadas a isso).

Então, não é possível precisar quantos casos há de gripe, ou de qualquer outro vírus, a cada ano. Há estimativas.

Mas a gripe continua a matar pessoas no Reino Unido, como faz todo inverno.

Com a evolução dos dados, os cientistas são capazes de desenvolver um quadro mais preciso de quem está sob risco maior quando o surto de coronavírus se instala no país.

De todo modo, a principal recomendação da Organização Mundial da Saúde para se proteger de todos os vírus respiratórios é lançar mão de medidas como: lavar as mãos, evitar se aproximar de quem estiver tossindo ou espirrando e tentar não tocar seus olhos, nariz e boca, além de manter hábitos saudáveis.


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