COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

25 de Outubro, 2016 - 10:30 ( Brasília )

Centro de Instrução de Blindados (CIBld) e os próximos 20 anos?


Ádamo Luiz Colombo da Silveira - Ten Cel Cav


Resumo

No momento em que o Centro de Instrução de Blindados (CIBld) chega aos seus 20 anos, são necessárias reflexões acerca do futuro. Depois de acompanhar artigos de antigos instrutores, eivados de emotividade, cabe apresentar novas convicções.

Os ambientes em que as forças terrestres estão inseridas é difuso e leva a uma natural discussão sobre como deve ser a composição de suas tropas. O que se tem visto é que nenhuma potência, seja a hegemônica, sejam as regionais, deixou de lado suas tropas blindadas, em especial os carros de combate.

Como o CI Bld é um estabelecimento de ensino por excelência, a capacitação de recursos humanos necessária a mobiliar tropas que se caracterizam pela modernidade de seus meios é sempre um desafio.

A velocidade das mudanças faz com que essa capacitação sofra diretamente os impactos dos avanços tecnológicos, demandando modificações que fazem parecer que se está sempre com envelhecimento precoce.

O foco na dimensão humana e sua constante preparação leva a construção de um modelo a ser atingido a longo prazo, porque todas as mudanças no Exército são lentas. No final, uma trilha é mostrada, para dar direção a evolução que segue lento o caminho do que melhor se deseja para o Brasil e o seu povo.

INTRODUÇÃO

Depois de acompanhar o trabalho árduo de criação do Centro de Instrução de Blindados (CIBld) relatado por participantes de diferentes fases de sua história, chega o momento de uma reflexão acerca do seu futuro.

Vinte anos deram uma ideia onde é possível chegar com pessoas comprometidas e com forte ideal. “Somos porque queremos ser”, assim foi que gerações de instrutores e monitores alicerçou uma vontade maior do que os meios que lhe eram proporcionados, ou o que de melhor se espera para o Exército.

Em meio a uma sempre presente discussão acerca do rumo do futuro que a Força Terrestre (F Ter) deve tomar, e se ainda é necessário continuar empregando carros de combate, é importante parar e olhar para o futuro. Se foi por meio de fortes convicções que se chegou até este ponto, é o momento de apresentar aquelas que começam a mover a atual geração em direção a patamares mais elevados. É um exercício de construção de novas convicções, certo de que assim pode-se atingir, aos poucos, uma nova realidade.

DESENVOLVIMENTO

Uma força forte para um país forte

Mesmo na vanguarda da utilização das viaturas blindadas (VB) na América do Sul, o presente em que o estado da arte habita ainda parece longe. Uma marcha incessante em direção ao que é ideal anima gerações de integrantes, desconsiderando o cansaço, o trabalho árduo, e muitas pequenas frustrações que, se somadas, poderiam até sequer, mudar-lhes a ideia. Isso não é suficiente para homens que trazem consigo traços do pioneirismo do começo do século XX.

Com exemplos como José Pessoa ou Paiva Chaves, qualquer um encontra forças para buscar algo que vai além do que está acostumado a ver todos os dias. Sim, o Homem está sempre perseguindo algo que por vezes lhe parece intangível. Uma obra. Algo que possa perpetuar sua perspectiva sobre a realidade. Sob a perspectiva de um militar, a maior obra que pode ficar para a posteridade é um país forte. Pois não há país forte neste mundo que não esteja alicerçado em uma grande força blindada!

Velocidade das mudanças

A realidade que hoje se encontra é a de incertezas. Cenários difusos, adversários improváveis, conexões complicadas a partir de uma política de relações por vezes inverossímeis são constantes num mundo que está muito longe das pretensas distopias visualizadas no meio da Guerra Fria. Na verdade, tende a um pandemônio.

A tradicional formação acadêmica militar vai sendo achatada fruto da necessidade de aumento sucessivo da grade curricular. A cada nova situação visualizada no combate moderno, mais um assunto se soma ao perfil profissiográfico do militar contemporâneo.

De todas as demandas atuais, uma que nunca sai da pauta das preocupações dos estrategistas e planejadores é a necessidade de manutenção da vanguarda na inovação. A cada dia que passa novos aplicativos, opcionais, periféricos e equipamentos são criados. A surpresa tecnológica e a defesa contra ela são buscas incessantes no campo militar.

Sobram exemplos: sistemas de proteção ativas (SPA) são apontados como a grande novidade na proteção de veículos blindados para pouco tempo depois serem alvos fáceis para lançadores múltiplos de misseis, criados para acionar os SPA com o primeiro item lançado e atingir o alvo com o segundo, ambos controlados do mesmo console.

A “Era do Conhecimento” é marcante em suas características. A principal delas é a volatilidade do seu principal “recurso” e que lhe dá nome: conhecimento. As tecnologias e inovações anteriormente citadas representam mais de 60% do valor de um produto.

Ou seja, o conhecimento que está inserido em determinado artigo, material ou Produto de Defesa (PRODE) é o que há de mais valioso nele e é intangível. A rapidez com que este “recurso” vai se tornando obsoleto aumenta a cada dia. Tem sido um desafio acompanhar o compasso da modernidade, ainda mais com reduzidos meios no estado da arte.

Forças blindadas: sinônimo de modernidade

As forças blindadas brasileiras são pequenas. Dificilmente são empregadas e tendem a serem associadas apenas ao “combate convencional”, por vezes visto com incredulidade até mesmo dentro do Exército. Sendo assim, dentro da enxurrada de assuntos que a formação acadêmica tem que abordar para a formação do oficial do século XXI, os menos em uso cedem espaço para os megatrends militares do momento. Sobra para poucos a tarefa de manter o assunto atualizado.

Mas a VB é uma peça de extrema conjugação de altos agregados tecnológicos. Seu desenho, armamento, blindagem e sistemas integrados são demonstrações de onde pode chegar o conhecimento aplicado a preparação de equipamentos militares, e que ainda causam surpresa quando postos em situações de combate.

Volta-se ao ponto do país forte, obra maior do militar. Toda potência em combate nos últimos vinte e cinco anos o fez com forte componente de tropas blindadas. Não importa a hibridez da guerra, ou mesmo os cenários improváveis para veículos blindados, lá estava o alicerce das nações poderosas. Afeganistão, Iraque, Mali, Sudão, Síria, Líbano, Balcãs, Grozny, Somália: onde o carro de combate não esteve?

Centro de Instrução de Blindados

Dentre tantas possibilidades e incertezas, mantém-se em constante desenvolvimento uma organização ímpar do Exército Brasileiro: o CIBld. Suas história e características fazem com que ele seja o local onde se reúnem o passado, presente e futuro das tropas blindadas e mecanizadas da F Ter.

Crenças, valores e tradições dos “Boinas Pretas” são mantidos no CIBld. Todo o pioneirismo do emprego de blindados na América está presente no Centro. Dono de um acervo histórico invejável, que vai do Renault FT-17, primeiro blindado usado na América do Sul, até um exemplar do Main Battle Tank (MBT) Osório, o mais poderoso carro de combate do seu tempo, preserva todo o pioneirismo que marca a participação brasileira no assunto.

O presente é marcado pela presença diuturna na realidade vivida pelas brigadas blindadas e mecanizadas, e todos aqueles batalhões, regimentos e esquadrões independentes que tenha VB. Cursos e estágios fazem do CIBld a “Forja da Tropa Blindada do Brasil”.

Os alunos que findam suas temporadas de estudos em Santa Maria-RS tornam-se multiplicadores de conhecimento e passam a compartilhar o que aprenderam no Centro por meio das Seções de Instrução de Blindados (SIBld) existentes em suas Organizações Militares (OM).

Demandas prementes

O futuro é sempre difícil de se antever. De qualquer forma, olhando-se para os últimos 20 anos e toda a importância do Centro no dia a dia do Exército, pode-se, sem muito erro, nem necessidade de bola de cristal, identificar que avultará a participação no desenvolvimento esperado para os próximos 20 anos.

Vários são os eventos esperados que terão lugar na F Ter e que facilitam a visão prospectiva. Grandes projetos estão em andamento e que têm foco no incremento da mecanização e das forças médias. Os Projetos FT 2022 e 2035 englobam e dão suporte às novas mudanças, estando o primeiro em andamento e este último em fase de estudos.

Além desses, o novo Sistema Operacional Militar Terrestre (SISOMT), projeto estratégico estruturante a cargo do Comando de Operações Terrestre (COTER), impacta diretamente processos em vigor, visto que revê a atual sistemática de preparo e emprego e define um novo sistema de prontidão, onde as tropas mecanizadas e blindadas terão atuação destacada.

Ainda a curto e médio prazo, a Nova Família de Blindados Sobre Rodas (NFBR) vai consolidar sua participação na transformação da F Ter. O CIBld tem sido peça fundamental na implantação das Viaturas Blindadas de Transporte de Pessoal Média sobre Rodas (VBTP-MR) 6x6 Guarani, com ação destacada em definições quanto ao formato necessário para a capacitação de pessoal e a operação e manutenção do chassi e dos sistemas d’armas a serem empregados.

Foco na dimensão humana

A cada dia que passa, um militar mais preparado se faz necessário. Domar todas as variantes apresentadas até aqui faz com que o tempo pareça sempre insuficiente para a quantidade de conhecimentos a adquirir. O especialista passa a não ser o detentor de toda a informação sobre um assunto, mas o membro de uma equipe rica em componentes que sabem com precisão do seu setor específico.

O especialista vai sendo exigido por um ambiente opressor. Seu conhecimento está sempre no limite do que se pode ser usufruído com oportunidade. Seu aprofundamento encontra sempre traços de envelhecimento precoce e ele está sempre insatisfeito com o que tem. A tecnologia agregada faz com que o profissional tenha alto preparo.

Ao mesmo tempo, por preparar-se para atuar em um ambiente de alto risco e grande adversidade, o militar tem que treinar para usar seus equipamentos moderníssimos degradados ao extremo, e deles tirar proveito para alcançar superioridade na batalha.

Isto representa um desafio enorme para o preparo. O treinamento tem que dar condições de o combatente criar e manter competências necessárias ao que há de mais moderno e também estar preparado para lidar com situações já ultrapassadas na história, como olhar pelo tubo para apontar um canhão, dada a degradação atingida pelo armamento em uma situação de combate.

Qual o modelo para se trilhar os próximos 20 anos?

A medida que o Centro foi construindo sua história, ele veio sendo demandado constantemente por mais recursos humanos formados. A cada degrau que o Exército tem galgado para se consolidar como uma instituição moderna e forte, maior tem sido a qualidade exigida na capacitação de seus combatentes. As tropas blindadas, como detentoras de meios cada vez mais modernos, têm pressa na adequação aos novos meios recebidos.

Seja na Viatura Blindada de Combate Carro de Combate (VBCCC) Leopard 1 A5 BR, seja na VBTP-MR 6x6 Guarani, armamentos modernos são colocados nas mãos de combatentes jovens com grande responsabilidade na operação de meios letais a partir de Sistemas de Controle de Tiros (SCT) cada vez mais complicados. Por vezes, seu grau de escolaridade fica aquém do que se necessita para a operação de tais aparelhos, demandando maior atenção por parte dos instrutores.

O resultado tem sido surpreendente, com taxas de acerto superiores a 90% nos exercícios de tiro, dignas de países com melhores condições socioeconômicas que o Brasil.

Nos últimos 10 anos, desde que o CIBld chegou a Santa Maria, os três pilares que sustentam toda organização sofreram enormes incrementos. Em pessoal, os efetivos praticamente quadruplicaram. Em 2005, eram de 75 militares. Atualmente, seus quadros contam com 285 homens e mulheres dedicados.

Ainda assim, por vezes, faz-se necessário solicitar apoios externos para cursos e estágios de maior complexidade. No material, a cada novo incremento de meios de emprego militar, um novo item é agregado ao patrimônio do CIBld.

Nos últimos anos, o Centro recebeu viaturas Marruá, novas VBTP-MR Guarani e está na espera pelas recém aprovadas Viaturas Blindadas Multitarefa (VBMT) 4x4, Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M109A5+ e de viaturas M577. Além dessas, a curto prazo, a nova Viatura Blindada de Reconhecimento (VBR) 8x8, incrementará este diversificado inventário.

No entanto, o CIBld não é autossuficiente. Todo curso e estágio necessita de apoio das organizações militares próximas, causando óbices aos detentores do material que têm que repartir seus meios com um usuário que muito exige do material, visto que o leva a situações limites, para dar a melhor preparação para os alunos.

O último pilar que suporta uma organização, sua infraestrutura, também sofreu enorme modificação desde a transferência para Santa Maria. Fato que não acabou ainda. Nos últimos seis anos foram construídos três grandes pavilhões, perfazendo um total de 6564,64 m2. O mais novo prédio, que traz a rubrica do Projeto Estratégico do Exército (PEE) Guarani ainda está em andamento. Mas neste quesito, o CIBld também é dependente.

Concebido para estar nos mesmos aquartelamentos que o 1º Regimento de Carros de Combate (RCC), já começa a sentir os reflexos do aumento de cursos e atividades solicitadas ao longo do ano. As instalações compartidas não são suficientes no pico de execução de cursos e exercícios. Nestes períodos, o Centro chega a ter um acréscimo de mais de 400 militares. O rancho, estacionamento, e os acessos, ficam saturados pelo aumento de usuários.

Tudo isso, dentro de um quadro de acréscimo a curto prazo. As demandas por mais cursos são sempre crescentes. Só a VBTP-MR Guarani tem uma estimativa de inclusão de mais de mil exemplares, de várias versões, que podem chegar a quase 80 OM diferentes. “Mais cursos”, já é a solicitação generalizada. Isso sem contar que outras plataformas vão ser necessárias a médio prazo, por conta de mudanças naturais pelo fim do ciclo de vida útil daquelas em uso atualmente.

A resposta é crescimento natural

Dois pontos surgem após esta reflexão: crescimento e independência. Como ficou patente ao logo desta edição da Revista Ação de Choque, um centro de excelência se consolidou nos últimos 20 anos no seio das tropas blindadas e mecanizadas. A qualidade do ensino, da pesquisa e do apoio à instrução são realidades reconhecidas dentro do Exército, fazendo com que as oportunidades que os militares têm de frequentar os cursos e estágios do CIBld sejam disputadas e comemoradas.

Na verdade, o Centro é um polo de transformação das tropas blindadas e mecanizadas do Exército Brasileiro (EB). Os conhecimentos aqui transmitidos têm força técniconormativa. A abrangência do que é ensinado no CIBld alcança cerca de 32.000 militares, componentes de todas as OM blindadas, mecanizadas e que estão diretamente envolvidas com estas naturezas de tropas. Com o PEE Guarani, as estimativas são de aumento nesta amplitude, atingindo até 42.000 militares de todos os rincões do país.

É natural que com o incremento de suas atividades, o Centro passe por um crescimento. Há potencial para agregar mais subunidades a estrutura que já se tem, sendo uma blindada e outra mecanizada. Elas seriam responsáveis por acomodar o material e pessoal que apoiaria todos os cursos e estágios. Com essas organizações, o Centro teria a flexibilidade de proporcionar estágios emergenciais dos mais variados tipos sem desestruturar suas atividades.

Com esta nova organização, o viés tático do CIBld teria tropas dedicadas a demonstrações, figurações ou pequenas forças oponentes, quando se fizesse preciso. Além do mais, os componentes poderiam proporcionar uma retroalimentação do pessoal interno, pois certos cargos de instrutores e monitores são críticos e poderiam ser fornecidos internamente. O aumento no número de instalações não parece ter um fim próximo.

Os simuladores que vão servir para o treinamento nos cursos da família Guarani ainda não começaram a ser adquiridos, e ganharão em complexidade com a VBR 8x8. Não há espaço para acomodá-los. Da mesma forma, os cursos de manutenção de torre estão sendo levados a efeito em instalações do Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar (PqRMnt/3), ocupando locais que não pertencem ao CIBld.

Além do mais, são básicas para a identidade de uma OM certas estruturas. Corpo da Guarda, rancho, pátio de formaturas são difíceis de ser compartilhados.

A independência que se deseja não vai de encontro às modernas práticas de gestão, mas sim concorrem positivamente para as naturais práticas de liderança. Faz-se necessária a confecção de um Plano Diretor que contemple todas as ideias aqui expostas, para que os futuros comandantes não tenham sempre que iniciar processos já estudados anteriormente, e que não dependam de militares que sejam o arquivo das ideias anteriores.

CONCLUSÃO

Todas estas mudanças impactam se observadas pela ótica da ansiedade de estar sempre resolvendo problemas com prazos muito curtos. Mas tudo o que foi levantado é para “os próximos 20 Anos”. O CIBld é apresentado como um centro de excelência, ilha de modernidade ou polo de transformação.

Sua influência crescente no EB acontece por vários motivos, seja pela qualidade dos seus quadros ou de seus produtos, seja pela implementação de programas que são concorrentes com o conhecimento que o Centro propicia a todo Exército, seja porque a velocidade das mudanças encontra seus instrutores e monitores preparados para lidar com elas, comprometidos com um de seus lemas: “Não Espere, Faça”.

A curto, médio e longo prazo, o CIBld continuará presente na construção da grande obra do país forte, baseado nas forças blindadas e sua modernidade, fazendo face a todas as demandas prementes que lhe forem apresentadas, mas sempre com foco na dimensão humana. O “Boina Preta” forjado no CIBld fará parte do novo patamar que a transformação em curso vem a conduzir o EB, esteio de um país potente composto por uma nação maravilhosa.


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