COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Geopolítica

12 de Agosto, 2019 - 10:45 ( Brasília )

Rússia pede que Google não promova eventos “ilegais” após protestos eleitorais

Sociedade civil desafia o Kremlin

A agência reguladora de comunicações da Rússia pediu neste domingo que o Google pare de promover “grandes eventos ilegais” em sua plataforma de vídeo, o YouTube. Dezenas de milhares de russos organizaram no sábado o que observadores classificaram como o maior protesto político do país em oito anos, desafiando a repressão para pedir eleições livres para o Legislativo municipal de Moscou.

Vários canais transmitiram o evento ao vivo pelo YouTube. A agência reguladora, Roscomnadzor, disse que algumas entidades estavam comprando anúncios no YouTube, como notificações push, para difundir informações sobre protestos ilegais, incluindo aqueles que visavam desorganizar as eleições.

A agência disse que se o Google não atender o pedido, a Rússia considerará a atitude uma “interferência em seus assuntos soberanos”, além de “influência hostil (sobre) e obstrução de eleições democráticas na Rússia.”

Se a companhia não adotar medidas para impedir que estes eventos sejam promovidos em suas plataformas, a Rússia se reserva ao direito de responder apropriadamente, disse a Roscomnadzor, sem dar detalhes.

Ao longo dos últimos cinco anos, a Rússia criou leis mais rigorosas, exigindo que mecanismos de busca apaguem alguns resultados de pesquisas, serviços de mensagens compartilhem chaves de criptografia com serviços de segurança e redes sociais armazenem os dados pessoais de cidadãos russos em servidores dentro do país. 

Um porta-voz do Google na Rússia não quis comentar o assunto neste domingo.

Milhares desafiam repressão, no maior protesto em Moscou em anos

Dezenas de milhares de russos realizaram neste sábado o que um grupo de monitoramento chamou de maior protesto político em oito anos, desafiando a repressão para exigir eleições livres para a legislatura municipal de Moscou.

A polícia deteve dezenas de pessoas depois da manifestação em Moscou e em outro protesto em São Petersburgo, e deteve uma líder da oposição antes deles começarem.

Mas a resposta das autoridades foi mais branda do que na semana anterior, quando mais de 1.000 manifestantes foram detidos, algumas vezes, de forma violenta. O grupo de monitoramento White Counter disse que 60.000 pessoas compareceram ao protesto de Moscou, descrevendo-o como o maior na Rússia em oito anos.

A polícia calculou o total de manifestantes em 20.000. Um mês de protestos sobre eleições para a legislatura municipal de Moscou tornaram-se no maior movimento sustentado de protesto na Rússia desde 2011-2013, quando manifestantes foram às ruas contra a percepção de fraude eleitoral.

Multidões no protesto em Moscou gritavam “abaixo o czar!” e balançavam bandeiras russas. Exigiam que candidatos de oposição possam concorrer à eleição municipal no próximo mês, após não terem podido integrar o pleito. “As autoridades estão descaradas. É a hora de defender nossos direitos”, disse Natalya Plokhova, uma consultora de recrutamento.

Sociedade civil desafia o Kremlin


 Eles não se deixam intimidar, não por ameaças, não por bastões da polícia, não por prisões. Dezenas de milhares compareceram à manifestação no centro de Moscou neste sábado (10/08) e exigiram eleições locais justas, liberdade para os presos políticos e a renúncia do presidente Vladimir Putin. Foi a maior manifestação em anos – no meio do período de férias, quando muitos russos passam seu tempo livre em sua dacha. A sociedade civil russa desafia o Kremlin.

Superficialmente, trata-se de eleições locais comparativamente insignificantes. Na realidade, há uma grande insatisfação com toda a liderança estatal. Isso também é comprovado por pesquisas, que apontam que a confiança no chefe de Estado atingiu uma baixa histórica.

Por muitas razões: a economia está estagnada, os preços sobem, a corrupção atingiu proporções alarmantes, a reforma da Previdência irrita milhões de pessoas. Mais e mais russos estão insatisfeitos – mas o governo se recusa a aceitar uma alternativa política. Nem mesmo em nível local.

Isso leva dezenas de milhares de pessoas para a rua. Elas são destemidas. E isso assusta o poder, que reage de forma desesperada. Reiteradamente, o presidente e o primeiro-ministro prometem melhorias, mais dinheiro, salários mais altos. Na realidade, no entanto, o padrão de vida dos russos vem caindo há cinco anos. Todo mundo sabe disso, eles sentem isso em seus bolsos.

No final, o que está em jogo é mais do que apenas bens materiais. Muitos russos comuns se sentem deixados para trás, não mais compreendidos, não mais percebidos ou até mesmo não mais representados pelo governo. Isso também ficou claro na manifestação.

Ela aconteceu num trecho de rua isolada por prédios de escritórios e forças de segurança, longe dos edifícios governamentais, longe da vida vibrante do centro. Por isso, uma parcela dos manifestantes marchou, após a parte oficial dos protestos, em  direção à administração presidencial no centro da cidade. Lá, eles foram abordados por centenas de forças de segurança, que prenderam muitos daqueles que protestavam.

Entre os manifestantes estavam muitos jovens de mentalidade liberal que querem mais liberdade e democracia no estilo ocidental; mas também moscovitas mais velhos. Eles carregavam bandeiras comunistas. Eles ainda choram de nostalgia pela era soviética, quando – segundo a sensação deles – o Estado cuidava dos interesses da população.

Antigos comunistas ou jovens democratas – ambos estão ligados pela certeza de não serem mais levados a sério por esse governo.

Quanto mais tempo o presidente Putin continuar no cargo, maior será a distância entre o governo e os governados. O Kremlin usará cada vez mais policiais, controlará cada vez mais a imprensa e perseguirá cada vez mais os dissidentes para permanecer no poder. 


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