COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Inteligência

31 de Agosto, 2016 - 12:00 ( Brasília )

Redes sociais: um olhar a partir da perspectiva da inteligência e das Forças Especiais

O estudo das redes sociais como elemento de análise fundamental para qualquer analista de inteligência e elementos operacionais das Forças Especiais pode ser baseado no estudo analítico da interação das redes sociais.

 English version

Augusto Álvarez Torres
General R1 Exército do Peru

 

Redes sociais e inteligência

Quando falamos de análise de redes sociais, na comunidade analítica de inteligência, nas Forças Especiais e na comunidade acadêmica, a maioria relaciona essas análises com a intromissão e a violação da intimidade nas redes sociais, ou seja, remexer no Twitter, no Facebook, etc., para buscar algo que possa produzir um escândalo ou ridicularizar alguém, em alguns casos fazendo chantagens ou manipulações.

A análise das redes sociais procura descrever o mapeamento e a medição das relações e dos atributos entre pessoas, grupos, organizações, instituições ou outras entidades de processamento de informações/conhecimento (Valdis Drebs, 2001).

Podemos dizer que a análise das redes sociais é um método lógico, sistemático e ordenado para visualizar uma pessoa, pessoas, organizações, instituições, etc., denominados nós, e seu poder de conexão, que é útil para que as organizações identifiquem a melhor forma de interagir para compartilhar ideias, conhecimento, ações, relações, atributos (I), permitindo reconhecer as relações entre os nós para capturá-las em um mapa que facilite na identificação do fluxo do conhecimento: de quem se colhem as informações e o conhecimento?, com quem se compartilha ou quem conhece quem? Diferentemente dos organogramas que mostram apenas as relações formais: quem trabalha onde? E quem é subordinado a quem?

A análise das redes

O que é análise de redes sociais? Antes de tentar obter uma resposta, é necessário diferenciar redes sociais de meios sociais:

  1. Rede social: é o conjunto de entidades relacionadas entre si. Isto se dá por relações (comunicações, afinidade, colaboração, amizade, operações, afiliação, etc.) e atributos, (status, nacionalidade, nível de educação, nível da organização, liderança, filiação, requisitos, etc.). Podem ser redes de modo um: instituições com instituições, pessoas com pessoa, etc., e redes de modo dois: pessoas com instituições, instituições com organizações, etc. Também podem ser redes simétricas e assimétricas (II). A análise das redes sociais também é entendida como teorias e técnicas para entender as estruturas sociais.
  2. Meios sociais: são plataformas de comunicação on-line onde o conteúdo é criado pelos próprios usuários através do uso das tecnologias da Web 2.0, que facilitam a edição, a publicação e a troca de informações (III). Os professores Kaplan e Haenlein definem os meios sociais como “um grupo de aplicações baseada na internet que se desenvolvem sobre os fundamentos ideológicos e tecnológicos da Web 2.0 que permitem a criação e a troca de conteúdos gerados pelo usuário” (Kaplan e Haenlein, 2002).

A análise das redes sociais é a pesquisa baseada na propriedade das redes, e que, através dela, derivam-se conclusões sobre a relação entre duas entidades(IV). O campo de aplicação da análise das redes engloba: sociologia, antropologia, psicologia, administração e outras ciências sociais em geral. Do mesmo modo, é fundamental para a análise geoespacial, para a análise de sistemas e para a pesquisa operacional.

Isto posto, fica evidente que a Teoria de Redes e sua correspondente análise são uma ferramenta interessante e necessária para qualquer agência de inteligência. Segundo a professora Nancy Roberts, da Escola de Pós-Graduação da Marinha dos EUA (NPS, da sigla em inglês), “As conexões das redes sociais são mantidas entre dois ou mais nós. Os nós podem ser pessoas, grupos, organizações, Estados, etc.”. Em inteligência estratégica, nós os definimos como sujeitos estratégicos.

Na análise de redes sociais, existe uma variada gama de desenhos, por exemplo (V):

Gráfico 1. Redes anárquicas

Nas redes sociais anárquicas, seus desenhos serão completamente variados e diferentes das redes sociais organizadas. Contudo, nos conflitos modernos, o domínio humano é o fator mais importante que qualquer adversário quer conhecer, influenciar e dominar. É o fator mais crítico e desafiante nos conflitos do Século XXI.

Gráfico 1 - imagem 02

 

Gráfico 2. Rede tipo cadeia

Difícil de ver, fácil de decompor, utiliza-se para contrabando, drogas, armas, etc.

Gráfico 2 - imagem 03
 

Gráfico 3. Rede tipo eixo

Mais vulnerável no centro, vinculado com os aros da roda. Los atentados de 11 de setembro foram organizados em rede tipo eixo.

Gráfico 3 - imagem 04

Gráfico 4. Rede tipo Malha

A forma mais poderosa, mais robusta. Todos os nós são conectados.

Gráfico 3 - imagem 05

Enquanto a análise das redes sociais é centrada nas relações sociais (relações e atributos) entre atores de uma rede, a análise dos meios sociais trata do seguimento e da interpretação de mensagens de qualquer tipo de ator.

A codificação de dados com respeito a várias redes é especialmente importante quando se trabalha com redes obscuras (nome dado pela NPS às redes que incluem terrorismo, crime organizado, redes ilícitas, cadeias financeiras, lavagem de dinheiro, recrutamentos, etc.,) já que aumentam a probabilidade de codificarmos a rede com precisão. Por isso, é necessário aplicar algumas ferramentas para combinar a análise das redes sociais, extrair e analisar as múltiplas relações entre os atores. Alguns programas permitem criar sobreposição (um sobre o outro) de dados de redes sociais de outros arquivos de redes sociais individuais, enquanto outros permitem somar relações dentro e entre arquivos de dados da rede (VI).

A análise de redes sociais em estudo é uma ferramenta importantíssima para o estudo e a pesquisa das redes sociais obscuras. Essa análise de redes sociais foi muito útil, na primavera árabe, começando na Tunísia e expandindo-se para o Egito e na Líbia, conseguindo mobilizar milhares de pessoas para uma causa. Da mesma forma, os cartéis mexicanos são encobertos nas redes sociais através de atributos e relaçõespara a organização, distribuição e transporte de drogas. A análise de redes sociais nos permite o estudo de organizações que praticam atividades ilícitas, ou que representam grupos radicais e/ou organizações terroristas.

Dois exemplos podem ilustrar este comentário: o estudo e a análise do Movimento pela Anistia e Defesa dos Direitos Humanos - MOVADEF, o braço político da Organização Terrorista Sendero Luminoso no Peru, e as atividades de recrutamento que o Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês) realiza na Europa e nos Estados Unidos.

A análise de redes sociais é utilizada também para as lutas sociais de forma pacífica. Nos últimos anos, o mundo presenciou o surgimento de uma rede de atores dedicados a limitar as ações de diversos governos, de ativistas que pedem pela não contaminação do meio ambiente e pela mobilização em conflitos sociais por meio da organização em redes imensas interconectadas com vários canais, apoiando-se na Internet, de onde coordenam e organizam grandes manifestações sincronizadas em todo o mundo (VII).

Deve-se levar em conta que a difusão do crime organizado transnacional constitui a ameaça mais importante para a segurança das Américas (VIII). Essas organizações se manifestam em redes e “a melhor maneira de combater uma rede é com outra rede” (Arquilla & Ronfeldt, 2003).

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Referências

I. http://www.kstoolkit.org/Análisis+de+Redes+Sociales+(ARS)

II. Dan Cunhigan. Análise de Redes Sociais (ARSo); parte I, CORELAB, NPS, Monterey,

III. https://es.wikipedia.org/wiki/Red_social

IV. Ricardo Devoto C. de F., A. P. Introdução à análise de Redes, 2015, ENP - EUA.

V. Nancy Roberts. Introdução à análise das redes sociais, CORELAB, NPS, Slide 6, junho de 2014, Monterey, Califórnia, EUA. www.NPS.edu.

VI. Idem.

VII. Jon Arquilla & David Ronfeldt. Redes e guerra em rede, o futuro do terrorismo, o crime organizado e o ativismo político, pág. 15, Alianza Editorial Madrid, Espanha, 2003.

VIII. J. Editores, C. Garzón & Olson. A diáspora criminosa: a difusão transnacional do crime organizado e como conter sua expansão. Juan Carlos Garzón Vergara, pág. 1, Woodrow Wilson International Center for Scholars 2013.



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