COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

13 de Janeiro, 2020 - 12:55 ( Brasília )

Irã diz que militares do país derrubaram avião ucraniano em "erro desastroso"


O Irã disse neste sábado que as Forças Armadas do país abateram por engano um avião ucraniano, matando todas as 176 pessoas a bordo, e afirmou que as defesas aéreas foram disparadas por engano enquanto estavam em alerta após os ataques de mísseis iranianos contra alvos norte-americanos no Iraque.

O Irã negou por dias após o acidente de quarta-feira que tinha sido responsável pela queda do avião, embora um importante comandante da Guarda Revolucionária iraniana tenha dito nesta sábado que informou as autoridades sobre o ataque não intencional no mesmo dia em que ocorreu.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que até este sábado estava em silêncio sobre o acidente, disse que as informações devem ser divulgadas ao público, e autoridades públicas e militares pediram desculpas.

Mas a televisão estatal sugeriu que revelar a verdade sobre o que aconteceu poderia ser usado pelos “inimigos do Irã”, geralmente uma referência aos Estados Unidos e Israel.

O acidente aumentou a pressão internacional sobre o Irã, depois de meses de atrito com os Estados Unidos e ataques de ambas as partes. Um ataque de drone dos EUA matou um importante comandante militar iraniano no Iraque em 3 de janeiro, levando Teerã a disparar contra alvos norte-americanos na quarta-feira.

O Canadá, que tinha 57 cidadãos a bordo do avião ucraniano derrubado, e os Estados Unidos já tinham afirmado acreditar que um míssil iraniano tinha atingido a aeronave, embora tenham dito que provavelmente foi um erro.

“A República Islâmica do Irã lamenta profundamente esse erro desastroso”, escreveu o presidente iraniano, Hassan Rouhani, no Twitter, prometendo que os responsáveis pelo incidente serão processados. “Meus pensamentos e orações vão para todas as famílias de luto”.

Especialistas disseram que a crescente fiscalização internacional tornaria praticamente impossível esconder sinais de um ataque de míssil em qualquer investigação, e o Irã pode ter sentido que reconhecer a falha seria melhor do que enfrentar as crescentes críticas no exterior e aumentar a dor e a raiva dos iranianos, como muitas vítimas iranianas com dupla nacionalidade entre os mortos.

No Twitter, iranianos irados perguntaram por que o avião foi autorizado a decolar diante das tensões na região. O avião caiu no momento em que o Irã estava em alerta para possíveis represálias dos EUA nas horas seguintes ao lançamento de foguetes iranianos contra tropas norte-americanas em bases iraquianas.

“INVESTIGAÇÃO ABRANGENTE”

A Guarda Revolucionária do Irã, em uma rara admissão de erro, pediu desculpas à nação e assumiu toda a responsabilidade.

O comandante sênior da Guarda, Amirali Hajizadeh, disse que havia informado as autoridades do Irã na quarta-feira sobre o ataque não intencional — um comentário que levantou questões sobre por que as autoridades o negaram publicamente por tanto tempo.

Em resposta ao anúncio do Irã, a Ucrânia exigiu desculpas e compensações oficiais. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, pediu “uma investigação completa e abrangente”, com a total cooperação do Irã.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, escreveu no Twitter que “um erro humano no momento da crise causada pelo aventurismo dos EUA levou ao desastre”, citando uma investigação inicial das Forças Armadas sobre a queda do Boeing 737-800.

Um comunicado militar informou que o avião ucraniano voou perto de um local sensível da Guarda Revolucionária em um momento de alerta, embora a Ucrânia tenha dito que o avião estava em um corredor de voo normal.

A Ukraine International Airlines disse que o Irã deveria ter fechado o aeroporto de Teerã. Seu vice-presidente disse que a empresa não recebeu nenhuma indicação de que enfrentava uma ameaça e foi liberada para decolar.

Especialistas em aviação disseram que cabe a um país fechar seu espaço aéreo quando houver risco.

A Casa Branca não respondeu de imediato a um pedido de comentário sobre o anúncio deste sábado feito pelo Irã.

Imagens de celulares postadas na internet e que circularam entre iranianos comuns no Twitter após o acidente indicaram que o avião caiu em chamas e explodiu quando atingiu o chão.

O desastre fez lembrar um incidente de 1988, quando um navio de guerra dos EUA derrubou um avião iraniano, matando 290 pessoas. Os EUA disseram que foi um acidente. O Irã disse que foi intencional.

Guarda Revolucionária do Irã sabia que míssil tinha derrubado avião desde dia do acidente

Um alto comandante da Guarda Revolucionária do Irã afirmou neste sábado que soube que um míssil tinha derrubado um avião ucraniano no mesmo dia do acidente e que assumia total responsabilidade pela queda, dizendo que sua força agiu por engano diante de um alerta para “guerra total”.

O Irã negou por dias que um míssil tivesse atingido o Boeing 737-800 na quarta-feira pouco depois de decolar de Teerã a caminho de Kiev, mas reconheceu a responsabilidade neste sábado. Todas as 176 pessoas a bordo da aeronave morreram.

“Eu gostaria de poder morrer e não testemunhar um acidente assim”, disse o chefe da divisão aeroespacial da Guarda, Amirali Hajizadeh, à televisão estatal.

O avião caiu pouco depois que o Irã lançou ataques com mísseis contra alvos dos Estados Unidos no Iraque em retaliação pelo assassinato de Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda, pelos EUA no Iraque. O Irã esperava represálias dos EUA.

“Naquela noite, estávamos preparados para uma guerra total”, disse Hajizadeh, acrescentando que as unidades de defesa aérea estavam em alerta máximo e que uma camada extra de defesas havia sido instalada em Teerã.

O comandante afirmou que a Guarda solicitou que voos comerciais fossem interrompidos, mas disse que os pedidos não foram atendidos. Ele acrescentou ter sido informado sobre o ataque com mísseis ao avião de passageiros ucraniano na quarta-feira.

Manifestantes exigem renúncia de líderes do Irã após militares admitirem que atingiram avião

Protestos se espalharam ao redor do Irã pelo segundo dia neste domingo, aumentando a pressão sobre os líderes do país, depois que as forças militares admitiram que derrubaram por engano um avião ucraniano no momento em que Teerã temia ataques aéreos dos Estados Unidos.

“Eles estão mentindo que o nosso inimigo é a América, nosso inimigo está aqui”, gritava um grupo de manifestantes do lado de fora de uma universidade em Teerã, segundo vídeos publicados no Twitter.

Dezenas de manifestantes foram mostrados do lado de fora de outra universidade na capital e em protestos em outras cidades.

Alguns veículos de imprensa também relataram protestos em universidades, depois das manifestações de sábado, motivadas pelo anúncio do Irã de que suas forças militares haviam equivocadamente derrubado o avião ucraniano na quarta-feira, matando todas as 176 pessoas a bordo.

Moradores do Irã disseram à Reuters que a polícia estava com forte presença nas ruas da capital neste domingo, enquanto cresce a irritação da população após dias de negativas de culpa por parte das autoridades, mesmo após Canadá e Estados Unidos afirmaram que um míssil havia derrubado o avião.

No sábado, a polícia lançou gás lacrimogêneo em milhares de manifestantes na capital, onde muitos cantaram “Morte ao ditador”, direcionando a raiva ao líder supremo da República Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei.

“Peça desculpas e renuncie”, escreveu o jornal moderado iraniano Etemad, em sua manchete, no domingo, dizendo que a “exigência do povo” era a renúncia dos responsáveis pela má condução da crise do avião.

A nova escalada de raiva é mais um desafio para as autoridades, que lançaram uma sangrenta repressão a protestos em novembro. Os líderes também estão sofrendo para manter o bom andamento da economia devido a rigorosas sanções impostas pelos Estados Unidos.

O presidente dos EUA, Donald Trump tuitou: “Aos líderes do Irã - não matem seus manifestantes. Milhares já foram mortos ou presos por vocês, e o mundo está observando”.

O avião da Ukraine International Airlines foi derrubado minutos após levantar voo de Teerã, na quarta-feira, quando forças iranianas estavam sob alerta para represálias dos EUA após ataques de ambos os lados. Muitos a bordo eram iranianos com dupla nacionalidade, e 57 tinham passaportes canadenses.

O presidente iraniano, Hassan Rouhani, afirmou que foi um “erro desastroso” e pediu desculpas. Mas um importante comandante da Guarda Revolucionária contribuiu para a fúria do público ao dizer que havia dito às autoridades no mesmo dia da queda que um míssil iraniano havia atingido o avião.

Premiê canadense Trudeau diz que vai buscar justiça por vítimas de avião ucraniano

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse aos participantes de uma vigília em homenagem aos mortos na queda de um avião iraniano que vai “buscar justiça e responsabilização” pelo que aconteceu.

O Irã informou que derrubou por engano um avião ucraniano na quarta-feira, matando todas as 176 pessoas a bordo. Entre os mortos estão 57 canadense, a maioria deles descendentes de iranianos, em uma das maiores perdas de vidas que o Canadá sofreu em 40 anos.

“Você pode se sentir insuportavelmente sozinho, mas não está sozinho. Seu país inteiro está com você hoje à noite, amanhã e nos próximos anos”, disse Trudeau a 2.300 pessoas em um ginásio de basquete em Edmonton, na província de Alberta, lar de 13 das vítimas, a maioria relacionada à Universidade de Alberta.

Enquanto Trudeau discursava, caixas de lenços circulavam entre a multidão. Fotos das vítimas estavam no palco, ao lado de arranjos de pétalas de rosas, velas e pratos de tâmaras.

“Esta tragédia nunca deveria ter ocorrido, e eu quero garantir a vocês que tenham meu apoio total durante esse tempo extraordinariamente difícil... Vocês nos dão motivo para buscar justiça e responsabilização para vocês”, disse o premiê, que pediu que o Canadá participasse da investigação sobre o acidente.

“Não vamos descansar enquanto ainda houver lacunas”.

Daniel Ghods disse que sua namorada, Saba Saadat, estudante de Ciências Biológicas, era um “vislumbre de luz” em sua vida antes de morrer no acidente.

“Neste mundo em que vivemos, é fácil ficar insensível às tragédias que acontecem à nossa volta”, acrescentou. “Peço a todos que mantenham sua humanidade e sejam gentis uns com os outros”.

Os memoriais devem continuar por vários dias no país, incluindo vigílias à luz de velas.

Irã nega ter atirado em manifestantes que tomaram as ruas após derrubada de avião

A polícia do Irã disse nesta segunda-feira que agentes não atiraram em manifestantes que tomaram as ruas para protestar pelo fato de os militares do país terem abatido por engano um avião de passageiros, após vídeos publicados nas redes sociais registrarem tiros e poças de sangue durante os protestos.

“Nos protestos, a polícia não atirou de forma nenhuma, porque os policiais da capital foram ordenados a mostrar comedimento”, disse Hossein Rahimi, chefe de polícia de Teerã, em um comunicado publicado pelo site da emissora estatal.

Em um tuíte no domingo, o segundo dia de manifestações no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse às autoridades: “Não matem seus manifestantes”.

Os protestos em casa são o desdobramento mais recente de uma das escaladas mais desestabilizadoras entre os EUA e o Irã desde a revolução iraniana de 1979.

Teerã admitiu ter derrubado o avião ucraniano por engano, matando todas 176 pessoas a bordo, horas depois de ter disparado mísseis contra bases norte-americanas para retaliar o assassinato de seu líder militar mais poderoso em um ataque de drone ordenado por Trump.

A revolta pública iraniana, que cresceu enquanto o Irã negava insistentemente ter culpa pela queda do avião, irrompeu em protestos no sábado após a confissão dos militares. Os manifestantes voltaram às ruas no domingo e novamente nesta segunda-feira.

Vídeos publicados nas redes sociais na noite de domingo registraram tiros nas proximidades dos protestos na Praça Azadi de Teerã. Imagens mostraram sangue no solo, feridos sendo carregados e pessoas que pareciam serem seguranças correndo com armas.

Outras postagens mostraram batalhões de choque golpeando manifestantes com cassetetes enquanto pessoas próximas gritavam “Não batam neles!”

“Morte ao ditador”, mostraram imagens de manifestantes, que circulam nas redes sociais, dirigindo sua revolta ao líder supremo, Ali Khamenei.

“Eles estão mentindo que nosso inimigo é a América, nosso inimigo está bem aqui”, bradava outro grupo diante de uma universidade de Teerã.

A Reuters não conseguiu autenticar as imagens de forma independente. A mídia filiada ao governo noticiou os protestos de sábado e domingo em Teerã e outras cidades, mas sem dar tais detalhes.

 

 

 

 

 



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