COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

12 de Abril, 2018 - 09:00 ( Brasília )

Há tempos a guerra na Síria não é mais sobre Assad

Direcionada à Rússia, a ameaça de Trump de bombardear a Síria mostra o emaranhado de interesses do conflito. Há um vácuo de poder na região, que as potências tentam preencher de forma cada vez mais decisiva.

A ameaça do presidente americano, Donald Trump, de bombardear a Síria levou a temores de que a guerra, que já se estende por mais de sete anos, entrasse num novo patamar.

Os mísseis americanos teriam como alvo o regime de Bashar al-Assad, que seria o responsável pelo ataque químico em Duma. Mas a guerra civil síria há muito tempo já não se trata mais apenas sobre o ditador, como deixou claro o próprio "tuite" de Trump.

"A Rússia ameaçou derrubar todos os mísseis disparados na Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles vão chegar, bonitos, novos e 'smart'. Vocês não deveriam ser parceiros desse animal que mata com gás seu próprio povo e tem prazer nisso", escreveu o presidente americano.

A Casa Branca depois tratou de aplacar os temores de uma ofensiva – "todas as opções estão sobre a mesa" – mas a ameaça de Trump expõe dois desenvolvimentos importantes no conflito.

Um é que atores importantes estão sendo arrastados de forma cada vez mais intensa para o conflito, como mostra a ofensiva turca sobre Afrin e o bombardeio sobre a base aérea síria de Taifour, que seria responsabilidade de Israel.

Ao mesmo tempo, cresce a tensão no Oriente Médio. A guerra deixou um vácuo de poder na região, que as potências – não apenas regionais – tentam preencher de forma cada vez mais decisiva.

Nesta guerra, há muito tempo o mais importante deixou de ser os interesses da oposição ou Assad. Em jogo está algo de maior dimensão. Enquanto Rússia e Irã, aliados do regime sírio, tentam ampliar sua influência na região, seus adversários – sobretudo EUA e, cada vez mais, Israel – tentam evitar isso.

"A mais alta prioridade da política americana consiste em apoiar Israel", afirma Günter Meyer, diretor do centro de estudos do mundo árabe da Universidade de Mainz. E isso, lembra o especialista, Trump fez questão de destacar continuamente. "Por isso a luta contra o Irã tem prioridade alta – funciona como ameaça a Israel."

O mesmo vale para o movimento radical libanês Hisbolá. Segundo Meyer, o objetivo é minar o chamado "eixo xiita", que começa no Irã e passa por Iraque, Síria e Líbano até a fronteira de Israel. Por isso, continua o especialista, os americanos aumentaram significativamente sua presença no leste sírio.

"Já se fala atualmente numa 'meia-lua americana', que passa por todo o nordeste sírio e se estende até a Jordânia", diz Meyer. A meta: criar um arco de proteção a Israel.

Milícia síria que, apoiada pela Turquia, ajuda a combater curdos

Irã, curdos e Hisbolá

O jornal em árabe Al-Araby Al-Jadeed, publicado em Londres, coloca o conflito num contexto maior: a Síria virou cenário de numa guerra por procuração entre EUA e Rússia. Outros palcos para esse conflito seriam a Ucrânia, no sentido militar, e a Líbia, no sentido diplomático.

"As relações russo-americanas entraram numa fase delicada", diz o jornal. "Se Rússia e EUA se envolverem militarmente (num conflito) no Oriente Médio, não apenas a guerra na Síria se intensificaria: poderia haver consequências para toda a região."

Os EUA há tempos veem a Síria de Assad de forma crítica. Quando os americanos invadiram o Iraque, em 2003, Damasco permitiu que jihadistas sírios e estrangeiros cruzassem sem problemas a fronteira.

Ali, eles ajudaram a criar uma resistência às tropas americanas. A mensagem de Damasco para Washington era clara: nem pensem em invadir a Síria. Naquela altura, já estava claro que o regime de Assad estava perdendo simpatia em Washington.

Segundo Meyer, na crise atual, trata-se sobretudo de minar a Síria, de modo que o país não seja mais um adversário forte. "As partes desintegradas do país se deixam jogar umas contras as outras", comenta o analista político.

O cenário se complica também pelo fato de o Hisbolá, apoiado pelo Irã, se aproximar cada vez mais da fronteira com Israel através das Colinas do Golã. E o regime de Assad, aliada de ambos, costuma pôr a Síria à frente da resistência a Israel.

Um contraponto a essa política é levado pelos curdos no norte da Síria. Mas, no momento, eles estão tendo que lidar com uma ofensiva turca na região de Afrin. Os curdos querem uma região autônoma para si, o que vai ao encontro dos interesses de israelenses. "Israel já declarou que apoia um Estado independente curdo", diz Meyer. "Isso mostra também do que se trata essa guerra."

Assad retoma enclave alvo de ataque químico

O Ministério da Defesa da Rússia anunciou nesta quinta-feira (12/04) que o Exército sírio tomou controle total sobre Duma, último bastião dos rebeldes em Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco.



O local se tornou o maior motivo dos agravamentos das tensões entre o regime do presidente Bashar al-Assad e países do Ocidente, que responsabilizam Damasco pelo ataque com armas químicas contra a população civil.

"A partir de hoje, atuam na cidade unidades da polícia militar das Forças Armadas da Rússia", afirmou em nota o ministério. O comunicado ressalta que o objetivo das forças russas é "garantir a preservação da ordem pública na cidade". Segundo os militares russos, continua a retirada de civis e combatentes do local.

Moscou afirma que, desde 1º de abril, abandonaram Duma 13.504 milicianos e membros das suas famílias. Desde o início das tréguas humanitárias, mais de 160 mil civis teriam sido retirados de Ghouta Oriental.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que cerca de 500 pessoas foram atendidas em centros médicos de Duma com sintomas de exposição a agentes químicos e que aproximadamente 70 pessoas que estavam em porões morreram por causa do ataque, que teria ocorrido no último sábado.

Antes da guerra, a região de Ghouta abrigava em torno de 2 milhões de pessoas. Ela ficou sitiada pelo governo sírio desde 2013. Ghouta Oriental foi uma das primeiras áreas a se rebelar contra o presidente Bashar al-Assad, já em 2011.

Ghouta Oriental também foi alvo de um ataque com gás sarin em 2013, que matou quase 1.500 pessoas e que é atribuído às forças que apoiam o regime de Assad. A reação internacional ao ataque forçou o regime a concordar com a eliminação de seu arsenal de armas químicas, ainda que haja indícios de que nem todas tenham sido destruídas.

Moscou afirma que as acusações de uso de armas químicas em Duma por parte das forças sírias são uma tentativa de justificar uma intervenção militar no país árabe.

O Ministério sírio do Exterior qualificou de irresponsáveis as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu uma ação militar contra o país. Assad alertou que uma possível investida dos países ocidentais na Síria deverá apenas "aumentar a instabilidade na região, ameaçando a paz e a segurança internacional".


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