COBERTURA ESPECIAL - Crise - Inteligência

28 de Dezembro, 2015 - 15:00 ( Brasília )

Brasileiras vão a Miami para dar à luz filhos com cidadania americana



Reed Johnson e
Luciana Magalhães de Miami
The Wall Street Journal

 
Quando Wladimir Lorentz começou a fazer parto de grávidas estrangeiras ricas em Miami, suas primeiras clientes foram russas fugindo do governo autocrático. Depois, foram as argentinas que enfrentavam a ruína financeira durante o colapso econômico do país no início dos anos 2000.

Mas nos últimos anos, Lorentz tem visto um crescente fluxo de clientes do Brasil, sua terra natal. Com a maior economia da América Latina atolada em uma recessão profunda, desemprego crescente e crime em alta, um número cada vez maior de brasileiras endinheiradas estão dando à luz em Miami, atraídas pela boa qualidade da assistência médica e a garantia de cidadania automática para seus recém-nascidos.
“O tema comum [...] é que há questões políticas e econômicas levando essas famílias a questionar a viabilidade de seu próprio país”, diz Lorentz, de 46 anos, que vive nos Estados Unidos desde a adolescência e que é totalmente fluente em inglês e português.

Brasileiros prósperos em grande parte passaram despercebidos em meio à crescente controvérsia sobre imigrantes que, segundo críticos, viajam intencionalmente aos EUA para ter filhos e, com isso, obter um ponto de entrada legal para suas famílias. A Constituição dos EUA garante a cidadania para qualquer indivíduo nascido em solo americano, incluindo aos filhos de pais estrangeiros. Quando essas crianças completam 21 anos, elas podem obter para seus pais o visto de permanência nos EUA, o green card e, mais tarde, a cidadania.

Durante a aquecida campanha presidencial dos EUA, alguns candidatos criticaram os chamados “bebês-âncora”, um termo que faz alusão ao estereótipo das imigrantes pobres, vindas principalmente do México e da América Central que entram no país ilegalmente para ter filhos.

Raúl Hinojosa-Ojeda, professor do departamento de estudos chicanos (temas relacionados às comunidades latinas e mexicanas dos EUA) da Universidade da Califórnia, diz que o número de mulheres latino-americanas pobres que cruzam a fronteira ilegalmente para ter filhos nos EUA é “muito pequeno”. Imigrantes latinas de baixa renda “não têm esse tipo de recursos para caminhar, sem documentos, grávidas de nove meses, através do deserto apenas para ter um bebê”, diz Hinojosa-Ojeda.

O chamado “turismo de maternidade” para estrangeiros ricos ultimamente também entrou na linha de fogo. Em março, investigadores federais vasculharam várias empresas no sul da Califórnia devido a suspeitas de fraudes fiscais e outros crimes em conexão com a suposta ajuda a chinesas ricas que viajam aos EUA para dar à luz. Nenhum indiciamento foi feita até agora.

Ainda assim, esse tipo de turismo é legal nos EUA desde que a mulher grávida entre no país com todos os documentos necessários — em geral um visto de turista — e cumpra a lei.

Brasileiros ricos têm ido aos montes para Miami já há muitos anos, primeiro em férias como turistas, e depois como investidores imobiliários e proprietários de empresas. Embora ninguém tenha números exatos, os problemas econômicos e sociais recentes do Brasil impulsionaram o número de brasileiros ricos procurando mudar permanentemente ou ter filhos nos EUA, diz Genilde Guerra, advogada de Miami nascida no Brasil que estima que pelo menos 50% de seus clientes são brasileiros.

Andrea Melo Aguiar, dentista de 40 anos de Manaus, diz que há muitos anos, depois de ter sido vítima de uma assalto à mão armada no Brasil, ela decidiu que queria dar à sua filha mais velha, nascida no Brasil, a oportunidade de estudar nos EUA. Aguiar decidiu morar em Miami, onde deu à luz sua segunda filha, Alice. Lorentz foi seu médico. “Essa crise [no Brasil] está levando as pessoas a procurar uma vida melhor para seus filhos”, diz Aguiar.

Lorentz e seus sócios, o colombiano-americano Ernesto Cárdenas e o cubano-americano Albert Triana, dizem que as grávidas estrangeiras formam um segmento relativamente pequeno, mas em expansão, dos pacientes de sua clínica de obstetrícia e pediatria.

O site em língua portuguesa da clínica, “Ser Mamãe em Miami”, exibe o desenho de um bebê embalado em uma bandeira americana. Além dos preços dos serviços pediátricos e obstétricos, ele oferece recomendações de agentes imobiliários locais que falam português, advogados, consultores de compras pessoais, motoristas, faxineiras, fotógrafos, cabeleireiros e manicures para as grávidas.
Os médicos dizem que eles oferecem aos estrangeiros os mesmo preços que cobram dos cidadãos americanos: US$ 5 mil, segundo Cárdenas.

O investimento total necessário para brasileiras terem seu bebê nos EUA varia. Mas o processo requer uma estadia longa em Miami, já que a maioria dos médicos proíbe que as mulheres viagem de avião depois dos sete meses de gravidez.

Uma das prestadoras de serviços recomendada pelo site da clínica é a carioca Carla McCarthy, que ajuda brasileiras que viajam para Miami para comprar seus vestidos de noiva. Ela frequentemente sugere a suas clientes: “Por que você não volta [à cidade] para ter um bebê?”

Lorentz e seus sócios defendem o trabalho, dizendo que, ao vir para os EUA para comprar, investir e ter filhos que se tornarão cidadãos produtivos que pagam impostos, as famílias migrantes estão ajudando os EUA.
 



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