COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa - Geopolítica

08 de Maio, 2016 - 21:15 ( Brasília )

China - Proibido falar mal da Economia


As autoridades da China estão voltando a sua mira para um novo grupo de alvos: economistas, analistas e repórteres de negócios com opiniões pessimistas sobre a economia chinesa.

Os reguladores do mercado financeiro, censores de mídia e outras autoridades do governo têm alertado verbalmente comentaristas cujas posições públicas sobre a economia não estão em sintonia com as declarações otimistas do governo, segundo autoridades do governo e comentaristas econômicos a par do assunto.

Lin Caiyi, economista-chefe da corretora Guotai Junan Securities Co., que tem falado abertamente sobre o crescimento da dívida das empresas, o excesso de oferta de imóveis e o enfraquecimento da moeda da China, recebeu uma advertência nas últimas semanas, dizem essas pessoas. Foi a segunda vez. O primeiro aviso veio do regulador de valores mobiliários e esse mais recente, segundo essas pessoas, do departamento de conformidade de uma estatal, que orientou a economista a evitar comentários “muito pessimistas” sobre a economia, principalmente em relação ao câmbio.

Pressionados por reguladores financeiros empenhados em estabilizar o mercado, analistas de ações nas corretoras estão ficando receosos de emitir relatórios criticando empresas de capital aberto. Pelo menos um centro de estudos chinês foi orientado pelas autoridades a não levantar dúvidas sobre um planejado programa do governo para reduzir as dívidas das estatais.

Embora as evidências da repressão sejam informais, ela parece ser generalizada. Os órgãos do governo chinês não responderam a pedidos de comentário ou não quiseram comentar. Comentários sobre a economia e notícias sobre empresas, ao contrário daqueles sobre política ou iniciativas sociais, têm sido relativamente poupados de restrições, num reconhecimento tácito do governo da China de que um fluxo mais livre de informações contribui para a vitalidade da economia.

Pequim voltou a agir para retomar o controle da narrativa econômica do país depois que equívocos cometidos ano passado no mercado de ações e na política cambial levaram investidores a duvidar da competência do governo para gerenciar uma economia em franca desaceleração.

Esse tipo de controle via alertas ameaça limitar ainda mais as informações sobre a segunda maior economia do mundo e agravar a ansiedade de investidores já desconfiados das estatísticas e declarações do governo.



 
“Um debate vigoroso entre os economistas e a confiança do público nessa conversa é essencial para a China navegar com sucesso pelas águas agitadas da economia”, diz Scott Kennedy, vice-diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, sediado em Washington.


Um aperto generalizado no controle sobre a sociedade vem se desdobrando nos últimos anos, à medida que o presidente chinês Xi Jinping tenta fortalecer o Partido Comunista e angariar apoio popular para uma transição econômica acidentada, depois de décadas de rápido crescimento. Os alvos escolhidos até agora foram advogados ativistas, personalidades das redes sociais, organizações estrangeiras sem fins lucrativos e membros do partido que criticam políticas.

Embora as restrições impostas à mídia estrangeira sempre tenham sido rígidas, elas estão se tornando ainda mais severas, com lista de publicações estrangeiras tendo seus sites bloqueados dentro da China, incluindo o The Wall Street Journal.

Algumas autoridades escalão mais baixo descrevem uma mentalidade de perseguição que estaria ganhando corpo entre os líderes do governo e as altas autoridades da China, diante do pessimismo sobre a economia local manifestado no início do ano por investidores internacionais, como George Soros. Em reuniões de cúpula realizadas nos últimos meses, algumas autoridades de alto escalão defenderam a repressão a qualquer crítica que pudesse incentivar os estrangeiros a apostar contra a China nos mercados, dizem autoridades a par das discussões.

No início do ano, Xi visitou os três grandes veículos estatais de notícias do país — a agência Xinhua, o jornal “Diário Popular” e a Televisão Central da China — para orientá-los sobre a necessidade de se alinhar com o discurso do partido, “contar a história da China direito” e elevar a influência do país no mundo.

Isso, disseram jornalistas chineses, resultou em pressão não só para evitar tópicos críticos, mas também para produzir artigos positivos sobre a economia.

Um caso ilustrativo ocorreu num evento em Hong Kong, onde Gao Shanwen, economista-chefe da corretora Essence Securities Co., disse a investidores que “muitos dados oficiais não eram confiáveis” e que a economia chinesa ainda enfrentava “grandes problemas”, segundo pessoas que foram ao evento.

Os comentários chegaram às redes sociais. Dois dias depois, Gao emitiu uma nota em sua conta pública no WeChat, popular aplicativo de mensagens chinês, dizendo que os comentários foram “inventados”. Ele então divulgou um relatório sem críticas à economia. Gao e representantes de sua empresa não retornaram pedidos de comentários.


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