COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Defesa

20 de Agosto, 2018 - 15:00 ( Brasília )

Exclusivo – Entrevista: Ten Gen Charles Hooper, Diretor da DSCA

O Tenenet-General Charles Hooper, Diretor da Defense Security Cooperation Agency (DSCA) comenta as relações entre o Brasil e Estados Unidos, compra de equipamentos e operações conjuntas

Nota DefesaNet

Versão em inglês da entrevista

Exclusive Interview – LTG Charles Hooper Director DSCA DefesaNet Link

Editor


Nelson During
Edição: Nicholle Murmel

 

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis iniciou sua passagem pela América do Sul no último dia 13, quando desembarcou em Brasília, sua primeira parada pelos países da região (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia) – sua principal missão foi reforçar laços com as nações do continente. Entre os membros da delegação estadunidense que acompanhou Mattis, estava o Tenente-General (LTG) Charles Hooper, Diretor da Agência de Cooperação em Defesa e Segurança (Defense Security Cooperation Agency - DSCA), cuja visita também deve aprofundar a cooperação militar entre os EUA e as nações sul-americanas.

Em entrevista exclusiva para o DefesaNet, o General Hooper comenta o status atual e as possibilidades para a parceria Brasil-EUA em termos de compra de equipamentos, contratos futuros na área de defesa e segurança e missões militares.

“Gostaria de iniciar [esta conversa] agradecendo pela oportunidade e lembrando que Brasil e Estados Unidos têm um histórico de cooperação desde que nossas tropas se uniram e combateram juntas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e esse relacionamento permanece ainda hoje. Estou aqui com o secretário [Mattis] para fortalecer essa aliança entre nossos países e demonstrar nosso compromisso de continuar incentivando colaborações e parcerias estratégicas”, disse.

“Nos esforçamos para que haja sempre transparência, confiança e responsabilidade, e fico feliz em dizer que nossa parceria está crescendo por meio de diversos esforços nas áreas de defesa e segurança”.

Abaixo confira, na íntegra, a entrevista com o General Charles Hooper:

DefesaNet: Quais as expectativas do governo Americano e da DSCA quanto ao diálogo com representantes militares brasileiros?

General Charles Hooper: Minha expectativa é e que, com a visita do secretário e, eu espero, a minha participação, possamos reforçar ainda mais a excelente relação entre Brasil e Estados Unidos. 



Tenente-General Charles Hooper e membros da delegação americana com o Gen Ex Paulo Humberto, Chefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro.

DefesaNet: E quais os esforços atuais da DSCA no Brasil?

Gen. Charles Hooper: Há vários exemplos de colaboração entre as indústrias de defesa brasileira e norte-americana, como o trabalho conjunto da EMBRAER com a Boeing em torno do A-29 Super Tucano.

DefesaNet: Há previsões quanto aos próximos passos e possíveis acordos envolvendo o Super Tucano?

Gen. Charles Hooper. Não posso especular sobre o assunto, mas posso dizer que o Super Tucano atende a um nicho bastante particular e é adequado para solucionar desafios nas áreas de contraterrorismo e conflitos de baixa intensidade (Low Intensity Conflict), em vários locais do globo. Sendo assim, estou otimista de que essa parceria seguirá num rumo positivo.

DefesaNet: Em 2018 os Estados Unidos mudaram sua política de venda de armas convencionais. Quais as implicações dessa mudança para o Brasil?

Gen. Charles Hooper: Essa nova política foi aprovada pelo presidente [Donald Trump], e posso lhe dizer, de forma geral, que a proposta é nos permitir fornecer aos nossos parceiros uma gama maior de equipamentos e tecnologias, e fazer isso o com um processo o mais rápido possível.

A DSCA trabalha intensamente para eliminar alguns dos obstáculos administrativos e burocráticos, mas mantendo a integridade do processo [de compra e venda] e nosso compromisso com o Brasil e demais parceiros de proporcionar os melhores equipamentos a preço justo e o mais rápido que podemos.

DefesaNet: Há acordos com o Brasil nas áreas de tecnologia, defesa e segurança que podem se beneficiar dessa nova política?

Gen. Charles Hooper: Uma das razões pelas quais viemos ao Brasil é para ouvirmos nossos parceiros e determinar quais os desafios em termos de tecnologia e equipamentos. Atualmente, o Brasil é o maior consumidor de tecnologia americana na América do Sul, e creio que isso corrobora a solidez da relação entre nossos países. Em termos de novidades, porém, queremos primeiro ouvir as demandas de nossos parceiros.

DefesaNet: Quando às Forças Armadas brasileiras, quais os planos da DSCA? Há, neste momento, negociações que possam gerar futuros contratos?

Gen. Charles Hooper: Temos vários militares brasileiros, que estão estudando nos Estados Unidos, além de programas, exercícios militares e outros esforços colaborativos bem sucedidos na região do atlântico e em todo o mundo. Uma coisa que farei durante minha passagem pelo Brasil é dialogar com representantes das três Forças e ajudar a estabelecer quais tecnologias e produtos elas podem necessitar, bem como trabalhar para fornecê-las o quanto antes.

DefesaNet: Falando agora do seu histórico pessoal, o senhor ocupou posição relevante no AFRICOM  (Africa Command),  e desenvolveu projetos cruciais na África, região de interesse para o Brasil. O senhor poderia comentar um pouco sobre suas experiências no continente?

Gen. Charles Hooper: É uma ótima pergunta. Fui diretor de estratégia e segurança no Comando dos Estados Unidos para a África (2011-2014) e, durante esse período, tive a oportunidade de conhecer minha contraparte brasileira, o Diretor de estratégia para as Forças Armadas brasileiras e pudemos discutir exatamente essa questão [da presença brasileira no continente]. O Brasil participou de exercícios navais com o AFRICOM, no Golfo da Guiné, além de estar presente e liderar outras manobras conjuntas em Angola – país com o qual o Brasil compartilha aspectos históricos,e também a missão da ONU na República Democrática do Congo (MONUSCO). (Nota DefesaNet – Missão comandada pelo Gen Div Santos Cruz)

Acredito, e tenho a impressão de que meus colegas no Comando para a África (AFRICOM) concordariam, que há muito potencial na cooperação cada vez maior entre os Estados Unidos e o Brasil em questões relacionadas à África.  

DefesaNet: E como o senhor vê essa cooperação acontecendo? Brasil e Estados Unidos trabalhariam juntos, ou seria em missões sob comando da ONU?

Gen. Charles Hooper: O Brasil contribuiu em diversas missões multinacionais promovidas pelas Nações Unidas e, certamente [qualquer esforço junto aos EUA na África], dependeria da situação. Posso dizer com certeza que o Brasil tem potencial para colaborar de forma muito positiva na estabilidade e manutenção da paz na África, assim como fez no Haiti, seja em parceria com os Estados Unidos ou sob liderança da ONU.

DefesaNet: As demandas logísticas e operacionais na África parecem muito diferentes do que experimentamos no Haiti. A partir de sua experiência, há necessidade de alterar ou atualizar nossas práticas (incluindo equipamentos) para estarmos presentes na no continente africano?

Gen. Charles Hooper: As forças brasileiras são reconhecidas mundialmente pela expertise e profissionalismo. Isso é resultado das operações e colaborações em locais como o Haiti e o Líbano. Então, novamente, acredito no potencial brasileiro de seguir contribuindo cada vez mais com os esforços para estabilizar e manter a paz ao redor do mundo.



Tenenete-General Charles Hooper e representantes da Base Industrial de Defesa em reunião, na Embaixada Americana, 13 Agosto 2018. Foto - US Embaixada


DefesaNet: Além do continente africano, que outras oportunidades de cooperação o senhor vislumbra para Estados Unidos e Brasil?

Gen. Charles Hooper: Novamente, [a colaboração entre nossos países] dependeria das demandas de segurança pelo mundo, as quais estão evoluindo rapidamente. Mas posso dizer que o Brasil já demonstrou disposição e habilidade para atuar em diversos cenários no mundo.

Não podemos antecipar ou especular sobre as mudanças no cenário global. Mas posso afirmar que o Brasil será lembrado em futuras coalizões com os EUA a fim de enfrentar esses desafios de segurança mundial.

DefesaNet: Em se tratando desta viagem pela América do Sul, o senhor acompanhará o secretário Mattis à Argentina, Chile e Colômbia?

Gen. Charles Hooper: Sim, acompanharei o secretário a todos esses países.

DefesaNet: E quais as expectativas da DSCA para a América do Sul como um todo?

Gen. Charles Hooper: Enquanto acompanho o secretário, minha principal missão é fortalecer os laços entre os Estados Unidos e as nações sul-americanas pelas quais passaremos. Um ponto chave de nossa estratégia é solidificar essas alianças e atrair novos parceiros [para a indústria americana]. A DSCA é uma organização com 18.000 membros em todo o mundo. A DSCA estabelece esse diálogo comercial e tecnológico com base em quatro valores, a começar pela:

1 -  Transparência,  em fornecer a informação mais completa o mais rápido possível para nossos países parceiros;

2 - Capacidade de resposta, para que possamos dar resposta rápida quanto à necessidade de informação e de equipamentos por parte de nossos aliados;

3 – Integridade, é o nosso terceiro valor fundamental, nos orgulhamos de que nossos sistemas são incorruptíveis, e nos esforçamos para oferecer conhecimento que serve de base para governos de nações amigas possam decidir e nos esclarecer seus motivos para comprar as melhores tecnologias e treinamento disponíveis no mundo, e,

4 – Comprometimento, é nosso quarto valor, que vai além de fornecer armas e equipamentos – nosso interesse é estabelecer laços de longo prezo com nações parceiras e cultivar relações com as Forças Armadas desses países, pois entendemos que essas são as bases de alianças sólidas.

DefesaNet: O Brasil planeja expandir suas compras militares através da modalidade Foreign Military Sales (FMS). Já desenvolvemos o programa de modernização do blindado M-113, e também a modernização e aquisição do obuzeiro M-109A5BR. Como a DSCA poderia comtribuir com o Brasil na FMS?

Gen. Charles Hooper: Uma das vantagens do processo FMS é a integridade dos processos é o fato de as duas partes trabalharem juntas para viabilizar o contrato. Você mencionou exemplos de plataformas e armamentos que o Brasil está desenvolvendo – de nossa parte, trabalhamos muito nos processos de compras e vendas externas para fornecer produtos o mais rápido possível. É como fortalecemos relações entre nossa indústria de defesa e aquelas com quais trabalhamos.

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Tópicos

- O Tenente-General Hooper além de acompanhar o Secretário Mattis,  na reunião com o Ministro da Defesa e Comandos Militares Brasileiros, reuniu-se com representantes da Base Industrial de Defesa do Brasil (ver foto acima).   

- Um dos principais focos é a ação EMBRAER / Sierra Nevada com o A29 Super Tucano.

- Passou uma mensagem positiva de expandir os negócios com o Brasil.

- Esta foi a primeira visita ao Brasil. Deverá retornar ao Brasil para a LAAD 2019.

Sua mensagem: “Brazil is not only important in South America but worldwide”

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Recomendamos a leitura do discurso proferido pelo Secretário James Mattis, na Escola Superior da Guerra (ESG),  14AGO2018. Foi o único pronunciamento público durante toda a viagem pelos 4 países (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia).

Português


BR-US - Discurso do Secretário de Defesa James Mattis na ESG Link

Inglês

BR-US - Sec Mattis Speech at ESG Link

 

BR-USA - Defense Industry Day

Diálogo da Base Industrial de Defesa e Governo Brasileiro com o Governo Americano estabelecem uma ponte para o futuro. Evento realizado em 2016.

BR-USA - Defense Industry Day 2016 DefesaNet Link


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