COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Inteligência

20 de Maio, 2018 - 23:30 ( Brasília )

Inteligência militar dos EUA espionou 'hexágono' brasileiro




Roberto Godoy


Nos anos 80, a espionagem dos Estados Unidos estava interessada mesmo era em saber o que se fazia no secreto Instituto de Estudos Avançados, o IEAv, agregado ao então Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos.

Uma análise da Agência de Inteligência da Defesa, uma espécie de CIA militar, vazada em 1983, trazia o título "Frente ao Pentágono, um Hexágono" e dizia que o plano brasileiro de construir armas nucleares passava pelas atividades desenvolvidas naquele prédio de seis faces. O analista americano destacava a preocupação com a pesquisa para enriquecer urânio com o uso de lasers - um raro conhecimento, mais eficiente e rápido na tarefa de separar o U-235 adequado à produção do combustível dos reatores geradores de energia ou de bombas atômicas.

O documento destacava peculiaridades das instalações subterrâneas do IEAv e de um grande salão que abrigava o supercomputador Cray, único desse tipo na América Latina. Havia, sim, o plano secreto, com atribuições divididas entre os centros de investigação científica da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Era considerado paralelo ao programa nuclear oficial, de 1975, resultado de um acordo entre Brasil e Alemanha. Em 1988, com a extinção da estatal Nuclebrás, por ordem do ex-presidente José Sarney, a empreitada do sigilo foi regularizada. A meta da construção de artefatos explosivos acabou sendo cancelada no mesmo ano. Mas, a essa altura o País já dominava toda a tecnologia do ciclo do urânio. Não pela via do laser.

O método adotado na época e ainda hoje emprega máquinas de ultracentrifugação - que não foram citadas no documento.

A coleta de informações não era praticada apenas pela CIA, mas por outras agências americanas e, eventualmente, pelos ingleses.

A pauta dos curiosos envolvia as atividades de empresas como o grupo Engesa - Engenheiros Especializados S/A, por causa da sua grande desenvoltura nas ações comerciais com países-clientes tão diferentes quanto podiam ser naquele momento a Líbia, de Muamar Kadafi, o Iraque, de Saddam Hussein, ou o Chile, de Augusto Pinochet, além de uma constelação de forças da África e do Oriente Médio.

O catálogo de produtos - blindados Cascavel, com canhão 90 mm, Urutu e Jararaca, de reconhecimento armado; munições e propelentes - levava a definições do tipo "tratam-se de bens militares baratos, confiáveis e de manutenção simples".


 


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