COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Defesa

14 de Dezembro, 2016 - 12:00 ( Brasília )

EXCLUSIVO - Entrevista Alm Kurt W. TIDD (SOUTHCOM)

Em entrevista exclusiva concedida ao DefesaNet, o Almirante Kurt W. Tidd comandante do SOUTHCOM comenta a capacidade do Brasil para sediar eventos globais, liderar operações no exterior, e as possibilidades de cooperação nas áreas de indústria e defesa.

Nota DefesaNet

Texto da entrevista em inglês

EXCLUSIVE - Interview Alm Kurt W. TIDD (SOUTHCOM) Link

O Editor



Nelson F. Düring
 Editor-chefe do DefesaNet
Tradução – Nicholle Murmel


O Almirante Kurt W. TIDD, US Navy, assumiu o Comando do  United States Southern Command (USSOUTHCOM), em 14 de Janeiro de 2016. Sendo o seu 23º Comandante.

Em sua primeira visita ao Brasil como Comandante do SOUTHCOM, concedeu uma entrevista exclusiva a DefesaNet. Em 2012, quando comandava a 4ª Frota também falou a DefesaNet (Link 
Entrevista Contra-Almirante Kurt Tidd - US Navy)

O SOUTHCOM é um dos 6 comandos de combate com áreas de responsabilidade estabelecidos no Command Unified Plan do Pentágono.

É responsável para todas as atividades de segurança do Departamento de Defesa nas 45 nações e territórios na América do Sul, América Central, e o Mar Caribenho, uma área de 16 milhões de milhas quadradas.



Almirante Kurt Tidd fala com o Editor-Chefe de DefesaNet
Foto - Juliana Shibata / Embaixada Americana


Breve Currículo do Almirante Kut W Tidd

O Almirante Tidd recebeu sua comissão da Academia Naval dos Estados Unidos, em 1978.

Teve relevantes comandos, entre outros:  4ª Frota US Navy;  Grupo de Ataque 8 do Porta-aviões USS Dwight Eisenhower (CVN-69), durante desdobramento de combate em apoio às forças de coalizão na Operação Liberdade Duradoura; de 2004 a 2005 comandou a guerra marítima ao terror no Golfo Pérsico como Comandante da Força do Oriente Médio e Comandante da Força Tarefa 55.

Em terra, o Almirante Tidd serviu como: Diretor Adjunto de Operações no Estado-Maior Conjunto; serviu três anos no Conselho de Segurança Nacional como Diretor de Política de Recursos Estratégicos, e como Diretor de Combate ao Terrorismo; foi o fundador adjunto para operações do chefe de operações navais na guerra ao terrorismo no Grupo de Planejamento de Operações “Deep Blue” estabelecido após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Como segunda geração de oficiais de guerra de superfície na sua família, o Almirante Tidd, é filho do Vice Almirante Emmett H. Tidd da Marinha dos Estados Unidos (aposentado) e irmão do Contra-Almirante Mark L. Tidd, 25º Chefe dos Capelães, da Marinha dos Estados Unidos, aposentado.



As primeiras palavras do Almirante Tidd foi uma saudação às vítimas da Chapecoense.  

Almirante Tidd: Permita-me começar dizendo, não só em nome do meu comando, mas de todo o povo americano, que sentimos muito pela perda do time de futebol [Chapecoense] no desastre aéreo na Colômbia. Sabemos que uma equipe esportiva muitas vezes é o coração de uma cidade pequena. Muitos sonhos e expectativas estavam a bordo junto com os jogadores. Compartilhamos da profunda tristeza, nos solidarizamos com as famílias e esperamos que a dor dessas pessoas amenize um dia.

DefesaNet: Também perdemos vários jornalistas nesse acidente – 20 profissionais.

Almirante Kurt Tidd: Trata-se de outra comunidade importante, e novamente [essa tragédia] afeta a vida de muitas famílias.

DefesaNet: Esta é sua primeira visita ao Brasil como Comandante do Comando Sul (US SOUTHCOM). Em sua visita anterior (2012), na época Comandante da 4ª Frota, o entrevistamos, o senhor mencionou a intensão dos EUA de se aproximarem do Brasil em termos de indústria e defesa. Como estão as relações Brasil-Estados Unidos no campo militar?

Almirante Kurt Tidd: Relembrando 2012, um dos principais tópicos de discussão eram a preparação e os desafios para a segurança durante Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Hoje, digo que o Brasil teve um êxito magnífico. O país sediou os dois eventos com excelência de parâmetros globais.

Na época, a comunidade internacional manifestou muitas dúvidas sobre se o Brasil seria capaz, e acredito que a nação não deixou dúvidas de que é referência em criar estrutura e ambiente para o turismo e eventos de grande porte. Sendo assim, dou meus parabéns aos homens e mulheres de todas as instituições brasileiras de segurança – A Polícia Federal, as polícias locais e as Forças Armadas, que se uniram e também atuaram tão de perto com a comunidade internacional para realizar esses jogos.

O mundo todo tem responsabilidade de colaborar e apoiar o país que se dispõe a sediar eventos esportivos dessa magnitude. Por conta da parceria de longa data entre Brasil e Estados Unidos, não houve dúvida de que faríamos o possível, tudo o que os organizadores brasileiros nos pedissem, para que o país tivesse o apoio necessário. Novamente, esse mérito é das lideranças brasileiras, mas ficamos muito felizes por participar.



O Almirante Kurt Tidd mostra grande entusiasmo pela condução das ações de segurança feitas pelo Brasil tanto na Copa do Mundo como nos JO RIO2016. Foto - Juliana Shibata / Embaixada Americana

DefesaNet: Em setembro, durante o Diálogo da Indústria de Defesa (30SET2016), foi novamente proposta a aproximação industrial e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Quais as propostas americanas nesse sentido agora?
(Ver link fim do artigo)
 
Almirante Kurt Tidd: Como você bem sabe, o papel de chefe do Comando Sul é de liderança operacional. Sempre que as Forças Armadas americanas conduzirem exercícios ou operações na América do Sul, América Central e Caribe, essas manobras acontecem sob meu comando. Minha responsabilidade é dar suporte às decisões do nosso Departamento de Defesa, nossos militares e nossa indústria do segmento de defesa à medida que essas instituições buscam mais cooperação com as suas autoridades equivalentes aqui no Brasil.

Esse foi um dos motivos de eu querer vir até aqui para conhecer e conversar com o Ministério da Defesa, bem como o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA) – para encontrar formas para que nossas indústrias estabeleçam parcerias.

Assim como temos interesses muito semelhantes na segurança, estabilidade e prosperidade econômica aqui no Hemisfério [Sul], também contamos com meios para que possamos trabalhar juntos em diferentes segmentos industriais. Porém, é difícil às vezes, por conta de legislações americanas ou brasileiras que podem ser entraves à entrada e colaboração de empresas estrangeiras.

Acreditamos que há oportunidades ótimas, e aí está o nosso papel através da nossa Embaixada e equipes industriais – encontrar caminhos. Minha função é viabilizar o entendimento entre as partes militares nos acordos.

DefesaNet: Esse entendimento inclui militares, indústria, governo. Várias perspectivas...

Almirante Kurt Tidd: Sim. E é baseado em uma relação de confiança sedimentada ao longo de décadas de trabalho conjunto – certamente décadas de trabalho conjunto entre nossas Forças Armadas. É uma oportunidade, para nós, de expandir essa confiança e buscar meios de aproveitar melhor as capacidades e equipamentos apresentados pelo Brasil, e então encontrar formas de cooperar.

DefesaNet: Por exemplo, o Super Tucano, da EMBRAER, está sendo produzido em solo americano. O senhor consegue prospectar outras iniciativas semelhantes?

Almirante Kurt Tidd: Foi o que discutimos hoje de manhã (02DEZ2016). O Super Tucano é um exemplo sensacional, mas pensamos também em como empresas menores podem se unir, dentro do que chamamos de ‘capacidades por nicho’. Assim, companhias brasileiras podem competir no mercado norte-americano, bem como empresas de lá podem vir e atuar junto com fabricantes daqui.

Temos interesses e especialidades semelhantes, desenvolvidos ao longo de anos de cooperação [entre Brasil e EUA]. É importante aproveitar a oportunidade de desenvolver e aprofundar esse relacionamento.



Um A-29B Super Tucano da Força Aérea da Colômbia voa ao lado de dois U.S. Air Force A-10 Thunderbolt II, do 75º Fighter Squadron, Moody Air Force Base, Georgia, durante o Exercício  Green Flag East, Agosto  2016. Foto – Força Aérea da Colômbia


DefesaNet: Atualmente, as Forças Armadas brasileiras recebem apoio americano na manutenção de equipamentos mais antigos: peças sobressalentes, modernizações no canhão M-109 e nos blindados M-113, bem como motores para as aeronaves de transporte Hercules e os caças Skyhawk. Esses projetos foram discutidos?


Almirante Kurt Tidd: Ao invés de debater casos específicos, conversamos sobre oportunidades mais amplas e processos que adotaríamos para viabilizá-las – que tipos de acordos teríamos que firmar para que haja essa troca de informação que, posteriormente, permitirá conversas em nível bem mais detalhado.(Nota DefesaNet - Para detalhes pode ser acessada a página da Publicação Diálogo do SOUTHCOM Link)

DefesaNet: A Marinha do Brasil sinalizou alguma iniciativa para aquisição de navios em especial de escolta e outros tipos?

Almirante Kurt Tidd: Acredito que as Forças de ambos os países estão empenhadas em traçar planos para o futuro. E parte desse planejamento é identificar quais as especificações e capacidades que cada uma dessas plataformas irá exigir. Nossa Marinha, Exército e Força Aérea vêm tentando olhar para frente e perceber quais necessidades técnicas precisamos suprir a fim de nos mantermos atualizados.

As Forças Armadas brasileiras estão na mesma posição de identificar o que é necessário para que continuem a garantir o nível de segurança, suporte para operações globais de manutenção da paz. É nesse terreno comum que estamos partilhando ideias e práticas acerca de como adquirir esses sistemas e produzir equipamentos e tecnologias capazes e confiáveis da maneira mais eficiente possível.

DefesaNet: Falando em operações de paz, atualmente o Brasil está presente no Haiti e no Líbano (UNIFIL). Já faz algum tempo que a missão no Haiti (MINUSTAH) deve ser reduzida. Foram discutidas possíveis novas operações?

Almirante Kurt Tidd: Essas decisões dizem respeito ao Ministério da Defesa do Brasil. O que eu gostaria de comentar e saudar é a enorme competência e liderança que o Brasil veio mostrando ao assumir o comando da MINUSTAH já há vários anos, bem como na UNIFIL, no Líbano. E também em operações passadas como no Timor e outras partes do mundo.

Estar disposto a participar já é importante. Estar disposto a assumir o comando é uma responsabilidade significativa que o Brasil carrega nos ombros, e o país vem mostrando excelência, bem como tropas disciplinadas e efetivamente capazes de proteger populações em alguns dos locais mais instáveis do globo.
Minha experiência mais recente foi após a passagem do furacão Matthew (em setembro), que devastou o sudeste do Haiti. A relação sólida entre militares brasileiros e americanos permitiu o trabalho conjunto sob liderança da MINUSTAH. Nesse episódio, o papel do meu comando foi fornecer helicópteros de transporte para trazer toneladas de suprimentos essenciais para ajuda humanitária: comida, água, materiais para construção de abrigos, equipamentos médicos.

Assim que esses suprimentos chegavam a Porto Príncipe, era necessário deslocá-los. Levar esses recursos até locais tão devastados é um desafio. As tropas da MINUSTAH (sob comando do general Ajax Porto Pinheiro) foram essenciais na segurança nos locais de pouso – quando os helicópteros chegavam, as tropas isolaram o perímetro para que pudesse ser feita a descarga. Caso contrário, havia o risco de vítimas desesperadas avançarem em direção às aeronaves com os rotores ainda girando, o que é extremamente perigoso.

As forças brasileiras fizeram um trabalho formidável junto às forças policiais haitianas delimitando essas áreas de pouso. Nós sabíamos, a cada dia, onde poderíamos descarregar os suprimentos para as vítimas, e que haveria tropas em terra para dar segurança durante o processo. Isso graças ao comando eficiente das tropas da MINUSTAH por parte do Brasil, que nos permitiu deslocar aproximadamente 300 toneladas de recursos.




Tripulantes americanos, com ajuda de membros do Exército Brasileiro, participantes da MINUSTAH, desembarcam equipamentos durante a operação de ajuda após o Furacão Matthew, que atingiu o Haiti. Foto SOUTHCOM


DefesaNet: Em 2012, conversamos sobre a 4ª Frota da Marinha dos EUA. Na época, o governo brasileiro mostrou ter reservas quanto à posição norte-americana no Atlântico Sul. Porém, no ano passado, a última edição da UNITAS teve forte participação da Força Aérea Brasileira e da Marinha, com diversos exercícios conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. Qual a sua impressão sobre esse debate atualmente?


Alt. Tidd: A UNITAS foi a oportunidade para realizar exercícios complexos, manobras navais no caso, em que Brasil e Estados Unidos podem se reunir, para trocas muito produtivas. Os navios puderam executar exercícios bastante sofisticados. É uma chance que não temos mais com a frequência de antes, e pudemos aproveitar a passagem do porta-aviões USS CVN73 George Washington, que estava se deslocando da Costa Oeste dos EUA para a Costa Leste. Foi uma ocasião única.

Apreciamos muito o fato de poder trabalhar junto a instituições como a Marinha do Brasil – uma Força capaz, moderna e bem comandada – e atuar como iguais. Essa é uma oportunidade que devemos aproveitar sempre que possível.

DefesaNet: Quanto ao seu comando, o senhor é ‘responsável’ por todo o continente americano. As atribuições e responsabilidades do Comando Sul estão aumentando por conta de questões como o crime organizado na América Central, tráfico de drogas e outros problemas regionais?

Almirante Kurt Tidd: A função do nosso comando é estabelecer parcerias eficientes com os países da região. Nações om quem temos interesses e entendimentos semelhantes, bem como a disposição para lidar com esses desafios na área de segurança que são comuns a todos nós. Desafios esses que são uma ameaça direta à segurança, estabilidade e êxito econômico de toda a região. Meu papel é estabelecer ou, no caso do Brasil, manter essas relações e buscar novas formas de exercer esses vínculos.

É primordial que continuemos a trabalhar juntos, pois essa área do globo apresenta ameaças que não são tão óbvias. Somos imensamente afortunados por vivermos em uma parte do mundo onde as nações não combatem umas às outras – nações em guerra direta. Por isso, às vezes não é evidente para nossas populações a necessidade e função das forças militares. Mas, na verdade, há um propósito ainda maior – nossas Forças Armadas trabalham junto às forças policiais, instituições de inteligência e instâncias diplomáticas para construir essa rede de amizade que permite enfrentar redes de crime e terrorismo que representam um perigo à soberania dos países nessa parte do globo, bem como às nossas populações.

Precisamos construir uma rede mais eficiente. Nenhuma nação sozinha consegue mais dar conta dessas questões, assim como nenhuma peça isolada do aparato de segurança – apenas os militares, apenas as polícias e sistemas judiciários locais, ou diplomatas. É preciso o máximo de esforço de todas essas instituições. Como eu falei na reunião esta manhã, é como montar um time de futebol é preciso alguns atacantes, defesa e um bom goleiro. E todos precisam trabalhar juntos, de forma coordenada, ou a derrota é certa.

É esse nosso trabalho junto às Forças Armadas brasileiras, mas também buscando estabelecer essa rede mais ampla de instituições legais e diplomáticas, todas articuladas de forma coerente ao longo de todo o Hemisfério Sul. Devemos isso a todos os nossos cidadãos: proporcionar o mundo mais seguro e próspero que conseguirmos.



Cerimônia de posse do Almirante Kurt Kidd no SOUTHCOM, 14JAN2016. Ao seu lado Secretário de Defesa Ashton Carter, Chefe do Estado-Maior Gen USMC Joseph F. Dunford, e o Gen USMC John Kelly, ex-comandante.  Foto - SOUTHCOM


DefesaNet: O senhor tem uma vasta experiência em combate, e agora atua como diplomata e político...

Almirante Kurt Tidd: Político não! (risos)

DefesaNet: O senhor atua como diplomata então, dialogando com 45 países e territórios distintos, e precisa entender diversas culturas e realidades. Como o combatente enxerga esse novo trabalho à frente do Comando Sul?

Almirante Kurt Tidd: É incrivelmente desafiador, mas também me dá a oportunidade de tentar criar esses vínculos e facilitar a formação de parcerias que têm em comum os interesses de todos os nossos cidadãos. Acho uma missão extremamente gratificante, porém difícil, pois exige muito do meu tempo para conhecer e entender meu contrapartes em cada nação com que trabalho.

Então, penso que ter vindo ao Brasil, sentar e conversar com o Almirante Ademir Sobrinho (chefe do EMCFA, conhecê-lo pessoalmente e criar esse contato pessoal, terá bons resultados. Caso Brasil e EUA tenham que atuar juntos em um cenário de instabilidade, bastará telefonar. Nós sentamos à mesa juntos, tomamos uma caipirinha, e agora tenho confiança de que poderemos enfrentar desafios juntos.





Área de Responsabilidade do US SOUTHCOM, que inclui 45 países ou territórios e uma superfície de 16 milhões de milhas quadradas

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O Editor agradece a colaboração e atenção do Staff de Comunicação da Embaixada Americana, em Brasília DF: Sra. Marília A. Araujo, Sra Arlissa M. Reynolds, Sra. Abigail L. Dressel e também da Sra. Gabriela de Campos Fontenele.

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