COBERTURA ESPECIAL - Base Industrial Defesa - Terrestre

29 de Julho, 2019 - 22:30 ( Brasília )

Gen Div Neiva Filho - Exército decide reduzir alcance em vez de adiar seus projetos

Atraso por corte de verbas põe programas em risco de defasagem


Fernando Exman e Carla Araújo
Valor 29 Julho 2019

 
O Exército deixará de prorrogar os prazos dos seus projetos estratégicos e, caso continue sem receber os recursos inicialmente previstos no Orçamento, reduzirá o alcance desses programas.

O chefe do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), General-de-Divisão Ivan Ferreira Neiva Filho, argumenta que os empreendimentos não podem atrasar tanto a ponto de já serem considerados desatualizados quando finalmente forem concluídos. Em um aceno à equipe econômica, acrescenta: impulsionar a indústria nacional de defesa, além de garantir o desenvolvimento tecnológico do país, é um meio de aquecer a economia doméstica e até assegurar novas fontes de renda para o próprio Exército por meio da obtenção de royalties de exportações.

"Prazo não vamos alongar. Isso é certo", afirmou Neiva ao Valor, complementando que essa é a opinião do general Fernando Azevedo e Silva desde que o atual ministro da Defesa era chefe do Estado-Maior do Exército. "Não tem mais como alongar. O risco é a gente está desenvolvendo alguma coisa e quando chegar lá na frente eles [projetos] já estarem ultrapassados."

 

General-de-Divisão Ivan Ferreira Neiva Filho: "Você tem uma economia que precisa crescer, retomar o ritmo de crescimento; o setor que mais vai reagir é a indústria da defesa"


Neiva é responsável por uma área que funciona nos moldes de um "Project Management Office", ou PMO, na sigla em inglês - estrutura organizacional que centraliza, na iniciativa privada, a gestão de projetos de uma empresa. O órgão foi criado em 2012 pelo general Eduardo Villas Bôas, que anos depois virou comandante do Exército e hoje despacha na assessoria especial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

"O conceito é dele [Villas Bôas], o primeiro chefe foi ele, a primeira fotografia [na parede em homenagem aos ex-chefes] é dele e ele tem um apreço por isso aqui gigantesco", disse o general. "Toda hora ele pergunta como está, por que ele montou, a concepção foi dele. Havia uma estrutura incipiente antes, mas ele formalizou o EPEx com perfil de PMO."

Neiva gerencia um portfólio com 16 programas estratégicos, cada um com uma série de projetos dentro de si, totalizando 147. Entre os quais destacam-se, por exemplo, o desenvolvimento da nova família de blindados Guarani, os lançadores ASTROS 2020 de foguetes e mísseis, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), defesa cibernética, aviação e o sistema educacional da Força.



Representante do Exército da Indonésia visita o Forte Santa Barbara (Formosa/GO). A Indonésia é usuária do ASTROS. Outro país na região que também emprega o ASTROS é a Malásia. Foto Exército  

Em um cenário de restrição orçamentária, menos blindados seriam distribuídos pelo território nacional ou menos Estados fronteiriços entrariam na cobertura do SISFRON, por exemplo.

Segundo o general, ao todo o Exército deveria ter recebido nos últimos dez anos cerca de R$ 20 bilhões para tocar esses projetos, mas obteve R$ 7 bilhões. "Recebemos um terço, a realidade brasileira se mostrou outra", explicou. Ele destacou que o cenário ideal para a conclusão de todos os projetos seria receber R$ 99 bilhões até 2040, mas reconheceu ser difícil de alcançar esse valor. Afirmou, por outro lado, ter a expectativa de ver elevado o desembolso anual a partir deste ano, inclusive com o descontingenciamento de verbas do Orçamento de 2019.
 
"Se os patamares orçamentários não nos permitirem alcançar, o que a gente vai fazer é reduzir o escopo", acrescentou o general, sublinhando que tal situação inevitavelmente geraria consequências e demandaria decisões políticas sobre a alocação dos recursos de quais frentes seriam comprometidas. Neiva lembrou que o desenho dos projetos remonta a 2008, quando a Estratégia Nacional de Defesa determinou que as Forças Armadas passassem por um processo de transformação. "A própria Estratégia Nacional de Defesa tem outro conceito: um projeto forte de defesa é um projeto forte de desenvolvimento. Ao gerar novas capacidades e transformá-las, você tem o potencial de desenvolver o país em paralelo", afirmou.

"Foi feito lá atrás uma opção de 'comprar Brasil'. Na maioria dos programas, o desenvolvimento tecnológico foi feito pelo Brasil. Isso foi uma opção estratégica." Um exemplo é a nova família de blindados sobre rodas do programa Guarani, cujo projeto emprega 132 engenheiros e técnicos de alto nível, além de gerar outras 300 vagas indiretas. Outro programa considerado fundamental pelo Exército em razão de seu poder dissuasório é o ASTROS 2020, que tem como objetivo garantir apoio de fogo de longo alcance com elevada precisão e letalidade.

Nota DefesaNet

A tabela abaixo foi apresentada pelo Ministro da Defesa nas suas audiências na Câmara e Senado Federal. Apresentamos somente os Programas Estratégicos do Exército



O programa H-XBR é um Programa das três forças.



Ele tem previsão de ser concluído em 2023, quando as forças terrestres contarão com 50 novos veículos e modernizarão outros 38 capazes de lançar foguetes e mísseis contra alvos a até 300 quilômetros de distância. Incluindo a construção de um forte, o projeto possibilita a geração de aproximadamente 7 mil empregos diretos e indiretos.

Segundo o chefe do Escritório de Projetos do Exército, muitos desses programas estratégicos atraem o interesse de outros países, o que pode render negócios às indústrias brasileiras e o aumento da influência do país no exterior. "Praticamente toda semana tem algum integrante de alto nível de alguma força armada que vem ao Brasil para conhecer os nossos programas", afirmou ele, acrescentando que todos os programas foram concebidos com instrumentos de cooperação.

Guarani em teste de navegação na fábrica da IVECO em Sete Lagoas, Minas Gerais. Foto - IVECO


O general citou como exemplo recentes visitas de oficiais do Peru, Uruguai, Espanha, Argentina, África do Sul e Paquistão. Os dados mais atualizados do setor constam do anuário de 2018 da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança. De acordo com a ABIMDE, a base industrial de defesa é responsável por mais de 60 mil empregos diretos e 240 mil empregos indiretos. Ela sustenta ainda que o setor é responsável por 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e exportou R$ 4,7 bilhões em 2017, dados frequentemente citados por militares e autoridades civis.

O Exército se beneficia de royalties da venda ao exterior de produtos desenvolvidos em conjunto com a iniciativa privada, como radares, mísseis teleguiados, foguetes. Os percentuais variam em torno de 5%. "A tendência tem sido forte no sentido de procurar mercados externos", disse o general. Outra fonte de receita que o Exército aposta é o direcionamento de emendas parlamentares impositivas, cujo peso aumentou no Orçamento.

"Você tem uma economia que precisa crescer, que precisa andar, retomar o ritmo de crescimento. O setor que mais vai reagir é a indústria da defesa", sustentou o general. "Acho que esse é um grande argumento para descontingenciar [o Orçamento da União], eu já usei esse argumento."

 
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