COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

05 de Novembro, 2018 - 11:47 ( Brasília )

Entrada de Bolsonaro rearruma alianças nas Américas

Especialistas sul-americanos afirmam que a sensação predominante é a de que o Brasil recuperará o papel de destaque perdido desde que mergulhou numa sucessão de crises, a partir de 2013.


BUENOS AIRES - A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil criou nos países vizinhos a expectativa de formação de novas alianças nas Américas. Especialistas sul-americanos ouvidos pelo GLOBO coincidiram em afirmar que a sensação predominante é a de que o Brasil recuperará o papel de destaque perdido desde que mergulhou numa sucessão de crises, a partir de 2013. A novidade, destacaram, é que a diplomacia irá na contramão do que ocorreu em governos do PT, e terá como parceiros preferenciais Estados Unidos, Colômbia e Chile, todos governados pela direita.

O fato de Bolsonaro ser um militar da reserva e ter entre seus colaboradores outros ex-militares é um elemento fundamental para traçar novos cenários regionais, afirmou o argentino Juan Tokatlián, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella. Para ele, “o olhar geopolítico dos militares será chave nesta nova etapa do Brasil e do continente”:

— Isso terá um peso enorme na luta contra o narcotráfico e o crime organizado, na qual o Brasil deverá aliar-se a países como a Colômbia.

Tokatlián destacou que, no pouco espaço dedicado por Bolsonaro à política externa em seu programa de governo, está uma parabenização ao governo colombiano por “ter derrotado as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e com elas o comunismo”. O professor vê como principal eixo regional a partir de agora a relação entre Brasília, Washington, Bogotá e Santiago. A Argentina de Mauricio Macri foi excluída por quase todos os analistas pela dificuldade do presidente argentino de superar seus problemas internos.

Revival dos 1970

No caso de Brasil e Chile, Tokatlián especulou com uma espécie de revival da aliança bilateral entre os dois países na década de 1970, incluindo os primeiros anos da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Na capital chilena, nota-se a sintonia entre Bolsonaro e o presidente Sebastián Piñera. Enquanto a maioria dos chefes de Estado da região se manteve em silêncio durante a campanha brasileira, Piñera elogiou o programa econômico de Bolsonaro, e agora o Chile poderá ser o primeiro país a ser visitado pelo presidente eleito.
— O Chile tem a mesma visão de abertura de fronteiras e mercados. Nesse sentido, farão uma boa parceria. A visão sobre a Venezuela também é semelhante, já que ambos consideram Nicolás Maduro um ditador e defendem sua saída do poder — disse Marco Moreno, reitor da Universidade do Chile.
 
Moreno lembrou que será necessário encaixar o mexicano Manuel López Obrador em algum lugar desse novo quebra-cabeças, o que poderia representar uma dificuldade para Bolsonaro, dadas as divergências ideológicas entre eles.

— Vejo uma relação privilegiada com os EUA de Trump, com Chile, Colômbia e Argentina — disse Moreno.

A tendência política predominante na região começou a mudar há algum tempo, com a chegada de Macri à Casa Rosada e o impeachment de Dilma Rousseff. Depois vieram as eleições dos direitistas Mario Abdo Benítez, no Paraguai; Iván Duque, na Colômbia; e a nova eleição de Piñera, que já havia presidido o Chile entre 2010 e 2014. O isolamento dos bolivarianos aumenta e poderia prejudicar seus planos de permanência no poder. É o caso do boliviano Evo Morales que, apesar da proibição constitucional, obteve aval da Justiça para se candidatar pela quarta vez em 2019.

— Para Evo, a eleição de Bolsonaro é uma péssima notícia. Foi mais um golpe na esquerda e na sua ideia de que ficaria para sempre no poder — afirmou Carlos Cordero, professor da Universidade Maior de San Andrés, em La Paz.
Para ele, “Morales deverá aprender a se relacionar com Bolsonaro para tratar questões comuns como o narcotráfico”.

— Todos os bolivarianos serão mais pressionados por essa nova aliança de centro-direita — disse Cordero.

Oposição venezuelana

A imigração venezuelana continuará ocupando um lugar central na agenda regional, e uma provável parceria entre Brasil, Colômbia, Chile e Argentina poderia levar a desfechos mais contundentes, apontou a professora Elsa Cardozo, da Universidade Central da Venezuela (UCV).

— O governo Temer não teve popularidade nem legitimidade para agir. Com Bolsonaro, esperam-se ações mais enfáticas para resolver essa crise dramática. A oposição venezuelana também conta com um apoio mais sólido por parte de um Brasil líder — disse.

A vitória de Bolsonaro foi comemorada pela oposição ao governo de Maduro. Dirigentes oposicionistas trabalham freneticamente para construir pontes com o presidente eleito e esperam que o novo cenário regional leve a maior pressão sobre Caracas.

— Acreditamos que Bolsonaro ajudará de forma decisiva a redobrar a pressão sobre Nicolás Maduro — afirmou o deputado e ex-presidente da Assembleia Nacional Julio Borges, hoje exilado na Colômbia.

Borges revelou que ex-presidentes latino-americanos estão ajudando os opositores venezuelanos a estabelecer contatos com Bolsonaro e seu círculo. Ele hoje descarta qualquer tipo de intervenção em seu país, mas admite que esse cenário poderia ser cogitado em médio prazo. Lembrou que todos os países que não reconheceram a reeleição de Maduro em maio último defendem que o mandato dele termina em 10 de janeiro:
 
— Depois dessa data, a situação vai mudar. Se as saídas democráticas se fecharem, o responsável será Maduro.

Visão de Washington

O radicalismo de Jair Bolsonaro pode ser seu trunfo e, ao mesmo tempo, sua maior fraqueza nas relações diplomáticas. Se suas posições polêmicas podem fazer com que governos moderados da América Latina se afastem de Brasília, suas propostas conservadoras podem aproximá-lo de Donald Trump.

Em Washington, há dúvidas sobre se Bolsonaro conseguirá impor seus impulsos ao Itamaraty, que tem uma cultura própria e defende de forma institucional princípios como a autodeterminação e o multilateralismo. Mesmo que o presidente eleito indique um chanceler alinhado a suas posições, parte da mensagem pode ser “filtrada” por diplomatas talhados pela tradição.

A visão geral, porém, é que a Casa Branca terá um aliado em Brasília. Depois de anos de governos do PT — que ajudou a enterrar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e promoveu a institucionalização do G20 e dos Brics—, a sensação é que a Casa Branca poderá contar com um aliado fiel no segundo país mais populoso do hemisfério. É esperada maior sintonia no combate ao narcotráfico, no comércio, em tecnologia e em operações militares, numa cooperação que ainda frearia a influência chinesa na região.

Diz-se que Trump costuma se dar bem com “homens fortes”, como Kim Jong-un e Vladimir Putin. O mesmo poderia ocorrer com Bolsonaro. Ainda na visão de Washington, o novo presidente poderá se beneficiar do “ocaso” de outros líderes, como Mauricio Macri, e da mudança ideológica no México, com a posse, em 1º de dezembro, de um “homem forte” da esquerda, Andrés Manuel López Obrador. Nesse cenário, Bolsonaro teria mais a oferecer que Iván Duque, pois a Colômbia, historicamente, já é um parceiro fiel dos EUA.


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