COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Pensamento

14 de Novembro, 2016 - 14:30 ( Brasília )

Informe Otálvora: Morre a Doutrina Obama para a América Latina

A América Latina não é uma questão de urgência no mapa do mundo que Trump tem em mente. Renegociação ou cancelamento dos acordos de Obama com o regime cubano e apoio à oposição venezuelana foram mencionados por Trump, ocasionalmente, em sua Campanha


 

Edgar Otalvora
@ecotalvora


"Ninguém sabe muito sobre política externa, todos devem entrar num período de estudos, em um frenesi estudo."

Assim, Henry Kissinger referiu-se, na manhã de 10NOV2016, algumas horas após serem conhecidos os resultados das eleições nos EUA, em relação à posição dos grandes “players” na política mundial em relação à Donald Trump. Este é o epílogo de uma longa entrevista com Jeffrey Goldberg para a edição de dezembro da revista The Atlantic, na qual Kissinger, a velha raposa da política externa dos EUA, confronta a chamada Doutrina Obama. Kissinger revelava, assim, o grau de incerteza que a chegada de Trump à Casa Branca traz para o campo das relações internacionais.

Em suas primeiras horas como presidente eleito, Trump telefonou para os líderes do Egito, Irlanda, México, Israel, Turquia, Índia, Japão, Austrália e Reino Unido. À primeira-ministra britânica Theresa May, Trump disse que "Theresa é a minha Maggie", uma clara referência à relação especial que manteve os governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Mas a menos que a lista pública de suas primeiras conversas telefónicas e vagas referências a questões internacionais durante a campanha eleitoral, a política externa de Trump é um dilema real que tenta ser resolvido com a as especulações das mais variada por analistas em todo o mundo.

Uma coisa parece é certa: a América Latina não é uma questão de urgência no mapa do mundo que Trump tem em mente. Renegociação ou cancelamento dos acordos de Obama com o regime cubano e apoiar a oposição venezuelana foram mencionados por Trump, ocasionalmente, em sua campanha e em um discurso, em 02NOV2016, em Miami, durante a dura batalha eleitoral do estado Florida.

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Em 26JAN2015 foi realizada em Washington DC, com a presença de vários líderes caribenhos e o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, um fórum para discutir o documento “Uncertain Energy: The Caribbean’s Gamble with Venezuela”. A produção do evento e da elaboração do documento foram parte de um projeto atribuído ao ao Think Thank Atlantic Council, a fonte mais ouvida pelo Governo Obama em questões internacionais.

O documento apresentado nesse dia alertava para os graves impactos que podem ocorrer no Caribe, com a crise econômica iminente na Venezuela, e já nesta época ficava claro o declínio dos embarques de petróleo venezuelano, como parte do acordo do Petrocaribe e um aperto das condições crédito concedido por Maduro aos seus parceiros do Caribe. O Atlantic Council advertia que a crise venezuelana poderia desencadear "o risco de um evento de migração fora de controle" no Caribe, obviamente, para a costa dos EUA. A solução proposta pelo Atlantic Council, era promover uma nova matriz energética no Caribe com o apoio dos EUA para compensar o fim inevitável do subsídio chavista ao consumo de energia no Caribe.
 
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Em 09ABR15, Barack Obama realizou uma parada de dois dias em Kingston, Jamaica. Líderes caribenhos acorreram para lá, alguns deles parceiros políticos do castrochavismo para realizar uma reunião do CARICOM (The Caribbean Community)com Obama. A proposta do Atlantic Councilfoi o tema central da reunião. Em Caracas, entretanto, paranóia e megalomania do regime de Chávez seguiu os passos de Obama pelo Caribe como se fosse uma conspiração.
 
De acordo com Maduro, durante a reunião em Washington DC, Biden realmente expôs um plano para derrubar o governo chavista. A rede televisiva e de propagando do regime a Telesur insistiu que a iniciativa de Obama procurava apenas "quebrar o esquema de cooperação petrolífera da Petrocaribe". Maduro demorou a  compreender que a política da Casa Branca de Obama não procurava a derrubada de seu governo, mas evitar que a sua queda gerasse impacto na costa leste dos Estados Unidos. Desde 2014, enquanto o chavismo afirmava que os EUA conspirava contra Caracas, a diplomacia de Obama trabalhou para apoiar pelo menos três tentativas de estabelecer esquemas de diálogo político entre o governo e a oposição na Venezuela.

A Doutrina Obama avaliava o chavismo como uma "não ameaça" para os EUA foi aplicadada de forma sistemática, e só foi quebrada em 09MAR2015 quando o governo dos Estados Unidos, sob pressão de congressistas republicanos, aplicou a Lei para a Proteção dos Direitos Humanos e Sociedade Civil da Venezuela, punindo alguns funcionários chavistas. Se espera que a reeleição, em08NOV2016, do senador Marco Rubio e deputada Ileana Ros-Lehtinen, ambos republicanos da Florida, estimulem um linha de confronto de Trump contra regimes castrochavistas, empurrando para o "internacionalismo idealista" proclamado pela Doutrina Obama Doutrina passe a ser coisa do passado.

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As eleições municipais no Brasil 02OUT2016, o plebiscito sobre o Acordo Santos-FARC, na Colômbia 02OCT16, e a eleição presidencial dos EUA, 08NOV2016 teve um elemento em comum: a importância do voto por razões religiosas. Os resultados nos três eventos foram marcados pelos movimentos "pró-vida" cristãos católicos e, em particular, as várias versões de igrejas "evangélicas" com posições anti-aborto e visões  conservadores sobre as questões de gênero. Os números apoiam esta análise.

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Os resultados das eleições municipais no Brasil deixou claro o fracasso do outrora poderoso Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva. Durante os meses que duraram o processo que culminou com o “impeachment”, em 31AGO2016, Lula e Dilma Rousseff, gostavam de argumentar que o impeachment era um golpe contra o PT, que representava a maioria dos brasileiros. Rousseff propôs inclusive a antecipação das eleições presidenciais, com a garantia de que o PT iria varrer os opositores nas urnas. Lula garantiu que retornaria ao Palácio do Planalto, em2018.

Mas os planos de Lula e Dilma eram ilusórios, como a vitória eleição presidencial do PT em 2010 e 2014 só foi possível graças à contribuição de votos de PMDB do Vice-presidente Michel Temer, um partido que não é de esquerda, que agora assumiu a Presidência. As eleições municipais de outubro foram um banho de água gelada, que apagou a imagem de um Lula imbatível. Desprovido agora dos recursos do orçamento federal para gastos na área social, juntamente com acusações de corrupção contra dezenas de líderes do PT, além da implementação de novas regras eleitorais que impedem contribuições campanhas comerciais, e além de fortalecer os partidos com tendência de centro e centro-direita. Com isto acabou com a maior partido castrochavista do continente.
 

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Brasil é dividido em 5.568 municípios, dos quais o PT só conseguiu vencer em 254. Esta marca é equivalente a um terço dos 632 municípios conquistados nas eleições de 2012. O único prefeito de capital estadual que o PT manteve foi Rio Branco, cidade de menos de um milhão de habitantes na fronteira e estado amazônico do Acre. Em contraste, em 2008, o PT controlava 10 capitais estaduais.

No estado de São Paulo, o berço e reduto do PT, o partido de Lula caiu de 72 para apenas oito municípios sob seu controle.

O PT perdeu a prefeitura da cidade de São Paulo, que tem mais de 12 milhões de habitantes, que foi tomado por uma aliança liderada pelo PSDB de João Doria Jr. O PT foi buscar a reeleição na cidade de São Paulo com Fernando Haddad. Lula, acreditando que contribuiria pessoalmente com votos envolveu-se na campanha  acompanhando o seu candidato em várias atividades. O resultado foi catastrófico para Haddad, que não conseguiu passar para o segundo turno. A derrota de Lula em sua terra era tal que seu enteado, Marcos Cláudio, não conseguiu ser reeleito como vereador, em São Bernardo do Campo, onde a família de Lula reside.

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Em 17MAIO2016, o Conselho Nacional do PT aprovou iniciar uma campanha para "negar legitimidade ao governo ilegítimo de Michel Temer", "fazer a defesa política do legado de nossos governos" e "defender o presidente Lula da mídia e ataques judiciais." Após a demissão de Rousseff, eles as tentativas do PT e seus aliados na esquerda radical falharam em criar um clima de ingovernabilidade no Brasil com protestos de rua em massa e greves sindicais em áreas estratégicas. Invadindo centenas de estabelecimentos de ensino, no final de outubro em todo o país por jovens liderados pela União Nacional dos Estudantes (UNE) controlada pelo PT, é talvez a única ação da força de Lula que conseguiu fazer o PT para enfrentar o novo governo brasileiro.

Dentro do PT há luta entre facções ferozes pelo controle do aparelho do partido, alguns dos quais começam a afastar a liderança de Lula. O ex-presidente, que já é alvo em três processos, está agora mais preocupado em salvar-se das acusações que podem levá-lo à cadeia ou pelo menos desativa-lo politicamente. Em 10NOV2016 convocou uma cerimônia na Casa de Portugal em São Paulo, para iniciar a campanha "em defesa da democracia, do estado de direito e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva", cujo próprio nome revela a fraqueza de que era um líder político forte no Brasil e no continente .

De fato, em uma entrevista publicada 11JAN2004 pela Folha de São Paulo, Donald Trump falou sobre a política econômica do governo do então presidente brasileiro Lula da Silva: "Ele está fazendo um trabalho admirável da mais alta qualidade. Estou muito otimista sobre seu governo. "



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